O Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, de 14,50% para 14,25% ao ano, em decisão unânime. O movimento era esperado pela maioria do mercado financeiro e representou o terceiro corte consecutivo desta magnitude do ciclo de alívio dos juros iniciado em março, quando a Selic estava em 15%. Com a queda, a taxa se iguala ao mesmo nível de maio de 2025.
O BC, no entanto, deixou os próximos passos em aberto, apontando maior preocupação com a inflação diante de uma atividade econômica que voltou a se fortalecer e das incertezas em relação à guerra no Oriente Médio e com eventos climáticos. A autoridade monetária também passou a considerar como risco de alta para inflação “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo”, em meio ao lançamento de novos programas de crédito pelo governo Lula.
“O Comitê julgou apropriado, nesse momento, dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25%. No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária”, disse o Copom no comunicado, sem dar nenhum sinal sobre os próximos passos.
A decisão desta quarta-feira era esperada pela maioria do mercado financeira. Segundo pesquisa do Valor Pro com 112 instituições financeiras, 94 esperavam corte de 0,25 ponto percentual dos juros, para 14,25%, e outras 18 projetavam manutenção em 14,50%. No Copom anterior, em abril, o BC havia indicado que planejava continuar o ciclo de “calibração” dos juros, mas sem detalhar o ritmo e a extensão de seus próximos passos.
Risco para a inflação
No comunicado, o Copom mostrou incômodo com a aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre deste ano, embora ainda acredite em desaceleração em 2026 frente ao ano anterior. O BC destacou especialmente o desempenho de setores que reagem ao comportamento da taxa Selic – instrumento que o BC tem a mão para esfriar a economia.
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“O conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência.”
Em relação à inflação corrente, o BC destacou que os dados recentes mostraram distanciamento adicional em relação à meta, inclusive com a última leitura do IPCA superando o limite de tolerância de 4,5%. O IPCA acumulado em 12 meses até maio alcançou 4,72%.
“Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.”
A projeção de inflação oficial do BC no horizonte relevante, que atualmente é o final de 2027, também subiu, de 3,5% para 3,7% – bem longe da meta de 3,0%. Além disso, a autoridade monetária agora vê mais riscos para que a inflação fique acima da sua própria expectativa.
De cara, o BC citou o risco relacionado a estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária.
Esse trecho é novo na comunicação do Copom e foi incluído após o lançamento de uma série de programas do governo federal que tendem a estimular a economia, como as linhas de crédito para comprar carros, caminhões e motos.
Além disso, o BC adicionou as ameaças climáticas relacionadas ao El Niño para o risco de um distanciamento adicional das expectativas de inflação por período mais prolongado.
“Uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia”, disse.
O BC ainda manteve a avaliação de que o ambiente externo continua incerto mesmo com o acordo preliminar entre Irã e Estados Unidos para encerrar a guerra no Oriente Médio devido a indefinição dos termos do cessar-fogo e das consequências dos efeitos já materializados do conflito até o momento.
“Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.”
Mirando 2028
Apesar disso, o BC decidiu cortar mais uma vez a Selic. Segundo o colegiado, a incerteza acerca das projeções está mais elevada atualmente.
“Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções permanece mais elevada que o usual, em função da falta de clareza sobre a trajetória dos condicionantes dos modelos de projeção analisados”, afirmou.
Dessa forma, a autoridade monetária sinaliza que, em decorrência dos riscos associados à evolução dos preços, “a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
Segundo o BC, o grau de restrição acumulado pela política monetária, uma vez que a Selic está muito distante do patamar neutro (que não acelera nem segura a economia), permite diferentes trajetórias de taxas de juros compatíveis com a convergência da inflação para a meta.
Nesse contexto, o BC argumentou que a trajetória da Selic para colocar a inflação na meta no horizonte relevante atual (fim de 2027) acarretaria que projeções nas próximas reuniões, quando o colegiado vai passar a mirar o primeiro trimestre de 2028, ficariam abaixo da meta. O próximo Copom é no início de agosto.
“Nas simulações atuais, a trajetória de política monetária necessária para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria que as taxas de inflação projetadas a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião estariam situadas abaixo da meta. Nessas condições, o Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos”, explicou.
Na avaliação do economista-chefe do BMG, Flávio Serrano, o BC usou o argumento da mudança próxima do horizonte relevante para justificar o corte dos juros nesta reunião mesmo com a piora do cenário para a inflação e da alta das projeções.
Já para o economista Leonardo França Costa, do ASA, nesse trecho em que cita a mudança do horizonte relevante, o BC deixa aberta a porta para novos cortes, a despeito da leitura mais dura do cenário para a inflação.
“Nossa projeção é de encerramento de ciclo nessa reunião (em 14,25%), contudo, abriu-se uma possibilidade (grande) de o Banco Central seguir em seu ciclo de calibragem de juros, cortando novamente na reunião de agosto, esperando o desenrolar do cenário até lá”, disse, em relatório.
O economista da AZ Quest Lucas Barbosa afirma que o BC destacou que os riscos para a inflação se acumulam na direção altista e avalia que a autoridade monetária deu uma espécie de guia para as suas próximas decisões a depender da evolução do cenário, como o futuro da guerra no Irã e o efeito do El Niño.
Segundo o economista, é possível que o BC faça uma pausa no processo de corte em agosto e volte a reduzir a Selic depois ou, se o cenário melhorar, tem chance de continuar cortando.
— O BC provavelmente está mirando uma trajetória de Selic que não é o Focus, nem uma Selic parada, muito menos uma alta. O cenário que ele está antevendo é algo inédito que é uma pausa na próxima reunião ou nas próximas reuniões, ou seguir cortando (direto), mas com ciclo menor do que Focus.
A expectativa atual de Barbosa é de seguidos cortes de 0,25 ponto percentual em função da melhora da guerra. Se o cenário se mostrar mais adverso, ele diz que o Copom deu as informações necessárias para que se possa esperar uma pausa na próxima reunião, mas, se tudo convergir conforme o esperado, volta a cortar juros assim que o cenário permitir.
Já a economista Andrea Damico, sócia-fundadora da Buysidebrazil, avalia que o BC foi mais duro em todo comunicado, especialmente reconhecendo a reaceleração da atividade econômica e incluindo um novo fator de risco de alta para a inflação relacionada aos novos programas do governo. Para ela, o Copom “prepara o terreno” para interromper o ciclo de queda dos juros em agosto.
— O BC abre espaço para manutenção na próxima reunião.

