As exportações brasileiras de sorgo ganharam uma nova escala em 2026. Entre janeiro e setembro, o Brasil embarcou 790,8 mil toneladas do cereal, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), contra apenas 105 toneladas registradas no mesmo período do ano passado.
A mudança de patamar ocorreu principalmente com a entrada da China no mercado brasileiro. Dos embarques registrados pela Secex nos nove primeiros meses de 2026, 755,6 mil toneladas tiveram o país asiático como destino, o equivalente a 95,5% de todo o sorgo exportado pelo Brasil no período.
O fluxo ganhou força especialmente nos últimos meses. Em agosto, foram exportadas 185,4 mil toneladas para a China e, em setembro, o volume saltou para 570,2 mil toneladas, avanço de 207,6% em apenas um mês. Somente setembro respondeu por mais de 72% de todo o sorgo embarcado pelo Brasil entre janeiro e setembro.
No mesmo intervalo de 2025, as exportações brasileiras haviam se resumido a uma operação de 105 toneladas destinadas ao Catar.
Outubro pode representar novo salto
Os dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) indicam que o movimento pode ganhar ainda mais escala em outubro. O line-up da entidade aponta 1,44 milhão de toneladas de sorgo programadas para embarque no mês.
O número, porém, representa uma programação e não deve ser comparado diretamente aos volumes efetivamente exportados registrados pela Secex. As duas fontes trabalham com metodologias e momentos diferentes das operações.
Na série da ANEC, foram contabilizadas 275,5 mil toneladas em agosto e 695,2 mil toneladas em setembro, antes da forte expansão indicada pelo line-up de outubro.
Expansão já cria novos fluxos logísticos
O avanço das vendas externas também começa a aparecer na logística utilizada para escoar o cereal. Nesta quarta-feira (7), a VLI informou ter iniciado a movimentação ferroviária de sorgo, com os primeiros embarques destinados à China e também à África.
Segundo a companhia, mais de 250 mil toneladas foram movimentadas até setembro e aproximadamente 800 mil toneladas estão negociadas para transporte. A operação também envolveu a segregação de ativos e espaços dedicados ao sorgo para preservar as características e a qualidade do produto durante o transporte.
A diretora-executiva Comercial da VLI, Carolina Hernandez, apontou ainda expectativa de que as exportações brasileiras possam alcançar até 2 milhões de toneladas de sorgo em 2026.
A ampliação também aparece nas rotas portuárias. Segundo a Agrobom, empresa especializada em armazenagem e comercialização de grãos, as primeiras negociações voltadas à exportação ganharam força no ano passado principalmente pelo Porto de Imbituba (SC). Em 2026, o movimento passou a envolver também Santos (SP), Paranaguá (PR) e terminais do Nordeste, ampliando as alternativas de saída do sorgo brasileiro.
Apesar da abertura de novas rotas e de operações destinadas a outros mercados, os dados oficiais da Secex até setembro mostram que o fluxo externo permanece fortemente concentrado na China, responsável por 95,5% dos embarques brasileiros no período.
Produção cresce junto com abertura do mercado externo
A expansão das exportações ocorre em um ano de forte crescimento da oferta brasileira. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam produção de 7,35 milhões de toneladas de sorgo na safra 2025/26, avanço de 20,4% em relação à temporada anterior.
A área cultivada cresceu ainda mais, com alta de 32,9%, para 2,17 milhões de hectares. O avanço da produção amplia a importância da abertura de novas alternativas de comercialização para absorver uma oferta doméstica maior.
O movimento reforça o espaço conquistado pelo sorgo como alternativa para a segunda safra. Além do mercado tradicional de alimentação animal, a cultura passou a contar em 2026 com uma demanda externa em escala muito superior à observada nos anos anteriores.
De possibilidade a embarques em escala
A mudança ocorre justamente no mesmo ano em que, ainda em janeiro, o Notícias Agrícolas discutia se haveria demanda suficiente para absorver o crescimento previsto para a cultura.
Na ocasião, Vlamir Brandalizze, analista de mercado da Brandalizze Consulting, apontava a China como uma das possibilidades para ampliar o escoamento do cereal brasileiro. “Poderemos também ter as primeiras exportações de sorgo para a China, que é grande importadora de sorgo”, afirmou Brandalizze.
Na mesma reportagem, o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Flávio Tardin destacava a necessidade de o Brasil estruturar uma cadeia exportadora para o cereal. Como comparação, apontava que a Argentina havia exportado cerca de 1,3 milhão de toneladas no ano anterior, enquanto os embarques brasileiros haviam ficado próximos de 50 mil toneladas.
Ao longo de 2026, aquela possibilidade começou a ganhar forma. Em agosto, o Notícias Agrícolas mostrou que o sorgo avançava na construção de um mercado próprio, com maior liquidez e novas alternativas de comercialização. Naquele momento, o cereal chegou a ser negociado acima do milho em Santos em determinadas condições, enquanto os primeiros embarques em maior escala para a China começavam a ampliar a demanda externa.
Agora, os dados oficiais dos nove primeiros meses do ano acrescentam dimensão ao movimento: o Brasil passou de 105 toneladas exportadas entre janeiro e setembro de 2025 para quase 791 mil toneladas no mesmo período de 2026, enquanto a China respondeu por praticamente todo esse novo fluxo.
A programação indicada pela ANEC para outubro, o início da movimentação ferroviária específica para o cereal e a ampliação das rotas portuárias adicionam novos sinais de expansão. O próximo capítulo será verificar se o salto observado em 2026 conseguirá se transformar em um canal recorrente de exportação para o sorgo brasileiro.

