Preços da carne disparam nos Estados Unidos enquanto pecuaristas acumulam perdas bilionárias, fazendas fecham todos os anos, rebanhos encolhem rapidamente e quatro gigantes do abate concentram poder sobre mercado, contratos futuros, oferta de gado e supermercados

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Preços da carne disparam nos Estados Unidos enquanto pecuaristas acumulam perdas bilionárias, fazendas fecham todos os anos, rebanhos encolhem rapidamente e quatro gigantes do abate concentram poder sobre mercado, contratos futuros, oferta de gado e supermercados

Em meio a recordes históricos nos preços da carne, pequenos e médios pecuaristas relatam perdas de bilhões de dólares, quase 20 mil fazendas fecham por ano, o rebanho nacional encolhe e um oligopólio de frigoríficos usa contratos futuros para controlar gado, abate e supermercados em todos os estados do país.

Os preços da carne batem recordes nas prateleiras dos supermercados americanos, mas, longe das gôndolas refrigeradas, milhares de pecuaristas acumulam prejuízos, vendem o rebanho às pressas e encaram a possibilidade real de fechar as porteiras de fazendas mantidas pela mesma família há gerações.

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Em estados rurais como Nebraska, onde a pecuária de corte molda a economia local, produtores relatam que anos inteiros de trabalho podem ser apagados em poucos dias por decisões tomadas em bolsas de futuros, anúncios presidenciais sobre importação de carne e pela força concentrada de quatro gigantes que controlam o abate e a carne embalada.

Quando o aumento dos preços da carne não chega ao campo

 

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Em meio a manchetes destacando que o preço da carne moída subiu quase 13 por cento e que o bife ficou 16 por cento mais caro, pecuaristas americanos descrevem um cenário oposto nas contas da fazenda: perdas estimadas em 17 bilhões de dólares que simplesmente não aparecem na nota fiscal do supermercado.

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Na região rural de Nebraska, o criador John O’Dea, sexta geração em uma família ligada ao gado de corte, lembra que, historicamente, em sete de cada dez anos a atividade apenas empata ou dá prejuízo.

Nos poucos anos lucrativos, o produtor tenta pagar dívidas acumuladas nas fases ruins e manter a operação viva.

 

Quando os choques recentes derrubaram o valor do gado em questão de dias, esse equilíbrio frágil ruiu e transformou um ano que parecia excepcional em mais um ciclo de endividamento.

Contratos futuros, tela de computador e o colapso em minutos

 

Na rotina de muitos criadores, o dia de trabalho começa com um olhar para a tela do computador.

O gráfico de contratos futuros de gado para engorda, negociados em bolsas como Chicago, indica quanto poderão receber daqui a meses pelo animal que ainda está no pasto.

Em teoria, esses contratos deveriam ser um pacto simples entre comprador e vendedor para garantir um preço justo no futuro.

Na prática, grandes corporações e fundos de hedge negociam apenas no papel, sem possuir um único boi, lucrando com oscilações diárias que podem destruir a margem de quem realmente cria o rebanho.

No Missouri, o pecuarista Coy Young financiou um rebanho de gado Angus acreditando que conseguiria pagar tudo com a venda em 2020.

Em poucos dias, o contrato futuro despencou para 108, justamente às vésperas do leilão.

Em vez de receber algo entre 125 mil e 128 mil dólares, Coy voltou para casa com apenas 36 mil dólares no bolso, depois de ver o remate virar um massacre financeiro.

A decisão de encerrar a criação de gado da família veio junto com empréstimos bancários e dívidas de cartão de crédito que continuam assombrando o produtor mesmo depois de vender todo o rebanho.

 

Quatro frigoríficos, 80% do mercado e a compressão da margem

 

A cadeia da carne bovina norte americana tornou-se altamente concentrada no elo do abate.

Mais de 90 por cento do gado criado no país vem de produtores independentes de pequeno e médio porte, mas quatro empresas de processamento concentram cerca de 80 por cento da capacidade de abate.

São elas JBS, National  Beef, Cargill e Tyson. Em 1980, os produtores de gado recebiam 0,63 de cada dólar gasto pelo consumidor com carne bovina, deixando 0,37 para frigoríficos e varejistas.

Quatro décadas depois, essa divisão se inverteu, comprimindo a parte que fica com quem cria o animal.

Em 2019, a entidade R CALF USA, liderada pelo ex pecuarista Bill Bullard, entrou com uma ação coletiva contra as quatro maiores empresas, acusando-as de reduzir o abate e suas compras no mercado à vista para manter a demanda sempre abaixo da oferta disponível de gado.

Segundo a acusação, essa estratégia suprime o valor pago ao produtor enquanto o preço da  carne em caixa continua avançando, alimentando lucros de frigoríficos e grandes redes de supermercados.

 

Para Bullard, a ampliação da diferença entre o que o varejo cobra e o que o pecuarista recebe é um sinal claro de que o mercado está fundamentalmente falido.

Quando política externa e importação de carne derrubam o gado

Em meio a essa estrutura concentrada, declarações presidenciais podem derrubar o valor do gado em poucas horas.

 

Quando o então presidente Donald Trump anunciou um plano para quadruplicar as importações de  carne bovina argentina e, ao mesmo tempo, pressionou pecuaristas americanos a reduzir preços, o mercado reagiu com uma queda brusca nos contratos.

Pecuaristas relatam perdas entre 200 e 300 dólares por cabeça, o que somado representa cerca de 17 bilhões de dólares evaporando de um mês para o outro.

Enquanto os preços da carne para o consumidor permaneceram em níveis recordes, Trump afirmou em público que havia salvado os fazendeiros e que eles estariam satisfeitos com a intervenção.

 

No campo, o sentimento descrito por criadores independentes é o oposto, misturando revolta e sensação de traição.

A base política que ajudou a eleger o presidente se viu, de repente, arcando com o custo de uma decisão que favoreceu frigoríficos, traders e grandes compradores de proteína bovina.

Fazendas familiares desaparecem e o rebanho americano encolhe

A pressão combinada de especulação financeira, concentração industrial e decisões de política comercial se traduz em um mapa rural em rápido esvaziamento.

Estimativas citadas por produtores indicam o fechamento de cerca de 17 mil e quinhentas fazendas familiares por ano, quase 20 mil operações que deixam de existir anualmente.

Desde 1980, mais de 32 milhões de cabeças de gado desapareceram do rebanho americano, que hoje se encontra em níveis historicamente baixos, próximos ao piso observado em setenta e cinco anos.

 

Para famílias como a de Coy Young, isso significa abandonar a criação de gado mantida desde 1965 e tentar sobreviver em outra atividade.

Mesmo diante dessa redução da oferta, grandes empresas anunciaram o fechamento de frigoríficos alegando não encontrar gado suficiente para abater.

Críticos lembram que o próprio modelo de negócios, ao forçar a saída de milhares de pecuaristas independentes ao longo de décadas, ajudou a criar o cenário de escassez atual.

A percepção recorrente entre produtores é que quem está sendo espremido é justamente quem alimenta toda a cadeia, desde a engorda no pasto até o hambúrguer servido no prato do consumidor urbano.

Do curral ao food truck, o impacto direto no consumidor

Depois de liquidar o rebanho e encerrar a fazenda, Coy Young passou a viver do outro lado do balcão: abriu um food truck de churrasco e tornou-se comprador direto de carne bovina.

 

Meses depois, viu o peito bovino subir de 3,87 dólares em março para 6,42 dólares em setembro, um salto de 70 por cento em apenas quatro meses.

Sem rebanho e sem margem, ele descreve a sensação de não ter dinheiro nem para comprar a própria matéria prima que antes produzia.

O caso de Coy ilustra como o distanciamento entre o preço pago ao pecuarista e os preços da carne cobrados do consumidor final afeta toda a cadeia.

Quando o valor da arroba cai no campo, o alívio raramente chega à gôndola do supermercado ou ao cardápio do restaurante. Já quando a carne embalada sobe, o aumento é repassado quase integralmente ao público, ao mesmo tempo em que pressiona pequenos negócios que vendem churrasco, hambúrguer ou refeições prontas.

Política, investigação e o debate sobre futuro da carne bovina

Autoridades antitruste dos Estados Unidos, como Lina Khan, já chamaram atenção para o fato de que as pessoas pagam mais pela carne ao mesmo tempo em que agricultores recebem menos.

 

Ao reconhecer que há algo de “esquisito” nos preços da carne e mencionar publicamente a concentração no setor,  políticos de diferentes correntes passaram a defender investigações sobre o poder de mercado dos frigoríficos e dos grandes varejistas.

Pedidos para que o Departamento de Justiça abra processos antitruste contra os maiores grupos de abate e redes de supermercado se somam a propostas de reformar o mercado futuro e aumentar a transparência sobre contratos de longo prazo.

Produtores independentes defendem que apenas lucros estáveis e sustentáveis na criação de gado permitiriam reconstruir o rebanho nacional, aumentar a oferta interna e, finalmente, fazer com que o acúmulo de  carne nas caixas do varejo se traduza em redução real de preços para quem compra no balcão.

Quem paga a conta dos preços da carne

Da fazenda de Nebraska ao food truck estacionado em uma rua qualquer, a trajetória recente dos preços da carne nos Estados Unidos revela uma cadeia em que tanto o produtor quanto o consumidor se sentem explorados.

Em cima, especuladores financeiros e quatro gigantes do abate concentram decisões sobre oferta, importações, contratos e fechamento de plantas, influenciando a renda de milhares de famílias rurais e o valor final da compra no supermercado.

 

Enquanto o debate  político se foca em reduzir rapidamente o preço da carne bovina, pecuaristas argumentam que não haverá alívio sustentável na gôndola sem um mercado justo, menos manipulação de contratos futuros e lucros previsíveis no campo.

 

 

Fonte: CPG Click Petróleo e Gás

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