É de uma plantação de apenas três hectares destinados exclusivamente à produção de cacau fino que sai a amêndoa eleita por duas vezes consecutiva a melhor do mundo. Mas o município onde esse cacau especial fica entrega um pouco da receita vencedora: Medicilândia (PA), considerada a capital nacional do cacau.
Miriam Federicci e o marido Leomar Vieira cultivam cerca de 350 pés da variedade campeã chamada Alvorada 01, conhecida por notas florais e terrosas, que carregam quase que o gosto puro da amêndoa no produto final. “O chocolateiro gosta dessa característica, porque não dá adstringência. Com nossa amêndoa, o chocolate tem sabor do cacau de verdade. Isso é o que os chocolateiros procuram”, afirmou a cacauicultora, durante visita à Expocacau, realizada em Ilhéus (BA), na última semana de agosto.
Para fazer a melhor amêndoa do mundo, o processo envolve um manejo criterioso. “Quando o cacau chega na maturação perfeita, é preciso colher no tempo certo, deixar descansar três dias no chão, depois amontoar e já quebrar o fruto no mesmo dia”, explica ela. Depois, continua a produtora, “levamos para o cocho e começa a parte de fermentação. Deixamos 48 horas, damos a primeira revirada e, depois, ficamos mais cinco dias revirando”.
O bicampeonato foi obtido pelo casal no Cacao of Excellence (CoEx), principal premiação mundial dedicada à qualidade do cacau que acontece a cada dois anos. A organização recebe amostras do mundo inteiro já pré-selecionadas por entidades chanceladas de cada país — no caso do Brasil, é o Centro de Inovação do Cacau (CIC) que faz a seleção.
O CoEx escolhe as 50 melhores do mundo e no dia da premiação as separa em três categorias: ouro, prata e bronze. O ‘Alvorada 01’, de Miriam e Leomar, ganhou medalha de ouro em 2024 e 2026. Durante a premiação em Amsterdã, na Holanda, em fevereiro deste ano, o jurado e chef confeiteiro do Reino Unido, Giacomo Pischiutti, caracterizou a amêndoa como de “acidez vibrante e integrada a notas de frutas vermelhas, amarelas e nuances florais”, durante a premiação.
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Leomar Vieira conta que a planta que dá origem ao fruto e à amêndoa campeã foi achada por acaso em 2017. “Achei essa planta na roça da minha sogra e batizei de Alvorada 01. Ela é típica da Amazônia, é um híbrido da Ceplac (Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira). Fiz clones dela para conquistar o mundo”, diz.
Miriam Federicci ressalta o auxílio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Pará que presta apoio técnico desde as primeiras mudas, mas principalmente na regulamentação das amêndoas. “Eles ajudam na documentação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CARF), porque para participar dos concursos é preciso estar com as documentações em dia”.
Hoje, o casal vende suas amêndoas premiadas para diversos Estados, entre eles São Paulo, Espírito Santo, Brasília e Rio Grande do Sul. Mas a cacauicultora destaca a marca de chocolates Monjolo, de Campinas. Com o Alvorada 01 como matéria-prima, a Monjolo Chocolates conquistou medalha de ouro no Prêmio Bean to Bar Brasil, na categoria Chocolates Intensos, em 2025 e bronze em 2026.
“A gente fica feliz porque sabe que nossas amêndoas estão indo para as mãos certas, de quem produz um chocolate de qualidade”.
O sucesso da amêndoa fez com que o casal expandisse sua área neste ano. “Compramos uma área em Altamira (PA) e plantamos mais 2.500 plantas do Alvorada 01”. E o bicampeonato não satisfaz a produtora. Na visita à Expocacau, ela contou que aproveitou a vinda para a Bahia e trouxe novas amostras da sua amêndoa para o CIC avaliar. O objetivo é buscar o terceiro título mundial seguido em 2028.
“Não adianta chegar ao pódio e depois desaparecer. Queremos nos manter. A gente trabalha todos os dias para isso”, afirma.

