Empresas de fertilizantes protocolaram, desde julho até o começo de outubro, pedidos de financiamento de R$ 2,9 bilhões no Brasil Soberano 3, programa do governo federal que oferece crédito em condições mais favoráveis do que as de mercado a empresas afetadas pelas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos e pela instabilidade internacional decorrente da guerra no Oriente Médio. O Brasil Soberano é operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Na segunda etapa do programa, até junho, o BNDES havia registrado cerca de R$ 1 bilhão em pedidos de empresas do segmento de fertilizantes. Isto é, a demanda cresceu 190%.
Até 1 de outubro, 62 empresas do setor haviam apresentado solicitações ao banco de fomento. Do valor total pedido, R$ 1,7 bilhão foi aprovado em 65 operações e R$ 200 milhões foram desembolsados até o momento. Os maiores pedidos partiram da multinacional americana Mosaic e da brasileira Fertipar.
A maior parte das solicitações de financiamento vem das misturadoras, empresas que combinam diferentes matérias-primas para produzir fertilizantes. A demanda está concentrada no Sul e no Sudeste, seguidos por Centro-Oeste, Nordeste e Norte. José Luis Gordon, diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do BNDES, disse que o principal uso do recurso é para capital de giro de modo a evitar interrupções na produção e no fornecimento do insumo.
“Fundamentalmente nós temos [como clientes], em grande maioria, os misturadores pegando esse recurso”, afirmou Gordon em entrevista ao Valor.
A pressão sobre o caixa das empresas ocorre em um cenário de alta de custos e de volatilidade do mercado internacional de fertilizantes. O Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) afirma que, desde o início do conflito entre EUA, Israel e Irã, no fim de fevereiro, o custo de produção subiu, principalmente devido ao encarecimento do enxofre, matéria-prima usada na produção de fertilizantes fosfatados. O preço chegou a US$ 1,2 mil por tonelada em meados deste ano, segundo representantes do setor. Em janeiro, antes da eclosão da guerra, o preço situava-se em US$ 435 por tonelada.
Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert afirmou que a demanda das empresas pelo Brasil Soberano 3 não está relacionada apenas ao preço do enxofre: “Temos de entender que o setor de fertilizantes é mais amplo que o fosfatado”, disse.
Segundo ele, a instabilidade geopolítica afeta também outras matérias-primas, como a ureia, enquanto os agricultores, consumidores finais dos fertilizantes, enfrentam dificuldades financeiras, juros elevados e aumento dos pedidos de recuperação judicial.
A parcela de pedidos de financiamento aprovada e ainda não liberada — cerca de R$ 1,5 bilhão até 1 de outubro — ainda vai precisar passar pelas etapas de contratação e deve começar a chegar às empresas nos próximos meses, segundo Gordon.
No programa atual, os fertilizantes estão entre os setores industriais considerados estratégicos. As empresas podem acessar capital de giro, crédito para máquinas e equipamentos e financiamento para projetos de investimento.
Para grandes empresas em operações diretas, as condições variam conforme a finalidade do crédito. No capital de giro, o prazo pode chegar a 60 meses, com 12 meses de carência. Nos projetos de investimento, o prazo chega a 240 meses, com até 48 meses de carência e juros de 7,9% até 11,8% ao ano.
A atual fase do Brasil Soberano amplia o programa criado em 2025 para apoiar empresas afetadas pelo tarifaço do presidente Donald Trump. Em 2026, a iniciativa passou a incluir segmentos afetados pela guerra no Irã, caso dos fertilizantes por exemplo.
No programa, além do capital de giro, o BNDES analisa projetos para ampliar a capacidade produtiva do setor: “Uma possibilidade é dar o capital de giro para essas empresas para que elas possam sobreviver nesse curto prazo. E, ao mesmo tempo, também estamos apoiando empresas com capacidade produtiva de fertilizantes”, afirmou Gordon.
A expansão da produção é estratégica para o Brasil, que importa hoje mais de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura. Para José Luis Gordon, a atuação do banco de fomento combina a necessidade imediata de caixa com o financiamento de projetos capazes de aumentar a oferta nacional.
O BNDES ainda não divulga a lista de todas empresas beneficiárias. De acordo com o diretor do BNDES, os nomes serão publicados quando as operações forem contratadas e houver o primeiro desembolso.
Procurada, a Mosaic informou que considera o Brasil Soberano relevante e que consultou o BNDES sobre as linhas de crédito aplicáveis às suas operações. A companhia também acompanha, por meio de entidades do setor, programas como o Profert e a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que podem criar condições para investimentos de longo prazo.
Em julho passado, a Mosaic anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas no Brasil e redução da produção em duas unidades de mistura, em meio à alta do custo do enxofre. A companhia também afirmou manter diálogo com o governo sobre alternativas para garantir fornecimento estável do insumo a custos competitivos.
Também procurada, a Fertipar não se manifestou.

