Entenda por que o Brasil não é autossuficiente em fertilizantes

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Entenda por que o Brasil não é autossuficiente em fertilizantes

Ao mesmo tempo em que se tornou, nas últimas décadas, uma potência na produção de grãos, o Brasil continua fortemente dependente da importação de fertilizantes. Segundo o Ministério da Agricultura, cerca de 85% das substâncias utilizadas na nutrição das plantas são importadas. Essa carência fica ainda mais visível em momentos de crises que impactam o fornecimento de matérias-primas no mercado global, como o conflito em andamento no Oriente Médio.

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Um exemplo que ilustra bem essa dependência é o caso do enxofre. Matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados, o elemento químico passou por uma forte valorização desde o final de fevereiro. O preço, que estava próximo de US$ 80 a tonelada em 2024, chegou a US$ 1,2 mil durante a crise no Oriente Médio, e recuou recentemente para US$ 800 a tonelada.

A disparada no preço provocou a suspensão de atividades em diversas fábricas do país e levou o segmento a pedir uma ajuda de R$ 2 bilhões ao governo federal.

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Mas por que o Brasil é tão dependente das importações de fertilizantes?

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A dependência não ocorre pelas mesmas razões nos três principais nutrientes utilizados na agricultura (nitrogênio, fósforo e potássio). Em cada segmento, o país enfrenta limitações diferentes de competitividade, qualidade das matérias-primas ou disponibilidade geográfica, segundo especialistas.

Nitrogenados

 

No caso dos nitrogenados, o principal desafio para a produção nacional é o custo do gás natural. O combustível é a principal matéria-prima usada na fabricação da amônia, que, por sua vez, é utilizada na produção de fertilizantes como a ureia, o nitrogenado sólido mais consumido no mundo. Segundo especialistas, o gás natural brasileiro é mais caro do que o de importantes países produtores, o que reduz a competitividade da indústria nacional.

O resultado é um produto final mais caro e menos atrativo ao agricultor, que prefere olhar o mercado da importação, afirma Gisele Augusto, responsável por precificação de grãos e fertilizantes da consultoria Argus.

“Isso também reduz a disposição de empresas em investir em unidades de produção de ureia dada a dificuldade em comercializar o produto com margens rentáveis”, observa.

 

A retomada de algumas fábricas da Petrobras é uma das iniciativas para ampliar a produção doméstica e reduzir parte dessa vulnerabilidade, mas a indústria nacional ainda enfrenta o desafio de competir com produtores que têm acesso a gás natural mais barato.

Fosfatados

 

A situação é diferente nos fertilizantes fosfatados. O Brasil possui reservas de rocha fosfática e tem uma produção doméstica relevante, superior à observada nos nitrogenados e nos potássicos. O problema está na qualidade e na concentração dessas reservas.

De acordo com a consultoria StoneX, parte importante da rocha fosfática disponível no país apresenta baixa concentração. Isso limita a capacidade brasileira de produzir, de forma competitiva, fertilizantes fosfatados de maior concentração, como o MAP.

“Nem sempre nós conseguimos produzir fertilizantes fosfatados de alta concentração a preços competitivos como outros países”, explica Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX.

 

O país consegue, por outro lado, produzir volumes importantes de fertilizantes como o superfosfato simples (SSP), justamente porque as características da matéria-prima nacional favorecem esse tipo de produto. A produção doméstica, contudo, também pode ser afetada pelos custos de outras matérias-primas utilizadas no processo.

Um exemplo é o enxofre. O insumo é fundamental para a cadeia de produção de fosfatados e é utilizado na fabricação de produtos como MAP e DAP. A forte valorização do enxofre elevou os custos das indústrias e levou empresas no Brasil e em outros países a reduzir a produção ou até paralisar unidades.

Potássio

 

No caso do potássio, a explicação está principalmente na localização das grandes reservas mundiais. Países como Canadá, Belarus e Rússia possuem grandes depósitos e construíram uma indústria de potássio a partir dessa vantagem natural.

“O Brasil não desfruta de tal posição como outros países que estão sentados em cima de uma mina”, resume Tomás Pernías, da StoneX.

 

Isso não significa, porém, que o país não tenha potencial para ampliar a produção. Há projetos em desenvolvimento para explorar jazidas brasileiras de potássio, embora ainda existam incertezas no caminho até que uma produção maior se concretize.

Fertilizantes como o cloreto de potássio e os fosfatados dependem da existência de minas para a mineração do produto. Também é necessário que o nutriente dessa mina esteja dentro dos padrões de qualidade/concentração usual para o uso agrícola, explica Gisele Augusto, responsável por precificação de grãos e fertilizantes na consultoria Argus.

“A disponibilidade de nutrientes para mineração no Brasil é limitada, com isso, as importações somaram quase 14 milhões de toneladas de cloreto de potássio em 2025 e 11,6 milhões de toneladas de fosfatados (MAP/SSP/TSP/NP)”, explica Gisele Augusto, da Argus.

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