Levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), aponta que o Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), perdeu dez programas de pesquisa em melhoramento genético nas últimas décadas por falta de pesquisadores. Foram interrompidas pesquisas com arroz, crotalária, algodão,mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja.
“São linhas de pesquisa diretamente relacionadas à produção de alimentos e à segurança alimentar. Permitir que programas construídos durante décadas sejam interrompidos por falta de reposição de pesquisadores demonstra uma negligência grave do Estado com um patrimônio científico que pertence à sociedade”, afirma Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.
Helena afirma que a interrupção ocorreu após a aposentadoria ou morte de pesquisadores responsáveis, principalmente melhoristas, que não foram substituídos. Entre as atividades desenvolvidas estavam programas de melhoramento genético, responsáveis pelo desenvolvimento de cultivares e também pela manutenção de materiais (linhagens e variedades), que integram os acervos e coleções do Instituto.
“Quando não há novos pesquisadores suficientes para assumir as linhas de pesquisa, há um apagão científico. Hoje, além de programas de melhoramento paralisados, alguns bancos de germoplasma estão sem a manutenção adequada”, explica Helena.
No IAC, as coleções acumuladas durante décadas guardam materiais que não estão mais disponíveis no mercado, pontua a presidente da APqC. “Os bancos de sementes não são depósitos estáticos armazenados em câmaras frias. Com o tempo, perdem capacidade de germinação e precisam ser levados ao campo para serem multiplicados e novamente conservados.”
Helena afirma que a falta de manutenção já provocou perdas no germoplasma de girassol, após a morte da pesquisadora responsável pelo programa. Ela acrescenta que a interrupção de programas de melhoramento genético tem consequências para a vida dos agricultores e, em sentido mais amplo, da sociedade como um todo, já que, impede, por exemplo, o desenvolvimento de cultivares mais resilientes às mudanças climáticas.
Lei mudou remuneração de pesquisadores, diz Associação
Para a ApqC, a disparidade salarial dos pesquisadores, quando comparados a outros órgãos nacionais, dificultam a permanência de cientistas no Estado. A Lei Complementar nº 1.435/2025 entrou em vigor em dezembro de 2025 e alterou a estrutura da carreira de Pesquisador Científico, aponta a Associação.
“A lei retirou conquistas históricas, como sexta-parte e quinquênios para quem optar pelo subsídio, e ampliou de seis para 18 os níveis de progressão. Em vez de tornar a carreira mais atrativa, criou uma estrutura que dificulta a evolução profissional”, afirma Helena.
O último concurso para pesquisadores científicos dos institutos ligados à Agricultura teve 37 vagas e foi autorizado em 2022. A APqC considera o número insuficiente diante da redução acumulada dos quadros e da quantidade de linhas de pesquisa existentes nas instituições.
Estado promete retomar concursos e diz que conserva germoplasma
Procurada perla reportagem da Globo Rural, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo afirmou que vem adotando medidas para recompor as equipes de pesquisadores e para tornar a carreira mais atrativa. Entre as ações, está a retomada dos concursos públicos.
“A reestruturação da carreira, proposta pelo Executivo, aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada em 2025, elevou em mais de 70% a remuneração inicial dos pesquisadores científicos. A medida abrange os institutos vinculados à APTA e outras instituições estaduais de pesquisa, contribuindo para atrair e manter profissionais qualificados”, diz a nota.
A Secretaria informou que os 37 pesquisadores aprovados no concurso de 2023 foram nomeados este ano, durante a Agrishow. E que, na feira, anunciou a ampliação em mais sete vagas.
“Até o momento, as contratações já repuseram mais de 88% das vagas deixadas por pesquisadores que se aposentaram desde 2023. Entre os novos profissionais, há um pesquisador destinado à área de grãos e fibras do Instituto Agronômico (IAC)”, diz a nota.
A Pasta afirmou ainda que dá proridade à preservação dos bancos de germoplasma, a partir da reposição dos pesquisadores e melhorias de infraesturtura de unidades de pesquisa.
“Os bancos de germoplasma e as coleções estão distribuídos entre diferentes unidades da APTA e dão suporte a pesquisas conduzidas tanto pelas equipes da Secretaria quanto por profissionais de outras instituições, contribuindo para a conservação da diversidade e o desenvolvimento de novas variedades”, afirma a Secretaria.

