“Houve uma leve alta no preço do leite, mas os produtores ainda estão apreensivos porque os custos aumentam a cada ano”, declara Armando Rabbers, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa.
Em entrevista à Globo Rural na semana passada, durante a Agroleite, feira promovida pela Cooperativa Castrolanda, em Castro (PR), Rabbers apontou as taxas de juros e o combustível como exemplos de fatores que compõem o desafio financeiro da atividade. “O produtor precisa buscar melhorias na propriedade e, ao mesmo tempo, diminuir seus custos de produção para se manter sustentável”, ressalta.
Para apoiar a produção, Rabbers explica que a associação atua na busca de eficiência dos rebanhos, o que significa animais com maior longevidade, alta produtividade e saúde da glândula mamária. Um dos focos principais é o banco de dados da genômica nacional da raça holandesa. “Em 2027, já teremos avanços nesse âmbito, com mais clareza de quais animais se adaptam melhor à nossa região”.
Sustentar a qualidade da produção é um desafio e um aspecto direto ligado à rentabilidade, uma vez que os laticínios bonificam os produtores por índices baseados em critérios físicos, químicos e microbiológicos do leite.
:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/f/F/lLjLSdTiqGANK0NT7bVA/armando-rabbers-presidente-da-associacao-brasileira-de-criadores-de-bovinos-da-raca-holandesa-foto-carolina-mainardes.jpeg)
“As margens continuam apertadas e manter a qualidade exige investimento”, afirma João Galvão Prestes, produtor em Castro. Ele está à frente da Fazenda São Thomé, onde são produzidos 23 mil litros de leite por dia, com 510 vacas em lactação.
Prestes relata que não abre mão do investimento em genética, do rígido controle sanitário dos animais e observa que o preço dos insumos, principalmente dos componentes da alimentação do rebanho, representa a maior parte dos custos. Já encontrar mão de obra tem sido a principal dificuldade para a operação. “Os funcionários não permanecem o tempo necessário para aprender, ter uma formação prática na área”.
A produtora Jussara Liebel, de Piraí do Sul (PR), relata a mesma dificuldade. “O mais complicado hoje é encontrar mão de obra qualificada, assim como um pessoal que ‘vista a camisa’. Por causa disso, a gente não consegue aumentar muito o rebanho”, constata.
O Recanto dos Passarinhos, propriedade conduzida por ela e o marido José Delmiro Solak, é referência em genética da raça Jersey, com 139 animais em lactação e produção diária de 3 mil litros de leite. Para conquistar os resultados comprovados em controles leiteiros oficiais e testes genômicos, ela ressalta que o investimento é constante.
:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/Y/Q/oVT4VjR2Cg1sJTITOM1g/produtora-jussara-liebel-pirai-do-sul-foto-carolina-mainardes.jpg)
Para o produtor Fernando de Azevedo Reis, de Piranguinho, no sul de Minas Gerais, a mão de obra é um dos maiores problemas. “A geração mais nova não tem interesse em ficar no campo e levantar de madrugada para o trabalho, estão em busca de outras coisas”, diz.
Produtor de leite há 38 anos, Reis também menciona a queda no consumo do leite como um fator preocupante. Ele conta que entrega a produção diária do rebanho de 45 a 50 vacas, que gira em torno de 950 e 1 mil litros de leite, para uma multinacional, e que tem visto a tabela de bonificação cair do ano passado para cá.
“A demanda de consumo anda mais reprimida, o consumidor está com menos recursos e cada vez mais endividado, esse também é um gargalo”, avalia.
Diversificação
Para o presidente do Sistema Faep, da Federação da Agricultura do Paraná, Ágide Eduardo Meneguette, a diversificação da produção leiteira com a produção de queijos, por exemplo, pode ser uma boa estratégia para aumentar a rentabilidade do produtor e fortalecer a cadeia produtiva.
O dirigente cita o Prêmio Queijos do Paraná, promovido pelo Sistema Faep e que está na terceira edição. “Os pequenos produtores conseguem obter em torno de 50% a 60% de aumento no valor de seus queijos premiados”, destaca. Da produção diária de aproximadamente 13,5 milhões de litros de leite do Paraná, cerca de 6 milhões de litros são destinados à fabricação de queijos, segundo a Faep.
Meneguette aponta preocupação com os preços dos insumos e o consequente aumento dos custos de produção, assim como a instabilidade do mercado. “Estamos trabalhando para colocar outros mecanismos de análise do leite, dentre eles o pagamento por sólidos, e assim conseguir um preço maior para os produtores”, detalha. A precificação atual é feita por volume, com tabela de bonificação referente aos índices de qualidade e composição.
:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/4/J/LiRlzrRu6EiFi2yZcXRg/agide-eduardo-meneguette-presidente-sistema-faep-foto-departamento-de-comunicacao-sistema-faep.jpg)
O valor médio de referência do leite passou de R$ 1,94 o litro, no início do ano, para R$ 2,60 o litro atualmente, conforme boletim do Conseleite/PR. Já o custo de produção no Estado fica em torno de R$ 2,20 por litro.
No Rio Grande do Sul, o Conseleite/RS projetou para ser pago em julho um valor de referência de R$ 2,50 por litro. Na avaliação do presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, a remuneração praticada atualmente permite que os produtores recuperem parte da rentabilidade perdida nos últimos anos, ainda que de forma limitada.
Apesar da melhora, o dirigente considera que o valor recebido ainda não proporciona o retorno necessário para dar segurança à atividade no longo prazo. Segundo ele, um preço próximo de R$ 2,80 por litro representaria uma remuneração mais compatível com a realidade da produção, sem comprometer o consumo.
*A jornalista viajou a convite da Elanco Saúde Animal

