Pesca esportiva incentiva criação comercial de lambari para isca viva

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Pesca esportiva incentiva criação comercial de lambari para isca viva

Quem já pescou pelo menos uma vez na vida, certamente pegou um lambari, peixinho que remete à infância ou à primeira pescaria. Muito comum na pesca extrativa, seu maior volume de produção vem da criação em cativeiros para servir como isca viva para peixes maiores.

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O lambari não é apenas um tipo de peixe pequeno, mas sim o nome popular para mais de 80 espécies da família dos characidae, nativas dos rios da América do Sul. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a lambaricultura representa menos de 1% da piscicultura brasileira, mas Fábio Sussel, zootecnista do Instituto da Pesca de São Paulo, afirma que a atividade é muito rentável e cresce de 5% a 8% ao ano, impulsionada pelo aumento da pesca esportiva.

Jomar Delefrate, o maior produtor de lambaris do país, era criador de pacu, tilápia e outros peixes em sua fazenda em Buritizal (SP), quando percebeu duas coisas: cresciam muitos lambaris espontaneamente nos tanques e os peixinhos estavam sendo cada vez mais demandados na região como iscas vivas para a pesca do tucunaré.

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“Na década de 1990, comecei a migração para a criação comercial de lambaris. Hoje, crio exclusivamente lambaris em 12 fazendas integradas em Buritizal, com um produção anual de pelo menos 20 milhões de unidades, que são comercializadas como iscas vivas para a pesca desportiva em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.”

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Jomar Delefrate e o filho Thiago nos tanques de criação de lambari — Foto: Arquivo pessoal
Jomar Delefrate e o filho Thiago nos tanques de criação de lambari — Foto: Arquivo pessoal

Em 2017, o produtor construiu um frigorífico para processar o lambari e usou uma máquina desenvolvida por Sussel para eviscerar o peixinho, visando a venda para o consumo, mas fechou a indústria após dois anos e meio. Jomar diz que descobriu que sua expertise era mesmo a criação da isca viva. O prédio foi, então, desativado e todos os equipamentos foram vendidos para um frigorífico de Goiás.

Jomar faz a reprodução induzida dos lambaris em laboratório. Os embriões vão para a recria no berçário e depois os peixinhos seguem para a engorda nos tanques escavados. Em sua fazenda, ele mantém 42 tanques, mas no total administra 170 tanques com os parceiros.

“Meus parceiros cederam os tanques que estavam desativados em suas fazendas, onde criavam peixes grandes. Muitos sofreram perdas com furtos e desistiram do negócio. Já o lambari não tem esse problema. Ninguém quer limpar o peixinho. Em 30 anos, nunca tive furtos.”

Segundo ele, a rentabilidade atual do negócio é de 35%, mas foi bem maior até 2015, quando o lambari perdeu para os peixes de aquário o status de maior rentabilidade da piscicultura.

A isca viva sai das fazendas com peso entre 15 e 30 gramas, mas ele comercializa também alevinos para recriadores. Jomar, que trabalha junto com o filho Thiago, engenheiro agrônomo especializado na produção de peixes, se encarrega do transporte para os revendedores e pousadas. Na entressafra, eles também compram lambaris de outros produtores para atender à demanda.

Ele aponta como um dos gargalos da lambaricultura (atividade reconhecida como sustentável pela Secretaria de Agricultura de São Paulo em 2014) a mão-de-obra, que precisa de muito treinamento para trabalhar no trato e, principalmente, na despesca e transporte porque o peixinho tem que chegar bem vivo ao cliente.

Criação na represa

 

O mineiro Rian Gabriel Alves de Souza, 22 anos, começou a criar lambari há seis anos de forma artesanal como uma alternativa ao trabalho com o pai em um provedor de internet. Há dois anos, ele conseguiu capital e um sócio para investir e se tornar profissional na criação de lambaris.

“Escolhi o lambari porque é um peixe que não precisa de muito investimento e dá uma margem de lucro disparada na comparação com os outros”, diz Rian.

 

Ele investiu R$ 150 mil na compra de matrizes e instalação de tanques escavados para abrigar as larvas até os 30 dias. A engorda é feita em tanques redes na represa de Três Marias em Morada Nova de Minas (MG), cidade que lidera o ranking do IBGE de produção de tilápia do Brasil.

Rian Gabriel Alves de Souza, de 22 anos, investiu R$ 150 mil na criação de lambaris — Foto: Arquivo pessoal
Rian Gabriel Alves de Souza, de 22 anos, investiu R$ 150 mil na criação de lambaris — Foto: Arquivo pessoal

“Antes eu era um aventureiro. Busquei orientação com o pesquisador Sussel, passei a fazer a reprodução induzida e seguir os protocolos para a criação e engorda. Já cheguei a produzir 120 mil lambaris em um mês, mas a média é de 50 a 60 mil”, diz o produtor, que também se encarrega do transporte e vende a isca viva na sua região para pousadas e atravessadores.

Rian tem um custo de produção de R$ 0,10 a R$ 0,15 por peixe e repassa a isca viva por R$ 0,50 no tamanho aproximado de 7 a 8 cm. Ele afirma que a qualidade de água no tanque rede é muito boa, o que facilita a engorda, mas vê como desafios a reprodução em cativeiro, a falta de mais tecnologia e o reconhecimento como produtor.

“Ninguém te leva a sério quando você diz que é criador de lambari”, comenta Rian.

 

O plano de Rian é aumentar a criação de lambari em quatro vezes com instalação de novos tanques ainda neste ano e também entrar na engorda de tilápias.

Quem já cria tilápia e outros peixes, como carpas e pacu, mas também aposta no lambari, é o paulista Anderson Franco Pereira Pinto, de Sete Barras (SP), no Vale do Ribeira. O peixinho representa atualmente 10% do seu negócio.

O cultivo do lambari na fazenda, com assistência do Senar, acontece de agosto a março, quando a produção atinge de 1 a 2 milhões de unidades. A maioria é repassada como alevinos a partir de 2 cm para revendedores que fazem a engorda. Outra parte é engordada na própria fazenda e vendida como isca viva.

Lambaris de Anderson Franco Pereira Pinto — Foto: Arquivo pessoal
Lambaris de Anderson Franco Pereira Pinto — Foto: Arquivo pessoal

Grande solução

 

O zootecnista Sussel, que trabalha na pesquisa com lambaris há mais de 20 anos, diz que, para alguns piscicultores, os peixinhos são considerados um problema, uma espécie invasora, quando aparecem nos tanques de tilápias e dos grandes peixes. Os ovos são levados nas pernas de aves como as garças e também chegam por meio da água que abastece os tanques.

“Mas o lambari não é um problema e sim uma solução. Oferece uma grande oportunidade de renda para o produtor porque não demanda grande estrutura para criação, mas a produção comercial exige muito profissionalismo, com uso de técnicas e protocolos.”

Para ser rentável, o piscicultor precisa investir em laboratório para a reprodução induzida com hipófise, hormônio extraído de carpas que também é usado na reprodução dos peixes maiores. A aplicação nas matrizes fêmeas dos lambaris, que são bem maiores que os machos, visa estimular a liberação de óvulos e nos machos incentiva a liberação do esperma.

Comida de pinguim

 

Camila Fernandes Costa, pesquisadora de aquicultura na Apta Regional em Pariquera-Açu (SP), no Vale do Ribeira, coordena atualmente uma pesquisa de reprodução dos lambaris juvenis de rabo amarelo, que visa comparar as taxas de reprodução induzida, geralmente bem maiores, com a natural.

Após a reprodução, as larvas ficam cerca de dez dias no viveiro até se tornarem juvenis, ou seja, ganharem nadadeiras e coloração. O ciclo de produção do lambari adulto é de 3 a 4 meses no verão, dependendo das condições ambientais, temperatura, qualidade da água e nutrição. O peixinho é bastante resistente ao clima, mas sua taxa de crescimento cai no inverno.

Camila diz que, além de ser comercializado como isca viva para a pesca esportiva, o lambari também vira comida dos peixes grandes de aquário, tem mercado na culinária e é usado ainda para enriquecimento ambiental. Em Cananéia (SP), por exemplo, é oferecido aos pinguins migrantes que chegam à costa brasileira como exercício de caça.

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