O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou ao Ministério da Agricultura que mude ou revogue a regra que obriga produtores a contratarem atestados de conformidade agrícola para acessar crédito rural subvencionado e outras políticas públicas. Segundo o órgão, a instrução normativa que criou a obrigação deveria ter sido submetida ao Conselho Monetário Nacional (CMN).
Criada em 2025, a Infraestrutura de Verificação Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos (VMG) verifica se as propriedades estão fazendo a aplicação correta de recursos subsidiados, com apoio de inteligência artificial e imagens de satélites.
No material enviado ao ministério, ao qual o Valor teve acesso, o TCU disse que o condicionamento de acesso ao crédito rural à emissão do atestado VMG “extrapola a competência” da Pasta e “gera insegurança jurídica, custos adicionais e risco de interpretações divergentes entre os agentes” do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR). A indicação é que o tema seja avaliado pelo CMN, formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e Orçamento e o presidente do Banco Central.
Os apontamentos prévios do TCU foram encaminhados pelo relator, ministro Augusto Nardes, no mês passado para manifestação do Ministério da Agricultura. O mecanismo foi instituído na gestão do ex-ministro Carlos Fávaro.
Uma fonte graduada da Pasta afirmou que alterações normativas serão realizadas em breve para atender às “indicações de melhorias” do relatório. Consultado, o Ministério da Agricultura não respondeu. O TCU informou que se manifesta apenas por meio de seus acórdãos e que ainda não há decisão no processo nem divulgação de documentos.
O TCU também determinou mudanças nos requisitos de escolha de prestadoras dos serviços de emissão dos atestados, considerados “restritivos”. Apenas uma companhia foi credenciada em 2025 e duas em 2026. Entre os critérios estão a necessidade de comprovar experiência mínima de monitoramento de 100 milhões de hectares e de certificações técnicas específicas. Para o TCU, isso pode limitar a concorrência.
A adesão ao VMG está baixa. Embora vigente desde setembro de 2025, houve apenas quatro atestados VMG emitidos até fevereiro de 2026, correspondendo a 487,61 hectares. O custo do atestado e do monitoramento da área para o produtor é de R$ 5,5 por hectare, estima a empresa credenciada em 2025. Se forem considerados os atestados emitidos até agora, o custo está em média em R$ 3,72 por hectare analisado.
A instrução normativa que criou a obrigação do atestado, de agosto de 2025, foi alvo de críticas de entidades do setor produtivo e parlamentares, que pediram apuração do TCU e da Controladoria-Geral da União (CGU).
Os produtores argumentam que a exigência representa um custo extra, e que os bancos já realizam uma varredura documental automática e a verificação socioambiental e embutem esse custo no spread cobrado.
Em abril, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) firmou acordo com o Ministério da Agricultura para integrar a Infraestrutura VMG aos processos de recuperação judicial de produtores. A intenção foi usar os dados da tecnologia para garantir mais transparência nas decisões dos magistrados do país. Procurado, o CNJ não respondeu se a ferramenta continuará em uso.

