Martinho Colpani Filho em tanque de cultivo em Mococa (SP): no município, que se desenvolveu com a cultura do café, pescado também ganhou espaço — Foto: Ricardo Benichio
Em 1988, quando tinha 15 anos, Martinho Colpani Filho saiu com o pai agricultor para buscar tilápias-do-nilo (Oreochromis niloticus), uma espécie que pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (MG) haviam começado a estudar.
Originário da África, o peixe, que havia entrado no Brasil por incentivo do governo federal, fazia parte de um projeto-piloto de diversificação agropecuária em Mococa, cidade paulista onde os Colpani viviam. O município desenvolveu-se com base no cultivo do café, porém, foi a piscicultura, o chamado cultivo de peixes, que se tornou a paixão e virou o grande negócio de Martinho desde então.
Na época, a família produzia algodão, uma atividade que começou a dar prejuízo quando o país abriu-se para a pluma importada. Para estancar as perdas, a família passou a cultivar maracujá e uva no sítio, de dez hectares, mas acabou trocando a agricultura pela piscicultura três anos depois.
Cultivar peixe ainda era uma excentricidade no início dos anos 1990. A família, no entanto, sustentou a aposta – e acabou se tornando pioneira em uma indústria que cresceu vertiginosamente neste século.
Em 2025, a produção brasileira de peixes de cultivo rompeu, pela primeira vez, a marca de 1 milhão de toneladas, um volume 60% maior do que o de dez anos antes. O valor bruto da produção é de R$ 12,5 bilhões, e a atividade, antes marginal, hoje emprega diretamente cerca de 500.000 pessoas.
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A tilápia é a grande responsável pelo forte crescimento da piscicultura nacional: no ano passado, a produção da espécie cresceu 84%, para 707.000 toneladas. Colpani optou por se dedicar a uma outra espécie exótica (que não é originalmente do Brasil): o panga.
O empresário conta que iniciou na piscicultura com a produção de carpas, depois de se formar técnico agropecuário. Após um estágio no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Aquática Continental (Cepta), em Pirassununga (SP), passou a trabalhar com peixes nativos.
Durante mais de 20 anos, ele passou pelo cultivo de redondo, pintado, dourado e pirarucu, até decidir mudar o foco para a tilápia, que não vingou, pois a cadeia produtiva ainda não estava tão bem estruturada quanto hoje. Em 2007, ele chegou a investir na construção de um frigorífico para processar o peixe, mas logo fechou a planta.
Foi nesse contexto que, em 2008, após analisar as condições zootécnicas e comerciais do pangasius, ou panga (Pangasianodon hypophthalmus), Martinho começou a produzir o peixe, uma espécie originária do Vietnã, que, no Brasil, alguns produtores já cultivavam para aquarismo.
Participam da empreitada o irmão Tiago, veterinário, dois filhos, Mateus e Martinho Neto, ambos agrônomos, e Luciana Thie Seki Dias, zootecnista e professora de piscicultura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que presta assistência técnica.
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Em 2016, saiu o decreto de regulamentação do panga em São Paulo. Um ano depois, Martinho fundou e tornou-se presidente da ABC Panga, criada para organizar o segmento no Brasil. Em 2022, ele criou a Cooperpanga, cooperativa de 43 produtores que levou o estado a reconhecer a atividade como cadeia produtiva local.
Há três anos, 25 dos cooperados, financiados pelo Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap), investiram R$ 200 mil cada um no cultivo do panga, usando o suporte da Colpani Pescados, que cuida da produção, fornece ração e se encarrega da comercialização dos peixes. Dulce Souza e o comerciante de máquinas agrícolas Vanderlei Gerônimo são cooperados sem experiência na produção rural que investiram no panga.
Domínio da tilápia
O domínio da tilápia na piscicultura brasileira é relativamente recente. “Há 12 anos, a tilápia não passava de 12% da produção de peixes. Hoje, 70% é tilápia, com tendência de chegar a 82% em 2030”, diz Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), entidade que reúne produtores, frigoríficos e indústrias farmacêuticas, de ração e de equipamentos.
Foram as indústrias de frango do Paraná, afirma o dirigente, que puxaram o crescimento do cultivo da espécie. “Elas entraram na produção com expertise, estrutura e ponto de venda”, relata Medeiros. “O consumidor é o mesmo.”
A cooperativa paranaense Copacol foi, há 18 anos, a primeira a levar para o cultivo de tilápia o modelo de trabalho com produtores integrados, já bem estabelecido na avicultura. Nestor José Braun, gerente de integração da Copacol, afirma que o objetivo da cooperativa ao tomar a decisão foi atender associados que já produziam tilápia, mas tinham dificuldade em receber dos compradores.
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Com modelo de produção verticalizado, a Copacol investe em melhoramento genético e produz matrizes, alevinos e ração, além de fazer a despesca e o transporte da produção, que segue para as duas plantas frigoríficas, em Nova Aurora e Toledo, que abatem, somadas, 210.000 peixes por dia. Ao todo, 300 produtores cooperados atuam no cultivo (20 deles produzem apenas alevinos). Eles recebem peixes, ração e assistência técnica, além da garantia de compra da produção.
Acilino Lorenzoni Filho, de Assis Chateaubriand, é um dos integrados de tilápia da Copacol. Ele produz 165.000 peixes a cada ciclo com a ajuda da família e diz que sua produtividade tem crescido. A piscicultura representa 80% da renda familiar.
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No Brasil, o cultivo de peixes ocorre tanto em tanques escavados quanto em tanques-rede, em que os peixes são alimentados com ração. A C.Vale, também paranaense, trabalha com os dois modelos: a cooperativa tornou-se pioneira na certificação de viveiros escavados, também produz tilápia em tanques-rede e, desde o ano passado, tem 12 produtores trabalhando com viveiros escavados mais tecnológicos, compostos por geomembranas.
O custo de instalação dessas estruturas, mais automatizadas, é maior do que o de tanques escavados convencionais; sua produtividade, porém, é cinco vezes maior.
A C.Vale entrou no cultivo da tilápia em 2017, também por ter identificado a demanda entre seus cooperados. De lá para cá, a produção da espécie quase quadruplicou. Atualmente, a cooperativa tem o maior frigorífico de tilápia do país, localizado no município de Palotina (PR), que abate 240.000 quilos de tilápias diariamente.
Outra planta, localizada em Nova Prata (PR), deve fechar o ano com abate diário de 21.000 quilos, segundo o gerente de piscicultura Paulo Roberto Poggere.
A C.Vale também trabalha com sistema integrado, e sua cadeia de produção, que conta com fábrica de ração e matrizeiros, é verticalizada. A integração começa na produção do juvenil, com seis produtores. Outros 270 cuidam da terminação.
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Frutos do tarifaço
Até o “tarifaço” que o governo dos Estados Unidos impôs a uma série de produtos brasileiros – do agro e de outros setores – no segundo semestre do ano passado, a C.Vale era líder de exportação de filé fresco de tilápia para o mercado americano, com 62% de participação. Depois que os EUA passaram a cobrar tarifa adicional de 50% para o ingresso do peixe brasileiro no país, a fatia da cooperativa caiu para 28%.
Além do aumento da demanda no mercado interno, as exportações, em particular de filé de tilápia fresco para os Estados Unidos, têm sido um dos grandes motores do crescimento da piscicultura no Brasil. Em 2024, a receita dos embarques cresceu 138%, um desempenho recorde, enquanto o volume aumentou 102%.
No ano passado, por causa das tarifas extras que o governo do presidente Donald Trump passou a cobrar, o crescimento foi de 2%. Francisco Medeiros, da Peixe BR, diz que os exportadores brasileiros vão ter que reconquistar os clientes americanos, que passaram a comprar de outros fornecedores. “A tendência é (a exportação) subir, mas (2026) será um ano de recuperação.”
Entraves no comércio internacional à parte, integrantes da indústria acreditam que a produção brasileira de tilápia continua a ter muito espaço para se expandir.
“Ainda usamos muito pouco do recurso disponível para a produção de tilápia. Dá para triplicar ou até quadruplicar a produção na próxima década, como aconteceu com o frango. Quando o Brasil se modernizou, abriu mercados e fez planos de exportação, a produção explodiu”, diz Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), entidade que reúne as maiores empresas no segmento de tilápias, conservas, pescados, exportadoras de atum, lagosta e camarão e importadoras de salmão e bacalhau.
Os próximos passos de expansão passam necessariamente por investimentos em ciência e tecnologia. Em Santa Catarina, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri) tem pesquisado formas de, por meio de melhoramento genético, aumentar o rendimento da criação de tilápias no estado, onde, em muitas regiões, o registro de temperaturas negativas nos meses de inverno é recorrente.
O objetivo do trabalho é melhorar o ganho de peso dos peixes e, com isso, elevar a produção de filé, uma opção que reflete o perfil de consumo dos brasileiros, que, ao contrário do que ocorre em outros mercados, preferem o filé ao peixe inteiro, observa a pesquisadora Alexandra Inês dos Santos.
Com a estratégia, argumentam pesquisadores e técnicos da Epagri, é possível aumentar a rentabilidade da cadeia produtiva sem que seja necessário investir em aumento de estrutura nas propriedades.
No trabalho, a Epagri desenvolveu, ao longo de 12 anos, cinco gerações de tilápias. O peso dos peixes da etapa final desse ciclo era, em média, de 973 gramas, o que representou um aumento de 39% em comparação com a população inicial, que pesava 700 gramas, em média.
Os ganhos entre uma geração e outra ficaram entre 5% e 10%. Além disso, ao reduzirem riscos sanitários na introdução de novas matrizes de tilápia, os pesquisadores também conseguiram manter os animais livres de doenças bastante prejudiciais à cadeia produtiva.
“Nós queremos o crescimento, claro, mas sem perder de vista a manutenção da variabilidade genética, fundamental para a sustentabilidade da linhagem ao longo das gerações”, diz o pesquisador Bruno Corrêa da Silva. “Mas o crescimento sozinho não basta. A sanidade é um ponto estratégico no programa.” Ele define o melhoramento genético como um “trabalho de formiguinha”: os avanços ocorrem de forma gradual, geração após geração, explica, acumulando pequenos ganhos que, no longo prazo, têm impactos expressivos e permanentes.
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Os resultados que a Epagri alcançou ao longo das cinco gerações transformaram Santa Catarina em referência nacional na produção da espécie. Atualmente, a Epagri comercializa todos os anos, por preços acessíveis, entre 40.000 e 60.000 matrizes que passaram por melhoramento genético.
As matrizes já chegaram a produtores de outros 11 estados, além de Santa Catarina. “Uma matriz vai gerar, por dois a três anos, entre 4.000 e 6.000 alevinos, a depender da eficiência do produtor. Em média, 25% da produção atende Santa Catarina, e os outros 75% vão para outros locais. Nossa oferta não consegue atender a toda a demanda”, afirma Silva.
Em busca de novas oportunidades
A piscicultura busca novos motores para seguir crescendo. Para Lobo, da Abipesca, os entraves no financiamento estão entre os fatores que limitam uma expansão ainda mais forte da atividade. Ele diz ser “urgente” a inclusão do setor no Manual de Crédito Rural do Banco Central, documento que estabelece critérios para uso dos recursos do Plano Safra.
“Nenhum banco tem linha facilitada específica para a piscicultura, e o nível de garantias que se exige é muito alto. Não é possível colocar as embarcações como garantia, ao contrário do que acontece na agricultura, em que se pode usar tratores e colhedoras. No cultivo de peixes, o estoque na água também não serve como garantia. Sem isso, o setor tem que se desenvolver com suas próprias pernas”, afirma.
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Há três anos, o Ministério da Pesca e Aquicultura lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura (atividade que inclui a piscicultura e também o cultivo de outros organismos aquáticos, como camarão, moluscos, algas e rãs).
Fernanda Gomes de Paula, secretária nacional de Aquicultura do ministério, afirma que o objetivo do plano é “promover o crescimento sustentável da aquicultura brasileira de forma estruturada, equilibrada e capaz de gerar desenvolvimento econômico, social e ambiental em diferentes escalas de produção”.
Segundo ela, a tilápia continuará a ser uma espécie estratégica para o desenvolvimento do segmento, mas o plano também quer fortalecer a produção de espécies nativas, ampliando oportunidades econômicas e reduzindo a dependência de uma única cadeia produtiva.
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A baixa participação de espécies nativas na produção da piscicultura brasileira não deixa de ser uma evidência de que a indústria de peixes de cultivo ainda tem um espaço enorme para crescer no país. No ano passado, a produção de espécies de origem nacional, como tambaqui, pacu, matrinxã e pirarucu, foi de 257.000 toneladas, volume 18% menor do que o de 2024.
Para Roberto Valladão Flores, chefe-geral da Embrapa Pesca e Aquicultura, de Palmas, os peixes nativos estão bem atrás da tilápia em reprodução, genética, alimentação, processamento e também na demanda. Essas limitações afugentam eventuais interessados em produzir espécies nacionais.
Isso não quer dizer que não haja caminhos possíveis para faturar com os peixes nacionais. Nos últimos anos, a piscicultura do Maranhão, que se concentra na criação de espécies nativas, deu um salto, que levou o estado ao quinto lugar na produção nacional: o volume foi de 59.600 toneladas, sendo 42.700 toneladas de peixes nacionais.
Elienai Silva, presidente da Associação dos Produtores da Pesca Artesanal de Itans, povoado de Matinha (MA), conta que a atividade deixou de ser artesanal e de subsistência na comunidade em 2006, quando um grupo de seis produtores decidiu unir forças. Em 2020, o grupo já contava com 32 piscicultores, que fundaram a associação, foram buscar capacitação no Sebrae e no Senar e começaram a ter acesso a crédito para custear os tanques escavados.
O resultado desse esforço coletivo aparece nas estatísticas: Matinha, na Baixada Ocidental maranhense, é hoje o maior produtor de peixes nativos do país.Ao todo, 128 piscicultores integram a associação, mas, na região, mais 300 produtores dedicam-se à atividade.
Silva conta que não se produz mais tambaqui, e sim o tambatinga, uma espécie híbrida que surgiu da mistura entre tambaqui e pirapitinga. “Com a assistência técnica da engenharia de pesca do Senar, tudo mudou. A gente aprendeu como alimentar o peixe, cuidar da água, fazer biometria e as contas. Também passamos a ter mais qualidade de vida, pudemos pôr os filhos na faculdade e comprar automóvel”, relata.
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A pirapitinga é um peixe de escama que agrada os consumidores porque é saboroso e não é tão caro. O produtor recebe em torno de R$ 8 por quilo do peixe, valor suficiente para cobrir o custo e também para gerar um excedente para as comunidades que atuam na agricultura familiar. A Rede Mateus, uma das maiores varejistas do país, compra 100% da produção.
Em Bacabeira, outro polo importante da piscicultura maranhense, Luis Adriano Britto, de 28 anos, decidiu trocar o milho pelo cultivo de peixes em 2016. Ele diz ter aprendido a manejar seus tanques e suas contas corretamente, um passo de evolução na atividade que rendeu a ele um prêmio nacional do Senar que reconhece boas iniciativas de gestão.
“Eu não tinha noção de adensamento, biometria, fracionamento e não usava maquinário. Só colocava peixe e jogava ração. Se o peixe estava comendo, jogava mais. Nessa época, eu praticamente fali. Tive que vender meus bens para manter a propriedade da família”, conta.
Agora, trabalhando com dez tanques escavados, o jovem produz 16 toneladas de peixes em dois ciclos no ano. Britto fornece uma parte para a prefeitura, e outra o piscicultor vende no mercado local. Além dos peixes redondos, ele também produz verduras com hidroponia, açaí precoce e um pouco de gado.“Aprendi com o Sebrae a estruturar minha empresa.
Hoje, sei quantos gramas meu peixe ganhou por dia e faço controle de estoque. Se não for assim, não fecha o caixa. Com o peixe, saí de R$ 33.000 negativos para uma renda de R$ 130.000”, afirma. Britto diz que, agora, ele quer se capacitar para começar a exportar.
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O berço do pirarucu
Rondônia é o berço do pirarucu de cultivo, peixe nativo também conhecido como bacalhau-da-amazônia, que pode atingir mais de 2 metros de comprimento e pesar 100 quilos. Entre 2017 e 2019, Carlindo Pinto Filho foi um dos maiores produtores da espécie no estado, com quase 9.000 toneladas por ano, que ele produzia em tanques escavados lonados. No entanto, o produtor diz que desistiu do cultivo em 2022, por causa da insegurança jurídica e comercial da atividade. Rondônia produziu 55.200 toneladas de peixes nativos em 2025.
“Tem que ter ousadia para produzir pirarucu. O governo de Rondônia fomentou o cultivo, e depois o Sebrae gastou mais de R$ 60 milhões em um projeto estruturante na cadeia. Houve muito esforço, mas o mercado não estava preparado para pagar um preço compensador pelo peixe, que cresce por mês (12 quilos) o que os outros não crescem por ano. E descobrimos depois que ele estava na lista de espécies em extinção”, comenta o produtor. De acordo com ele, hoje o pescador vende o quilo de pirarucu do extrativismo por R$ 10.
O pirarucu, um peixe carnívoro, está no topo da cadeia alimentar – e é a espécie dos sonhos de qualquer pesquisador de aquicultura, afirma Luis Antonio Inoue, que trabalhou com a espécie na unidade da Embrapa de Manaus por oito anos. Ele diz que o pirarucu tem um custo zootécnico muito alto, e o grande desafio da sua produção em fazendas é obter o peixe jovem em escala.
“Você junta o casal de 2 metros em um tanque, mas ele fica até um ano e pode não se reproduzir. Se vingar, vai conseguirde 3.000 a 4.000 alevinos por desova. Para comparar, a reprodução do tambaqui, peixe bem menor e de manejo mais fácil, gera mais de 100.000 alevinos”, relata.
Segundo o especialista, há fazendas de cultivo de pirarucu com alta tecnologia no Peru e na Flórida (EUA). O peixe vai para comércio com um ano, pesando entre 15 e 20 quilos. Em maio, uma instrução do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) classificou o pirarucu como espécie exótica invasora fora de sua área natural, ou seja, em outras bacias, e permitiu sua pesca e abate.
A existência de uma cadeia estruturada de produção é um dos elementos que aumentam o apelo do cultivo de tilápia (e a falta de uma cadeia do gênero, por sua vez, é um dos maiores entraves do trabalho com espécies nativas como o pirarucu).
“Um dos grandes produtores de peixes nativos é Rondônia, que vende o peixe inteiro in natura porque só tem dois frigoríficos. Morada Nova de Minas, em Minas Gerais, por exemplo, tem 8.500 habitantes e mais de dez frigoríficos de tilápia. A gente vive o mundo das commodities, e a tilápia tem melhoramento genético, produção em 90 países e é comercializada em 140 nações, seguindo o exemplo de sucesso do frango e suíno branco. Já o peixe nativo tem limitação zootécnica e não tem como ser produzido comercialmente”, diz Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR.
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Em São Paulo, o segundo maior produtor de peixes de cultivo do Brasil, com 93.700 toneladas em 2025, a tilápia também é dominante, com 88.500 toneladas. São paulistas empresas como Brazilian Fish, de Santa Fé do Sul, e Fider Pescados, de Rifaina, que tem estrutura verticalizada e investem na produção e exportação.
Com a ampliação e modernização recente de sua planta principal, a Brazilian Fish, do grupo Ambar Amaral, a empresa passou a abater 75 toneladas de tilápia por dia; antes do investimento, o abate diário era de 42 toneladas.
A produção ocorre em tanques-rede no Rio Paraná, e quatro produtores respondem por cerca de 20% do volume. Segundo Ramon Amaral, o presidente-executivo (CEO) da empresa, a Brazilian Fish investiu R$ 30 milhões em automação e novas tecnologias na indústria para ganhar eficiência e aumentar as exportações (os embarques, no entanto, caíram com as taxas dos EUA no ano passado). As vendas ao mercado externo responderam por 10% do faturamento, que foi de de R$ 900 milhões em 2025.
A Fider, do grupo MCassab, produz 800 toneladas por mês, e, até setembro de 2025, metade disso ia para os EUA. O diretor Juliano Kubitza afirma que a empresa decidiu segurar o investimento que faria em outro reservatório, por causa das altas taxas de juros e do aumento da concorrência com a tilápia do Vietnã – em abril do ano passado, o Brasil autorizou a importação da tilápia vietnamita.
O Paraná foi pioneiro na integração do cultivo de tilápias e o estado que lidera a piscicultura nacional, mas, entre os municípios, é Morada Nova de Minas (MG) que está no topo do ranking. Pedro Rivelli, dono da GTM e presidente da Peixe MG, conta que a tilápia foi introduzida na represa de Três Marias na década de 1970, com incentivo do governo federal. O potencial da região, a temperatura da água e a construção do primeiro frigorífico atraíram a atenção de produtores.

