Sofrimento absurdo’, diz autora de relatório sobre o foie gras

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Sofrimento absurdo’, diz autora de relatório sobre o foie gras

     O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem até o dia 27 de julho para sancionar ou vetar o projeto de lei 90/2020, que proíbe a produção e a comercialização de produtos obtidos por meio da alimentação forçada de animais. Nesta semana, entidades de proteção animal pretendem ir a Brasília para defender a sanção da proposta e reforçar os argumentos apresentados em um relatório que conclui que a prática é incompatível com o bem-estar animal.

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     Aprovado pelo Congresso, o projeto tem como principal alvo o foie gras, iguaria da culinária francesa produzida a partir da alimentação forçada de patos ou gansos. Segundo o relatório, elaborado pela organização Animal Equality e distribuído a parlamentares durante a tramitação da proposta, a obtenção do produto depende da indução deliberada de esteatose hepática, condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado das aves.

     “O foie gras tem que ser proibido no Brasil porque a nossa Constituição veda a crueldade contra os animais, e a produção através da alimentação forçada é uma das práticas mais cruéis da agropecuária”, afirma a zootecnista Marina Gomes, autora do relatório.

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Confira abaixo os principais pontos do relatório:

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  • O foie gras é um fígado com esteatose hepática (acúmulo excessivo de gordura), condição provocada propositalmente por alimentação forçada e dieta específica;
  • O fígado das aves pode aumentar de sete a dez vezes em relação ao tamanho normal;
  • A alimentação forçada ocorre durante cerca de duas semanas com tubo metálico de aproximadamente 30 cm, duas vezes por dia;
  • O tubo metálico pode ocasionar lesões no esôfago;
  • A mortalidade é maior em comparação a sistemas convencionais de criação de pato;
  • As Cinco Liberdades (nutricional, sanitária, ambiental, comportamental e psicológica) ficam comprometidas durante a produção;
  • O relatório conclui que não seria possível produzir o foie gras respeitando padrões adequados de bem-estar animal.

 

     De acordo com Marina, duas evidências principais apontam a incompatibilidade do foie gras com o bem-estar animal: a alimentação forçada em si, feita com um tubo metálico de cerca de 30 centímetros, por meio do qual é depositada uma grande quantidade de comida na garganta do animal; e o fato de que não existe foie gras sem que uma doença seja provocada de forma intencional – no caso, a esteatose hepática, popularmente conhecida como fígado gorduroso.

     “O foie gras nada mais é do que um fígado doente de um pato ou de um ganso. E como o fígado pode chegar a aumentar em até dez vezes o tamanho dele, ele começa a comprimir outros órgãos. Isso gera dor, desconforto, mas principalmente dificuldade de respirar”, descreve a especialista, que descreve o sofrimento das aves como “absurdo”.

     Uma vez que o ganho de peso se dá de forma muito rápida, a ossatura do animal começa a envergar, ocasionando uma condição muito dolorosa para a ave. Para estimular o aumento de gordura no fígado, os criadores utilizam uma dieta à base de milho – rica em carboidrato, mas pobre em proteína.

     Muitos animais acabam vindo a óbito antes mesmo do abate, devido ao acúmulo de toxinas no cérebro. Segundo Marina, a taxa de mortalidade na criação de aves para foie gras é 25% mais alta do que nos sistemas convencionais, voltados para a produção de carne.

    Além disso, patos e gansos ficam em gaiolas localizadas dentro de galpões fechados, de modo que não conseguem expressar o seu comportamento natural. “São aves aquáticas, que têm necessidade de estar em contato com a água”, observa a zootecnista.

Animais ficam presos em gaiolas, o que impede comportamento natural — Foto: Animal Equality / Divulgação
Animais ficam presos em gaiolas, o que impede comportamento natural — Foto: Animal Equality / Divulgação

O foie gras no Brasil

 

     Caso o projeto de lei seja sancionado, o Brasil se tornará o primeiro país da América Latina a proibir tanto a produção quanto a comercialização do foie gras – a Argentina já proíbe a produção. A Índia foi o primeiro país, em 2014, a adotar a proibição total (produção, venda e importação).

     No Brasil, o consumo se dá por meio da importação. O prato pode ser encontrado em alguns restaurantes de alta gastronomia, principalmente em São Paulo.

     Também é possível adquirir foie gras e produtos similares em plataformas de entrega na internet. Em um destes sites, uma lata com 210g de foie gras de ganso é oferecida por R$ 1.250.

O que dizem os criadores

 

     Em comunicado à imprensa, o Comité Interprofessionnel des Palmipèdes à Foie Gras (Cifog, entidade que representa a cadeia produtiva do foie gras na França) criticou a aprovação do projeto de lei pelo Brasil, classificando-o como uma “primeira afronta” ao acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, em vigor de forma provisória desde o dia 1º de maio.

     A entidade sustenta que o foie gras é um produto tradicional na França, protegido por lei desde 2006 como parte do patrimônio gastronômico e cultural do país. Conforme o documento, a iguaria é produzida sob padrões reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal e pela legislação europeia.

     O comunicado destaca ainda que o foie gras é exportado para cerca de 70 países. Na avaliação do Cifog, a proibição do produto no Brasil contraria compromissos assumidos no acordo entre Mercosul e União Europeia.

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