Demanda por fertilizantes deve despencar neste ano

Demanda por fertilizantes deve despencar neste ano

Sem sinais no horizonte que apontem para o fim da guerra no Oriente Médio e com produtores rurais enfrentando restrição de crédito, a crise na indústria de fertilizantes se agrava no Brasil. Além da alta dos insumos, como o enxofre, o setor enfrenta queda na demanda, que poderá ser ainda menor do que se imaginava nos meses seguintes ao início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

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Após o recorde do ano passado, quando o consumo no país somou 49,1 milhões de toneladas, estimativas no mercado indicam que o volume pode voltar aos níveis de 2022. No início daquele ano, a Rússia atacou a Ucrânia — ambas produtoras de fertilizantes —, e a demanda ficou em 41 milhões de toneladas. A nova projeção reflete o adiamento de compras e a redução da adubação nas lavouras em meio aos custos altos e crédito restrito.

Em agosto, a projeção estava em cerca de 45 milhões de toneladas, segundo a consultoria Argus. “No entanto, a ausência de demanda de última hora para o plantio da safra de soja 2026/27 e o ritmo das importações de fertilizantes nitrogenados levaram participantes a revisar as estimativas”, afirma Renata Cardarelli, responsável por precificação de agricultura e fertilizantes da Argus.

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Em julho, cinco meses após o início do conflito no Oriente Médio, o mercado estava menos pessimista e projetava uma queda de 10%, conforme reportagem publicada pelo Valor na época.

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De lá para cá, além da “destruição” da demanda, houve uma paralisação temporária ou fechamento de fábricas no Brasil devido à escassez de enxofre no mercado, o que contribuiu para reduzir a oferta de fosfatados. “Quando somamos tudo isso, faz sentido pensar que realmente vai ser um consumo total abaixo de 42 milhões de toneladas”, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de inteligência e projetos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

A multinacional Mosaic, que anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas no Brasil e redução da produção em duas unidades de mistura, calcula uma queda de 10% a 15% nas entregas de fertilizantes do mercado em geral, que ficaria entre 42 milhões e 44 milhões de toneladas.

O vice-presidente comercial da Mosaic, Felipe Pecci, afirma que o mercado pode chegar a 2027 com estoques menores, importações reduzidas e produção local limitada pela dificuldade de acesso ao enxofre. “É uma situação preocupante e meio sem precedentes no nosso mercado”, diz o executivo.

De acordo com Pecci, uma demanda inferior a 42 milhões de toneladas em 2026 não está descartada, mas isso vai depender de fatores ainda não confirmados, como o atraso nas compras para a safrinha, o impacto do fenômeno El Niño e as restrições chinesas às exportações de sulfato de amônio.

O levantamento mais recente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) aponta que as entregas de fertilizantes no país somaram 22,9 milhões de toneladas de janeiro a julho, queda de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025. Em julho, foram 3,9 milhões de toneladas, retração de 22,3% na comparação anual.

A produção nacional de fertilizantes intermediários encerrou julho com 517 mil toneladas, queda de 19,9%. De janeiro a julho, foram 3,3 milhões de toneladas, recuo de 19,7%. Segundo a Anda, o número deve-se sobretudo às sucessivas altas recentes do enxofre, insumo para a produção de fosfatados.

Nas últimas sete semanas, os preços do enxofre tiveram retração de 23%, segundo a consultoria StoneX, o que fez com que o insumo voltasse a ficar abaixo dos US$ 1.000 a tonelada. Porém, a indústria considera a queda insuficiente para trazer alívio ao segmento.

“O patamar histórico é de US$ 100. Em outubro do ano passado, quando ainda não havia a guerra, mas já havia a demanda pela transição energética, já chegou a US$ 600. O problema é muito maior do que [o estreito de] Ormuz”, afirma Bernardo Silva, diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert).

“O mercado de fertilizantes, no curto e médio prazo, principalmente, continua sob risco e com pressões que não parecem ter soluções imediatas”, avalia.

A revisão das projeções acontece num momento em que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta alta de 1,4% na área de soja da safra 2026/27 — o menor avanço dos últimos 20 anos. O órgão calcula que o Brasil irá colher 181,6 milhões de toneladas de soja no ciclo atual, mas há o temor de que esse número seja influenciado pelo El Niño.

Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Mauricio Buffon, muitos produtores estão recorrendo à reserva de fósforo acumulada no solo em anos anteriores, uma espécie de “poupança” que permite reduzir temporariamente a reposição. “É óbvio que quando você reduz um pouco o fertilizante, há uma queda de produção, mas para passar esse momento é uma ação que tem de ser feita. Ou você faz isso, ou aumenta o endividamento”, observa.

O cenário de alta dos insumos e recuo na demanda de agricultores afeta os resultados das empresas. Ontem, a norueguesa Yara informou que seu lucro líquido no terceiro trimestre caiu 37,8% na comparação anual, para US$ 199 milhões.

“O mercado de fertilizantes segue enfrentando desafios que comprometem a dinâmica do setor e o ritmo de compras pelo produtor, que, além das questões geopolíticas, precisa lidar com pontos relacionados à rentabilidade de algumas culturas e às restrições de crédito”, diz o vice-presidente de vendas da Yara Brasil, Diogo Rezende, em nota enviada ao Valor.

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