Concorrentes em seus mercados, algumas das maiores empresas do país decidiram se sentar à mesma mesa para tratar de um ativo cada vez mais estratégico: a biodiversidade. Vale, Suzano, Basf, Votorantim e outras oito organizações formaram a Rede Brasileira de Reservas Privadas
(RBRP), iniciativa que busca articular áreas de conservação mantidas pela iniciativa empresarial em biomas que vão do Pampa à Amazônia.
(RBRP), iniciativa que busca articular áreas de conservação mantidas pela iniciativa empresarial em biomas que vão do Pampa à Amazônia.
A ideia nasceu em conversas entre executivos de sustentabilidade durante o evento Climate Week, realizado em Nova York, em setembro de 2022, em paralelo à Assembleia-Geral das Nações Unidas. Naquele encontro, líderes da área começaram a debater a possibilidade de unir esforços. “Esses profissionais já se encontravam com frequência em grandes eventos sobre preservação ambiental e conversavam sobre as alegrias e as dores de manter reservas próprias”, relata Tiago Egydio Barreto, gerente de sustentabilidade da Fundação ECO+, mantida pela indústria química Basf. “Naquele momento, foi disparada a fagulha que daria origem à rede três anos depois.”
A organização reune doze empresas e entidades responsáveis pela conservação de áreas naturais em diferentes biomas brasileiros, incluindo Mata Atlântica, Cerrado, Pampa, Pantanal e Amazônia. Entre os integrantes estão companhias de setores como cimento, mineração, papel e celulose e química. Entre as áreas agregadas estão a Reserva Caruara, no Rio de Janeiro, abrigo do maior fragmento de restinga em área privada do país; 27 000 hectares na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais; áreas de proteção e pesquisa na Floresta Amazônica no norte de Mato Grosso; e o Legado das Águas, a maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil, com 31 000 hectares no Vale do Ribeira. em São Paulo.
Inédito no Brasil, o modelo se apoia em uma estrutura colaborativa, com plenária, secretaria executiva, comitês temáticos e conselho consultivo. A proposta é reunir instituições que já mantêm reservas formalizadas e organizações aspirantes ou apoiadoras, criando um espaço permanente de troca técnica e articulação institucional. “Queremos crescer e alcançar novos integrantes” afirma Barreto.
A criação da rede se dá em um momento de forte pressão internacional pela proteção e pela restauração da biodiversidade. Esse movimento ganhou impulso com a assinatura, em 2022, do Marco de Kunming-Montreal, adotado durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. Comparável ao Acordo de Paris para emissões, o documento estabelece metas ambiciosas até 2050 – deter a extinção de espécies induzida pela ação humana, promover o uso sustentável da biodiversidade e reduzir a lacuna de financiamento da agenda ambiental — e metas intermediárias para 2030, entre elas a proteção de pelo menos 30% das áreas terrestres, marinhas e costeiras do planeta.

Tiago Barreto, da Fundação ECO+/Basf: “Queremos alcançar novos integrantes” (Fundação ECO/.)
Atualmente, o Brasil tem mais de 2,6 milhões de quilômetros quadrados protegidos, correspondentes a cerca de 20% do território terrestre e 26% da área marinha. Para cumprir a meta global, será necessário ampliar esses territórios, combinando ações do poder público, da sociedade civil e do setor privado. “O setor empresarial brasileiro avançou bastante nos últimos anos e hoje já existe um nível relevante de maturidade em iniciativas de preservação de biomas e conservação da biodiversidade”.
afirma Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).
A nova rede tem como objetivos fortalecer políticas públicas de proteção ambiental, estimular a troca de experiências e apoiar estudos científicos. “O intercâmbio de informações entre diferentes empresas e fundações pode gerar novos conhecimentos sobre ações eficazes de preservação. A união de esforços também é útil na defesa de pautas relevantes e no diálogo com órgãos governamentais”, diz Barreto.
Um estudo do Cebds, publicado durante a Conferência do Clima em Belém, mapeou 135 iniciativas empresariais ligadas à preservação e ao uso sustentável dos recursos naturais, incluindo projetos de restauração florestal, agricultura sustentável e monitoramento ambiental.
Ainda assim, transtormar projetos isolados em uma agenda de maior escala continua sendo um dos principais obstáculos. Muitas iniciativas ainda enfrentam dificuldade de acesso a financiamento e modelos econômicos mais estruturados. “O Brasil já possui conhecimento, tecnologia e experiências relevantes. O próximo passo é ampliar os mecanismos que permitam acelerar esses projetos em larga escala”, afirma Grossi.
Parte dessas ações é apoiada pelas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), categoria de unidade de conservação de caráter privado, criada de forma voluntária por proprietários que assumem o compromisso de preservar a área. “As RPPNs desempenham um papel estratégico na conservação da biodiversidade brasileira, especialmente em territórios onde a maior parte da vegetação remanescente está em terras privadas, como a Mata Atlântica e o Cerrado”, diz Aline Perez de Oliveira, diretora de engajamento corporativo para sustentabilidade na ONG The Nature Conservancy Brasil.

Marina Grossi, do Cebds: “O setor privado avançou em pautas de conservação” (CEBDS/.)
O avanço da agenda, porém, não ocorre de forma homogênea. “O desempenho do setor privado brasileiro em sustentabilidade reflete, de forma clara, as desigualdades socioeconômicas e de capacitação que caracterizam o país. O Brasil convive simultaneamente com exemplos de excelência e com gargalos profundos” afirma Oliveira.
Outro estudo realizado pelo Cebds, o Radar de Tendências 2026, aponta que 72% das empresas declaram ter integrado a sustentabilidade à estratégia de negócios, ante 26% em 2023. E há um levantamento da entidade indicando que 35% das companhias já consideram biodiversidade e ecossistemas temas materiais para os negócios. “Isso mostra que a agenda ambiental deixou de ser apenas reputacional e passou a fazer parte da gestão de risco e da estratégia empresarial. O desafio agora é acelerar a implementação”, diz Grossi.
Na prática, a conservação da biodiversidade começa a ser tratada não apenas como ação institucional ou compensatória, mas como parte de decisões ligadas a risco climático, acesso a capital, licenciamento, cadeias de suprimento e resiliência dos negócios. Temas como o mercado regulado de carbono, a taxonomia sustentável e os mecanismos de financiamento climático têm avançado como instrumentos para ampliar a participação privada. “Temos uma base científica sólida, especialistas reconhecidos internacionalmente em soluções baseadas na natureza, ativos naturais únicos e um setor privado sofisticada”, afirma Oliveira. “O que falta é alinhar esses elementos em políticas públicas consistentes e estáveis, que ofereçam segurança ao investimento privado.”
É nesse contexto que a Rede Brasileira de Reservas Privadas busca construir uma agenda comum. “Somos concorrentes, falando de objetivos comuns”, afirma Barreto. “Toda espécie tem direito a continuar existindo. E nós, seres humanos, estamos conectados ao ecossistema e precisamos deixar um legado de preservação para as próximas gerações.”
Publicado em VEJA, maio de 2026,

