O avanço da incorporação de tecnologias a máquinas agrícolas, como piloto automático, telemetria, automação e inteligência artificial, está criando novos perfis de profissionais e exigindo conhecimentos cada vez maiores de mecânicos e técnicos que lidam com maquinários diariamente.
“Muitos ainda pensam no mecânico de macacão com graxa. Hoje, vemos novas profissões, como consultor técnico, piloto de drone, com alto nível de tecnologia e cargos bem remunerados”, diz Marlon Ferreira, engenheiro mecânico e especialista em máquinas agrícolas e agricultura de precisão da Massey Ferguson, marca da AGCO.
Ferreira foi campeão do Master Mechanic, reality show de competição entre mecânicos do Brasil realizado pela Massey Ferguson em 2023. Desde então, passou a auxiliar profissionais da empresa.
Segundo ele, um mecânico de máquinas agrícolas atualmente precisa ter competência para trabalhar no computador, como um consultor técnico. E os treinamentos precisam ir além de apenas tratar de produto e suas funcionalidades. “[É preciso de] treinamento focado em entregar o melhor da plantadeira para ter melhor produtividade, em vez de falar só sobre o produto”, afirma.
Além de exigir aprimoramento nas profissões já existentes, o grande volume de dados que vem do campo está criando novas profissões no agro. É o caso da função de cargo de analista de dados criada dentro da CNH Industrial, fabricante detentora das marcas New Holland e Case IH. Nessa função, o analista trabalha em uma central de controle monitorando dados gerados por máquinas no campo.
Com o aumento da abrangência de ocupações no setor, o número de pessoas empregadas no agro brasileiro está crescendo. Em 2025, a população ocupada no agronegócio cresceu 2,2%, para 28,4 milhões. O avanço foi maior do que o do mercado de trabalho brasileiro em geral no ano passado, que cresceu 1,7%. Com isso, a participação do setor na geração total de empregos passou de 26,1% em 2024 para 26,3% em 2025.
Profissões como analistas de dados já ocupam diversas posições em diferentes segmentos do agro. Segundo Gabriel Vieira, gerente de Treinamentos da CNH para a América Latina, há tanto analistas de dados nas fazendas atuando com base nos dados de desempenho de cada máquina recebidos em seus aplicativos, como nas concessionárias, em centrais de inteligência. “São analistas de dados monitorando todos os equipamentos de campo e gerando alertas preditivos ou corretivos”.
Vieira acredita que a nova geração de produtores rurais será fundamental nessa transição do perfil de trabalhadores no agro. “Temos investido nessas parcerias educacionais para dar o contato com a tecnologia e a informação para os jovens, já que eles vão dar continuidade nas operações de máquina no campo”.
Novas profissões
O avanço das tecnologias não só cria novas funções como também reinventa as que já existem, avalia Vinicius Fonseca, gerente de Agricultura de Precisão da John Deere para a América Latina.
O operador de máquinas, por exemplo, está evoluindo para um profissional capaz de interpretar indicadores, acompanhar a eficiência operacional e atuar diretamente na qualidade da execução, diz Fonseca. Já o agrônomo passa a contar com históricos detalhados das operações para comparar safras e estratégias de manejo, acrescenta. Mesmo os gestores agrícolas conseguem monitorar várias fazendas em tempo real, exemplifica.
“Claro que veremos um crescimento de especialistas em análise de dados agrícolas e IA aplicada, mas a maior mudança acontecerá nas profissões tradicionais do campo”, afirma.
Mesmo o trabalho dos analistas de dados deve se transformar. Recentemente, em setembro, a John Deere lançou uma inteligência artificial própria que compila o histórico de dados coletados pelas máquinas, interpreta-os e fornecer respostas personalizadas. Segundo Fonseca, a funcionalidade não exclui a necessidade do trabalho humano. “A IA apenas facilita o acesso às informações e à geração de insights. A decisão continua sendo humana”, afirma.
Ele acrescenta que a tecnologia não substitui a experiência das pessoas. “Quanto mais dados temos disponíveis, maior é a necessidade de profissionais capazes de interpretar contextos diferentes, entender as particularidades da operação e transformar informação em ação”.

