O Brasil convive há quatro anos com uma taxa básica de juros, a Selic, acima de dois dígitos — e não há sinal claro de alívio no horizonte. Para Fernando Genta, novo economista-chefe do Nubank, o país pisa simultaneamente no freio e no acelerador, e enquanto essa dinâmica persistir, a inflação seguirá fora do controle.
“Por que juros tão altos não estão resolvendo? Porque de um lado está se pisando no freio de forma bem forte, mas do outro também está se pisando no acelerador de forma muito forte”, explica Fernando Genta, ex-secretário do Ministério da Fazenda e que acaba de assumir a cadeira de economista-chefe do Nubank na recém-criada área de macroeconomia da instituição financeira.
A entrevista de Genta e do economista Arnildo Correa, o primeiro a chegar ao Nubank para montar a nova área de macroeconomia, vindo do Banco Central, foi dada ao videocast Perspectivas, uma parceria entre o InvestNews e o Nubank.
O acelerador, na avaliação de Genta, tem nome e endereço: a forte expansão dos gastos públicos. “A gente está falando de quase R$ 200 bilhões de reais em aumento das despesas do governo, 2% do PIB. Entrando mais dinheiro na economia, é natural que as coisas se acelerem”, diz o economista, elencando um conjunto de medidas do Executivo, do Congresso e até do Judiciário, como decisões dos tribunais para inclusão de novos beneficiários no BPC (Benefício de Prestação Continuada, pago pelo INSS), criando novos gastos de seguridade social.
Os pontos monitorados pelo BC
A inflação resiliente, já apontando para 5,3% no ano, segundo projeções mais recentes do Boletim Focus, é um dos principais pontos observados pelo Banco Central. Pelo sexto ano consecutivo, o país deve ultrapassar o teto da meta prevista, de 4,5% em 2026.
Arnildo Correa, um veterano do Banco Central, onde trabalhou por 23 anos, passando pelas áreas de macroeconomia e de inovação, destacou no videocast os indicadores que o BC usa para calibrar a taxa de juro básica, a Selic — e a leitura não é animadora.
São quatro grupos: expectativas de inflação; núcleos de inflação, que excluem itens voláteis e seguem elevados; atividade econômica, que continua surpreendendo para cima; e o cenário externo, com o petróleo pressionado pelos conflitos geopolíticos. Embora a guerra do Irã tenha sido dada por encerrada, os efeitos sobre o petróleo, as cadeias produtivas e o custo dos fretes deve perdurar por muito tempo e não se espera um retorno aos níveis pré-guerra.
“Eu não vejo espaço para o Banco Central continuar muito nesse processo de corte de juros. Possivelmente o Banco Central deve promover um corte de 0,25% na próxima reunião [reunião desta quarta, 17 de junho], e a minha expectativa é de que ele mantenha constante depois”, afirmou Correa.
Para Genta, os quatro fatores apontam todos na mesma direção — e não é a esperada: “Se a gente fosse levar a rigor, nenhum dos quatro está apontando um juro para baixo. E também não estão apontando juros estáveis. Eles estão apontando juros para cima.”
Inflação: batalha perdida em 2026
O cenário para os próximos anos preocupa. Genta é categórico ao afirmar que a meta de inflação em 2026 dificilmente será cumprida — e que o verdadeiro embate será travado apenas a partir de 2027. “A nossa briga com a inflação vai ser uma briga a partir de 2027. [Em 2026] Essa briga definitivamente está perdida ali.”
O problema vai além dos números. Já são cinco anos consecutivos com a inflação acima da meta, excluindo a previsão para 2026 — e esse histórico começa a contaminar as expectativas de empresas e consumidores. “Quando a pessoa vai elaborar sua política de preço, ela tenta estimar o quanto vai ser a inflação futura. Com as expectativas mais desancoradas, mais inflação a gente vai ter no futuro”, explicou Genta. O risco, resumiu ele, é que o mercado simplesmente deixe de acreditar que a meta voltará a ser cumprida.
O nó fiscal: não é quanto se gasta, mas como
A questão fiscal é, para os dois economistas, a peça central na análise desses desequilíbrios. Para Arnildo Correa, o debate é inadiável — e o caminho passa necessariamente por um reequilíbrio das contas públicas após o ciclo eleitoral. E ele reforça que essa não é uma questão só federal. “Nos níveis estaduais também estamos vendo gastos muito fortes. Esse é um debate que a gente vai ter que enfrentar, a questão fiscal.”
O problema é menos visível na fotografia de agora e muito mais complicado no que vem à frente. Hoje, segundo os economistas, há uma certa leniência dos investidores internacionais porque a questão da dívida pública elevada é um problema global, que afeta também os países desenvolvidos. “Mas a gente já viu esse filme no passado. Quando vem um choque externo muito forte, essa confiança desaparece. E aí quem está numa situação pior do ponto de vista fiscal é quem paga mais a conta”, diz Genta.
Junto com o aumento dos gastos, o Brasil vem ampliando sua arrecadação, que no nível federal bateu recorde em 2024 (R$ 2,65 trilhões) e novamente em 2025 (R$ 2,89 trihões). Mas os economistas reforçam no videocast que a sociedade brasileira já paga muitos impostos e que o maior problema não é o volume dos gastos em si, mas a qualidade e a eficiência com que o dinheiro público é aplicado. E mesmo com uma carga tributária muito acima da média dos países emergentes, destacam, o governo não consegue fechar as contas.
Fernando Genta lembrou ainda que dívida alta hoje é, inevitavelmente, imposto mais alto ou inflação no futuro — e que quanto mais tempo se leva para fazer o ajuste, mais doloroso ele tende a ser.
Investimentos: Tesouro brilha, bolsa enfrenta ambiente hostil
O cenário macro, claro, afeta os investimentos.
Com taxa de juro elevado, para a renda variável, o cenário é adverso. Genta reconhece que sempre haverá vencedores e perdedores individuais, mas como classe de ativos, a bolsa sofre diretamente com o custo do dinheiro alto. “Com esse patamar de juro atual, é muito difícil como classe de ativos para a bolsa de valores”, disse o economista-chefe do Nubank.
Na renda fixa, Correa faz um alerta importante para quem foi atraído pelos títulos privados isentos de imposto de renda — CRIs, CRAs e debêntures incentivadas. Com o número de recuperações judiciais em níveis recordes, ele lembra que nem todo papel é igual. “Muita gente foi atraída pela isenção do imposto de renda, sem necessariamente avaliar exatamente o risco que estava correndo”, disse. A recomendação é diversificar, conhecer o perfil de risco de cada emissor e, diante das taxas atuais, considerar o Tesouro Direto como âncora do portfólio. “O Tesouro, com essas taxas de juros que estão pagando, é sempre uma ótima opção.”
O videocast Perspectivas está disponível no canal do YouTube do InvestNews.

