A Corteva inicia uma nova fase após concluir a separação de seu negócio de sementes e genética avançada, que passa a operar de forma independente como Vylor. As ações da nova companhia começaram a ser negociadas nesta quinta-feira (1º) na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). Com a cisão, a Corteva concentra suas operações em proteção de cultivos.
A nova estrutura coloca a inovação no centro da estratégia da empresa, que tem um pipeline de proteção de cultivos avaliado em US$ 11 bilhões e prevê o lançamento de 12 novos produtos na próxima década. São sete novos ingredientes ativos e cinco produtos biológicos.
“Não podemos apenas entregar tecnologia. Ao mesmo tempo, precisamos fazer isso cada vez mais rápido”, afirmou Brook Cunningham, Chief Commercial Officer (CCO) da Corteva, em entrevista coletiva durante o GAFFFF 2026 (Global Agribusiness Festival), realizado em São Paulo.
Novo ciclo de inovação
Segundo Cunningham, a estratégia da Corteva envolve o desenvolvimento de novas tecnologias e a oferta de serviços que ajudem os produtores a aplicar as soluções nas propriedades.
“Acredito que a Corteva tem uma grande responsabilidade na entrega de inovação ao campo, mas também em oferecer um nível de serviço que ajude os produtores a transformar a tecnologia que levamos à fazenda em soluções para problemas específicos”, afirmou.
A executiva destacou que as tecnologias precisam estar associadas a capacitação e ferramentas financeiras. “Um produto precisa estar acompanhado de outras ferramentas para ser bem-sucedido na propriedade. É necessário oferecer instrumentos financeiros que contribuam para o resultado da fazenda ou capacitação sobre a melhor forma de utilizar aquela tecnologia”, disse.
Entre os projetos da companhia estão novas tecnologias de proteção de cultivos, incluindo um novo modo de ação voltado à ferrugem-asiática da soja. Segundo a empresa, trata-se do primeiro novo modo de ação lançado no Brasil em mais de 14 anos.
A Corteva também pretende ampliar o acesso a tecnologias desenvolvidas fora da companhia, por meio de parcerias, investimentos e aquisições.
“Precisamos garantir que não seja apenas aquilo que é desenvolvido dentro da Corteva que tenha importância. Temos que ser independentes em relação à origem da tecnologia e trabalhar em conjunto para levar essas soluções às mãos dos produtores com mais rapidez”, afirmou Cunningham.
Químicos e biológicos
A integração entre defensivos químicos e produtos biológicos está entre as frentes da nova estratégia. Tiago Gontijo, que comandará as operações da Corteva no Brasil e no Paraguai, afirmou que as características da agricultura brasileira aumentam a necessidade de diferentes ferramentas de manejo.
“A pressão que a gente tem de doenças, de pragas, de plantas daninhas, ao mesmo tempo que ela nos dá o nosso clima, nos dá essa vocação para cultivar duas safras e em alguns lugares até três. Ele traz uma complexidade extra, para a gente conseguir manejar isso no dia a dia”, afirmou na coletiva.

Tiago Gontijo. Foto: Giovanni Porfírio.
Para Gontijo, a utilização de produtos químicos e biológicos deve ocorrer de forma combinada, de acordo com as necessidades do sistema produtivo.
“Ele não pode escolher nem pode abrir mão de escolher entre biológico ou químico. Ele precisa combinar para extrair o que há de melhor em termos de performance, em termos de segurança das tecnologias”, disse.
Parcerias e novas tecnologias
A estratégia de inovação inclui tecnologias desenvolvidas por outras empresas. A Corteva mantém parcerias e investimentos em companhias de diferentes áreas para ampliar o acesso a soluções.
Felipe Daltro, que assume a presidência da Corteva para a América Latina, citou investimentos em empresas de biotecnologia e tecnologias de edição gênica.
“Então, muitas vezes, eu olho muito para o pipeline que a Corteva tem como um dos seus produtos, mas também pelo que está acontecendo no entorno disso”, afirmou.

Felipe Daltro. Foto: Giovanni Porfírio.
Segundo Daltro, a nova estrutura da companhia deve permitir uma alocação de recursos voltada à aceleração da inovação.
“Não tem mais uma ferramenta ou uma solução que serve para tudo, num país continental como esse, e nem em cada hectare da propriedade”, afirmou.
A avaliação considera as diferenças entre regiões, sistemas de produção e perfis de produtores. Para o executivo, a atuação da empresa precisa considerar essas características no desenvolvimento e na aplicação das tecnologias.
Crédito também entra na estratégia
Além da inovação tecnológica, a Corteva pretende ampliar a oferta de ferramentas financeiras aos produtores.
“Precisamos buscar de forma constante novas ferramentas financeiras, principalmente em um cenário de juros de 13,75% e acesso restrito ao crédito. Também precisamos fazer a nossa parte nesse sentido”, afirmou.
Gontijo também citou juros, financiamento e acesso ao crédito como fatores que aumentam a complexidade da atividade agrícola no Brasil. Segundo ele, a proximidade com os produtores deve permitir à Corteva ampliar a oferta de serviços.
Estratégia para a América Latina
Daltro afirmou que a experiência desenvolvida pela Corteva no Brasil será utilizada na estratégia da empresa para outros mercados da América Latina.
O executivo citou países como México, Argentina, Paraguai, Colômbia, Costa Rica e Chile, que possuem sistemas agrícolas e condições de produção diferentes.
“Isso permite muito a gente pegar o conhecimento que existe no Brasil, e dar essa vida a essa agricultura tropical, sustentável, que tem larga escala, média escala, pequena escala, uma variedade incrível, só para você ter uma ideia, mas como um laboratório, para a gente criar ideias, transformar isso num case e escalar esses cases”, afirmou.
Para Daltro, a atuação conjunta entre empresas, produtores e outros integrantes da cadeia também será necessária para enfrentar problemas que não podem ser resolvidos por um único participante do setor.
“Isso exige diminuir um pouco do ego, mas exige ter um pouco mais de conexão”, disse.

Coletiva Corteva durante o GAFFF 2026. Foto: Giovanni Porfírio.
Desenvolvimento exige investimento
Cunningham também destacou o tempo e os recursos necessários para levar novas moléculas de proteção de cultivos ao mercado.
“Todos os dias, como uma empresa do setor químico, lidamos com processos que exigem cerca de US$ 300 milhões e aproximadamente 13 anos para levar uma nova molécula de proteção de cultivos ao mercado”, afirmou.
Segundo a executiva, os investimentos envolvem pesquisa, desenvolvimento e processos regulatórios para garantir a segurança e a eficácia dos produtos.
A Corteva informou que, entre 2020 e 2025, o negócio de proteção de cultivos aumentou a receita em mais de US$ 1 bilhão e ampliou a margem de EBITDA operacional em cerca de 250 pontos-base.
As tecnologias diferenciadas representam cerca de 65% das vendas da empresa. A companhia conta com cerca de 9 mil colaboradores e atende produtores em aproximadamente 110 países.
Para Cunningham, acelerar a inovação é necessário para responder aos desafios enfrentados pelos produtores, incluindo o avanço da resistência a herbicidas.
“Precisamos desse novo tipo de inovação para ajudar os produtores a enfrentar os desafios com os quais estão lidando”, afirmou.

