Em uma ofensiva para diversificar sua matriz energética e reduzir a forte dependência do petróleo importado, a Índia lançou oficialmente no mercado um novo combustível com altíssimo teor de etanol nesta sexta-feira (5).
Atualmente, a nação sul-asiática já comercializa em toda a sua rede varejista a gasolina com 20% de etanol, conhecida como E20. O novo combustível, batizado de E85, contará com cerca de 85% de etanol em sua composição e promete ser menos poluente que os concorrentes convencionais.
Além do apelo ecológico, o bolso do consumidor também deve sentir o reflexo: o E85 terá um preço 20 rúpias mais barato por litro do que a gasolina E20, ou uma economia de 20% para o bolso.
O anúncio foi feito pelo ministro do Petróleo, Hardeep Puri, que apresentou a novidade em um posto da Indian Oil Corp., na capital Nova Déli. Inicialmente, o produto começará a ser vendido em 50 postos de combustíveis espalhados pelo país.
De acordo com Puri, a Índia possui hoje uma capacidade instalada para produzir 19 bilhões de litros de etanol, sendo que o programa de mistura atual consome 11,5 bilhões de litros. A chegada do E85 ao mercado surge justamente como um motor para alavancar essa demanda pelo biocombustível.
Um crescimento acentuado na demanda pela nova mistura de combustível, no entanto, pode levar a Índia a buscar etanol no mercado externo. Essa necessidade coloca o Brasil, um dos maiores produtores do álcool combustível, em posição privilegiada.
O Brasil produziu em 2025 um pouco mais de 37 bilhões de litros.
Além da demanda por etanol, a novidade na Índia pode também trazer demanda extra para o açúcar do país. Isso porque como a Índia precisa desviar parte de sua safra de cana para garantir a mistura de etanol, a sua oferta global de açúcar diminui. Isso frequentemente exige que o mercado busque o Brasil (maior produtor mundial) para suprir essa lacuna.
Sem tração nos veículos elétricos
A estratégia da Índia ganha força diante do ritmo lento da transição para a mobilidade elétrica no país, travada pelos altos custos dos veículos e por uma infraestrutura de recarga ainda bastante limitada.
Nesse cenário, as autoridades indianas enxergam os veículos compatíveis com etanol como um caminho complementar e estratégico para cortar o consumo de petróleo, exigindo muito menos investimentos em infraestrutura do que a criação de uma rede nacional de carregamento para elétricos.
Esse movimento é crucial para o país, cuja demanda por gasolina — consumida majoritariamente por veículos de duas rodas — cresceu a uma média anual de 9% nos últimos cinco anos, inflando a conta de importação de petróleo.
Dando sinais claros do empenho do governo em estruturar um ecossistema de transporte que sustente esse maior uso do biocombustível, o ministro Puri apresentou novos modelos de motocicletas da Hero MotoCorp Ltd. e o hatch Wagon R, da Maruti Suzuki India Ltd., ambos já preparados para rodar com o E85.
O chefe da pasta do Petróleo revelou ainda que o governo estuda medidas políticas para acelerar a adoção de veículos híbridos e projetou que o novo combustível deverá estar disponível em até 500 postos até o final deste ano.
Apesar do otimismo do governo, o combustível chega às bombas em meio a discussões persistentes no mercado sobre o impacto de misturas tão ricas em etanol no rendimento por quilômetro e na durabilidade dos motores. Tentando mitigar os receios, o Ministério do Petróleo declarou no ano passado que a gasolina E20 já oferece melhor aceleração, maior suavidade na condução e menores emissões de carbono em comparação ao combustível convencional — benefícios que, segundo a pasta, tendem a ser amplificados com a chegada de misturas de etanol ainda mais concentradas.

