Durante décadas, prevaleceu a percepção de que a agricultura global é estável, sustentada por comércio fluido, energia acessível e cadeias integradas. A sucessão de conflitos recentes, com destaque para a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, vem desmontando essa premissa. Mais do que eventos isolados, essas crises revelam fragilidades do sistema agroalimentar global.
A guerra entre Rússia e Ucrânia expôs a centralidade geopolítica da produção agrícola. O bloqueio de portos no Mar Negro, as sanções econômicas e a volatilidade nos mercados de grãos evidenciaram o grau de concentração da oferta global de alimentos. Ao mesmo tempo, tornou-se notória a dependência que a agricultura tem de insumos estratégicos, como fertilizantes, que estão concentrados em poucos países, muitos deles diretamente envolvidos ou afetados por tensões geopolíticas.
Mais recentemente, os conflitos no Oriente Médio recolocam em evidência outro vetor essencial: a energia. A agricultura contemporânea é, em larga medida, uma atividade intensiva em energia – seja no preparo do solo, no transporte, na irrigação ou, de forma indireta, na produção de fertilizantes. A instabilidade em regiões-chave para o fornecimento global de petróleo e gás natural amplia a incerteza e reafirma o quadro de interdependência entre segurança energética e segurança alimentar.
Esses episódios indicam uma transição: o mundo passa da eficiência à resiliência e à segurança estratégica. Cadeias globais altamente otimizadas, mas sensíveis a choques, começam a dar lugar a arranjos que valorizam redundância, diversificação e capacidade de resposta rápida. Nesse novo contexto, produzir alimentos deixa de ser apenas uma questão de produtividade e passa a incorporar dimensões geopolíticas, tecnológicas e logísticas.
Para o Brasil, esse quadro representa uma oportunidade histórica e um conjunto relevante de riscos. O país dispõe de ativos notáveis, como uma base produtiva diversificada, domínio da agricultura tropical e protagonismo em bioenergia. Em um mundo mais instável, essas características nos posicionam como um dos poucos países capazes de contribuir de forma consistente para a segurança alimentar global.
No entanto, esse destaque convive com vulnerabilidades que não podem ser negligenciadas. A dependência significativa de fertilizantes importados, a exposição a oscilações nos mercados de energia e a fragilidade de alguns elos logísticos revelam que parte da competitividade do agro ainda está sujeita a condições externas que estão fora do nosso controle. Em um ambiente geopolítico mais fragmentado, essas dependências podem se tornar fatores críticos.
Diante disso, a principal lição das guerras contemporâneas para o agro brasileiro é clara: vantagens naturais, por si só, não garantem segurança nem liderança sustentável. Será necessário avançar na construção de autonomia estratégica, o que implica investir de forma consistente em bioinsumos e novas rotas para fertilizantes; fortalecer a integração entre produção agrícola e sistemas energéticos; e ampliar a inteligência logística e de mercado.
Em tempos de conflito, produzir alimentos deixa de ser apenas uma atividade econômica: torna-se expressão de soberania e inteligência estratégica.
*Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
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Fonte: Globo Rural
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