O café entrou muito cedo na vida das irmãs paulistanas Nadia e Julia Nasr. Elas até enveredaram por outro caminho, mas não durou muito. O que as irmãs chamam de “marcador temporal da vida” tornou-se um negócio que tocam desde 2018, a torrefação Café Por Elas. A nova aposta das empreendedoras, que trabalham apenas com cafés especiais produzidos por mulheres, é uma cafeteria num espaço contíguo à torrefação na capital paulista.
“Nossa mãe é produtora de café, então de certa forma o assunto café pautou nossas vidas. Quando eu tinha 8 anos e a Julia, 4, ela plantou o cafezal na fazenda onde produz hoje. O café acabou sendo um marcador temporal das nossas vidas, crescemos junto com esse cafezal”, conta Nadia.
A propriedade fica na cidade de Dourado, na região de Araraquara, interior de São Paulo. Antes do Proálcool, criado em 1975, a região havia sido um polo de café. Com o programa de estímulo ao etanol, porém, áreas do grão foram arrendadas para cana. Segundo Julia, a fazenda foi comprada em 1999 pelos pais Abadia e José Augusto, e à medida que os arrendamentos de cana venciam, a mãe iniciou um projeto de melhoria de solo na propriedade, recuperando a terra para plantar café. Hoje são 100 hectares de cafezais.
O negócio café foi sempre gerido por Abadia, que enfrentou questionamentos, sobretudo por iniciar um projeto ao mesmo tempo em que tinha duas filhas pequenas. “Assistimos, de perto, todos os desafios que ela enfrentou, principalmente por ser mulher. Estava cercada quase que o tempo inteiro apenas de homens e muitas vezes ouvia frases como: ‘Nossa, que loucura, você com duas filhas pequenas se arriscar num projeto como esse. Aqui já não dá mais café’”, relata Nadia.
Mas deu café, sim, contrariando o que diziam. Em 2016, Abadia iniciou um projeto de melhoria de qualidade de grãos na fazenda. Mais ou menos na mesma época, Nadia e Julia, ambas advogadas, passaram a olhar mais atentamente para as tendências no mercado de cafés especiais. “Percebíamos que, embora tivéssemos a produção na família, as pessoas ao redor sabiam muito pouco sobre o processo, e a gente bebia café de baixíssima qualidade na maior parte dos lugares”, diz Nadia.
Além disso, notaram que havia espaço para o café especial crescer no mercado, não apenas em locais “nichados”, mas também para atingir públicos diferentes que estavam acostumados com o café tradicional e também não gostavam daquele café “microlote raro”, observa Julia. O foco era o consumidor que queria algo entre os dois, acrescenta ela.
Operação
No início da operação da Café Por Elas, então uma nanotorrefação, com processamento de apenas 20 quilos por mês, a matéria-prima vinha toda da propriedade da família. Mas as sócias, que até 2020 conciliaram a carreira no Direito com a torrefação, perceberam que havia espaço no mercado para crescer porque existia um “apetite” por cafés especiais.
Como a mãe não tinha intenção de aumentar a produção na fazenda, elas começaram a estruturar uma cadeia de fornecimento de café. “A gente já sabia que ia querer trabalhar com outras produtoras mulheres para, de certa maneira, poder honrar a trajetória da nossa mãe, (…) agregando outras mulheres e, quem sabe, até facilitando um pouco o caminho de outras mulheres que quisessem trabalhar com café especial”, diz Nadia.
Hoje a torrefação recebe café de 25 produtoras de diferentes regiões, como Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Chapada Diamantina. Produtoras que, tal qual a cafeicultora Abadia, buscam implementar práticas regenerativas no cultivo do grão.
Expansão
Desde a fundação, a Café Por Elas mais que dobrou de tamanho ano após ano, segundo as sócias. Hoje é uma torrefação pequena, que processa 4 mil a 5 mil quilos de café por mês – em 2025, foram 2,5 mil quilos a 3,5 mil quilos por mês. O plano é fechar o ano em 6 mil quilos por mês.
Os principais clientes da torrefação são restaurantes, empresas e hotéis, o chamado B2B. Além da cafeteria, chamada Cafetina, a empresa também iniciou vendas online em janeiro. A expectativa é que esses dois canais elevem em 25% a receita da Café Por Elas no prazo de um ano, estimam as sócias.

