Defendida como uma bandeira pelo atual governo, a política de redução da taxa de juros para produtores rurais que adotam práticas sustentáveis pouco avançou no último ano e ainda abrange uma parcela mínima do crédito rural.
Na safra 2025/26, as contratações com redução de 0,5 ponto percentual nos juros, atreladas à adoção de boas práticas, somaram R$ 1,7 bilhão, abaixo da oferta total para essa modalidade, de R$ 6,3 bilhões. O valor também ficou distante do total de desembolsos para custeio de grandes e médios produtores, que alcançou R$ 150 bilhões na temporada, sem considerar operações de Cédulas do Produtor Rural (CPRs).
O desconto na taxa de juros é oferecido para médios e grandes produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) já analisado pelo órgão ambiental estadual ou que estejam em programas reconhecidos como atividades sustentáveis pelo Ministério da Agricultura. Também são elegíveis produtores que tenham sistemas integrados ou orgânicos, ou que já tenham acessado o RenovAgro.
Porém, a falta de automatização para comprovar os critérios de sustentabilidade e o excesso de burocracia para efetivar o desconto estão travando as operações, segundo instituições financeiras e entidades que coordenam os programas de boas práticas. Há críticas também sobre a falta de clareza nos critérios e na operacionalização do bônus.
Na última safra, apenas 257 operações tiveram comprovação de boas práticas e redução de juros. Os contratos somaram R$ 105,1 milhões, segundo dados compilados pelo Banco Central para o Valor. No ciclo anterior, foram 321 operações vinculados a programas de sustentabilidade, com liberação de R$ 148,5 milhões.
Para 2026/27, o governo reduziu a oferta de recursos disponíveis para acesso com desconto. O valor caiu para R$ 3,1 bilhões, inferior aos das duas últimas temporadas. O governo ainda não divulgou a lista de instituições certificadoras habilitadas para o atual ciclo.
O Ministério da Agricultura reconhece 37 programas de boas práticas em que os participantes podem se habilitar para buscar desconto no crédito. Um deles é o da agtech Produzindo Certo. Até agora, no entanto, nenhum dos 3,5 mil produtores cadastrados em sua base obteve o benefício.
Segundo Aline Locks, CEO da agtech, a falta de clareza dos procedimentos atrasou o cadastro dos propriedades e dos produtores na Plataforma AgroBrasil+Sustentável (AB+S), do ministério.
Outro problema é a falta de automatização nos processos. O produtor precisa baixar um certificado de seu perfil pessoal no portal gov.br e levá-lo ao banco, que faz uma nova consulta para checagem na plataforma. “O desafio do momento é a burocracia”, disse Locks. A Produzindo Certo elaborou um manual com orientações para auxiliar os produtores a buscar o desconto nesta safra.
“Nossa sugestão é que o processo fosse automático. Se há interesse em realmente incentivar, talvez sem essa barreira operacional ajudaria a destravar essas operações”, afirmou Luis Eduardo Lapo, head de Finanças Verdes da agtech.
Além disso, nem todos os agentes financeiros conhecem a política ou estão preparados para atender os produtores. Algumas agências bancárias chegam a dizer aos associados que o programa está suspenso, contou Luiz Bier, vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT). Ele afirma não conhecer nenhum agricultor que tenha conseguido o desconto.
“Temos vários produtores elegíveis, organizados, com toda a documentação em dia. Alguns pleitearam, mas já desistiram desse desconto”, relatou. O programa Soja Legal, coordenado pela entidade e reconhecido pelo ministério, tem 1,7 mil produtores e monitora três milhões de hectares.
Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a concessão de descontos depende da validação de dados “provenientes de diferentes bases e plataformas oficiais, o que demanda maior integração entre sistemas e procedimentos de verificação”. Para a entidade, há “oportunidades de aprimoramento operacional”.
O Banco do Brasil informou que concluiu recentemente o desenvolvimento e a homologação da solução tecnológica para viabilizar o bônus a produtores que adotam boas práticas. A solução permite a validação automática da habilitação do produtor e do respectivo enquadramento no desconto.
Mas a funcionalidade ainda está indisponível. A disponibilização depende da “conclusão de etapas adicionais de integração e operacionalização no âmbito do Sistema Nacional de Crédito Rural, envolvendo diferentes agentes responsáveis pela governança da política pública”, segundo o BB.
Procurado, o Ministério da Agricultura defendeu que o “mecanismo avançou de maneira relevante na criação das condições para reconhecer e premiar produtores que demonstram desempenho sustentável”. A Pasta admitiu que, por ser uma política recente, pode haver, “entre a certificação e a efetiva contratação do crédito, custos de transação e dificuldades operacionais que possam reduzir a conversão do público potencialmente elegível em beneficiários efetivos”. E disse que acompanha “a operacionalização do mecanismo e avalia continuamente oportunidades de aperfeiçoamento e integração dos sistemas”.

