Pesquisa em Goiás aposta no controle cultural para frear resistência de plantas daninhas a herbicidas

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Pesquisa em Goiás aposta no controle cultural para frear resistência de plantas daninhas a herbicidas

O avanço da resistência de plantas daninhas aos herbicidas desafia a agricultura brasileira e expõe a necessidade de novas estratégias. Em Goiás, pesquisa da Universidade de Rio Verde, com apoio da FAPEG e CNPq, aposta na consorciação de culturas e no controle cultural como caminho para reduzir a dependência química e tornar o manejo mais sustentável no campo

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Um projeto de pesquisa desenvolvido no Sudoeste de Goiás busca enfrentar um dos principais desafios da agricultura moderna: o avanço da resistência de plantas daninhas aos herbicidas. Intitulado “Controle cultural de plantas daninhas para redução da pressão de seleção de resistência a herbicidas”, o estudo é conduzido pelo pesquisador Guilherme Braga Pereira Braz, professor da Universidade de Rio Verde (UniRV), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para o pesquisador, o papel da ciência brasileira será decisivo nos próximos anos. “Estamos lidando com uma questão diretamente ligada à segurança alimentar. Precisamos diversificar as estratégias de controle para garantir a sustentabilidade da produção”. Braz destaca ser fundamental a participação e o apoio de universidades, instituições de pesquisa e de agências de fomento para enfrentar o desafio que tem sido ocasionado pela existência de plantas daninhas com resistência a herbicidas.

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A iniciativa integra um acordo de cooperação técnica entre as duas instituições (FAPEG/CNPq) de fomento e tem vigência até abril de 2029. O projeto foi contemplado em Chamada Pública que concede bolsas de produtividade a pesquisadores com destaque científico.

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Um problema crescente no campo

O pano de fundo da pesquisa é preocupante. Dados recentes de um estudo conduzido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com a UniRV teve como foco o mapeamento do mercado de herbicidas no Brasil e como a resistência ao glifosato impacta em termos de aumento da intensidade de uso desta classe de defensivos agrícolas. Os dados obtidos mostram que o uso de herbicidas no Brasil cresceu 128% entre 2010 e 2020, saltando de 157.500 para 329.700 toneladas por ano, muito acima da expansão da área agrícola no período. O aumento do consumo está diretamente ligado à perda de eficácia de moléculas amplamente utilizadas, como o glifosato, o herbicida mais utilizado no Brasil, e do uso intensivo de outras soluções químicas concomitante, e ao surgimento de plantas daninhas resistentes.

Guilherme Braz participou deste estudo em parceria com a Embrapa Meio Ambiente. Ele destaca que para enfrentar o problema, os agricultores têm procurado fazer o controle químico como principal solução, complementando o uso do glifosato com outras moléculas químicas nos pulverizadores para compensar a perda da eficácia ou até mesmo, aumentando o número de aplicações nas lavouras, o que tem aumentado, ainda mais, a pressão de seleção para o surgimento de espécies resistentes, além de aumentar os custos de produção e os riscos ao meio ambiente e à saúde humana.

Segundo o estudo, historicamente, a consolidação do glifosato como base para o controle de plantas daninhas no Brasil está associada a dois marcos principais: a adoção do sistema de plantio direto na década de 1990 e o lançamento, a partir dos anos 2000, de cultivares transgênicas tolerantes ao herbicida. Embora essa tecnologia tenha simplificado o manejo, criou-se um paradoxo, como destaca o pesquisador Guilherme Braz, da UniRV: o uso contínuo e recorrente do mesmo produto intensificou a pressão de seleção sobre as espécies-alvo, favorecendo o surgimento de plantas daninhas resistentes. Diversos estudos corroboram que o uso prolongado e repetitivo de um único herbicida é o principal fator responsável por esse processo.

Prosseguindo os estudos

Atualmente, Guilherme Braz dá continuidade a esse campo de pesquisa com o projeto intitulado “Controle cultural de plantas daninhas para redução da pressão de seleção de resistência a herbicidas”, que recebe fomento da FAPEG e CNPq, como bolsista de produtividade em pesquisa estadual (PQ/DT – Nível C), fruto de um acordo de cooperação técnica FAPEG/CNPq. Guilherme Braz é professor da Faculdade de Agronomia e docente permanente do Programa de Pós-graduação em Produção Vegetal, da Universidade de Rio Verde (UniRV), campus Rio Verde. Sua área de atuação principal está vinculada à proteção de plantas, mais especificamente na área de Ciência das Plantas Daninhas.

Braz comenta que, esse cenário evidencia a necessidade de mudança: “Se continuarmos dependentes exclusivamente do controle químico, a tendência é de agravamento do problema”. Ele explica que, o principal objetivo de sua pesquisa é compreender como a inserção de culturas de cobertura pode auxiliar no controle de plantas daninhas e por meio desta prática, buscar atuar na redução da pressão de seleção para resistência a herbicidas nas diferentes espécies de plantas daninhas. Segundo ele, a ideia do projeto surgiu por meio da observação de que no contexto agrícola atual, o principal método de manejo utilizado para controlar as plantas daninhas refere-se à aplicação de herbicidas.

Apesar da importância dos defensivos agrícolas para a produção agrícola em larga escala, ele aponta que o uso exclusivo do método de controle químico pode trazer alguns desafios, dentre os quais cita a seleção de populações de plantas daninhas resistentes. “A lacuna que a pesquisa pretende preencher refere-se à mudança de visão em termos de adoção de manejo integrado de plantas daninhas, visando à redução da dependência do controle químico, buscando medidas mais sustentáveis de manejo, como o uso de plantas de cobertura”.

Infestação de capim-pé-de-galinha resistente ao glifosato na cultura da soja. Foto: Guilherme Braz

Os estudos terão foco nos consórcios direcionados ao bioma Cerrado com a utilização de uma cultura de interesse econômico (milho, sorgo ou milheto) em consórcio com a braquiária (capim). Estas espécies demonstram maior potencial, pois apresentam uma maior adaptabilidade às condições de cultivo (clima e solo) inerentes ao Estado de Goiás. Espécies de plantas daninhas como capim-amargoso, buva, capim-pé-de-galinha e caruru-roxo já apresentam resistência em diversas regiões produtoras em Goiás, elevando custos, ampliando o uso de químicos e aumentando riscos ambientais. O foco do projeto é o chamado controle cultural de plantas daninhas, prática que envolve o uso de estratégias agrícolas que favorecem a cultura principal na competição com espécies invasoras.

Guilherme Braz explica que, os resultados que serão produzidos no projeto em Goiás terão aplicabilidade em outras regiões geográficas do país, sendo necessários apenas ajustes fitotécnicos para as variações edafoclimáticas existentes entre as regiões.

O controle cultural de plantas daninhas consiste na adoção de práticas de manejo que favoreçam a cultura no processo de competição com as plantas daninhas e apresenta sustentabilidade em comparação com outros métodos de controle (ex.: controle mecânico ou químico), traz benefícios para o ambiente de produção (melhorias do solo e manejo de nematoides), além de apresentar baixo custo de execução, se comparado com outras medidas de manejo das plantas daninhas, explica.

Na prática, o estudo vai avaliar o consórcio entre milho e gramíneas forrageiras (como braquiárias), sistema já adotado por produtores, mas ainda pouco explorado sob a ótica do controle direto de plantas daninhas. Esse modelo vai atuar de três formas principais: ocupação do solo, reduzindo espaço para invasoras; liberação de compostos alelopáticos que inibem o crescimento de outras plantas; formação de palhada, funcionando como barreira física à germinação das plantas daninhas. “O controle cultural deve ganhar mais espaço e destaque por ser mais sustentável, melhorar a qualidade do solo e reduzir custos quando comparado a métodos exclusivamente químicos”, explica o pesquisador.

Metodologia em campo

Os experimentos estão sendo conduzidos em Rio Verde, principal polo agrícola de Goiás, em áreas representativas das condições reais de produção. A pesquisa inclui testes com diferentes espécies de gramíneas consorciadas ao milho; avaliação do impacto na produtividade do milho e da soja cultivada em sucessão; monitoramento da comunidade de plantas daninhas, com e sem interferência direta. Além disso, áreas comerciais serão analisadas para comparar sistemas consorciados e monocultivos, permitindo mensurar, na prática, os efeitos do manejo cultural.

Impacto esperado

O projeto pretende gerar conhecimento técnico para orientar produtores na adoção de sistemas mais eficientes e sustentáveis. Entre os resultados esperados estão a redução da infestação de plantas daninhas; menor dependência de herbicidas; aumento da sustentabilidade econômica e ambiental; melhoria no desempenho agronômico das culturas.

A proposta não elimina o uso de herbicidas, mas defende sua integração com outras práticas. “O controle cultural não substitui o químico, mas pode reduzir a pressão de seleção que leva à resistência”, destaca Braz. “A ideia central, desde que validada a possibilidade de uso das plantas de cobertura como fator para o controle cultural de plantas daninhas, é de demonstrar para os produtores, por meio de ações de extensão, que há outras formas de se proceder ao controle da comunidade infestante além do uso exclusivo de herbicidas. Neste cenário, a ideia é de traçar programas de manejo integrado de plantas daninhas que englobem os diferentes métodos de controle destas espécies e desta forma, buscar uma maior sustentabilidade econômica e ambiental”.

Ciência e políticas públicas

Além das contribuições científicas, o estudo pode influenciar políticas agrícolas, aponta o pesquisador. Caso os resultados confirmem os benefícios do sistema, há potencial para criação de incentivos a produtores que adotem práticas de manejo integrado, com menor uso de insumos químicos.

Um novo caminho para o manejo

O projeto surge como resposta a um modelo que, embora eficiente no passado, mostra sinais de esgotamento. Ao propor uma abordagem integrada, baseada em conhecimento científico e práticas sustentáveis, a pesquisa aponta para um futuro em que produtividade e preservação ambiental caminhem lado a lado. A mensagem final do pesquisador aos produtores é clara: antecipar-se ao problema pode ser mais eficaz do que reagir a ele.

 

Preparativos para instalação do experimento

com práticas de diversificação de culturas.

Foto: Guilherme Braz

 

 

 

 

 

 

Infestações de capim-pé-de-galinha

e caruru: um desafio amplamente disseminado

das áreas de produção de soja em Goiás.

Foto: Guilherme Braz

 

 

 

 

 

Cultivo de milheto consorciado com

braquiária para produção de palhada visando

ao controle cultural de plantas daninhas.

Foto: Gabriel Roque

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