A sucessão de extremos climáticos tem colocado à prova a capacidade de adaptação dos agricultores brasileiros. Desde a safra 2020/21, o país enfrentou cinco ciclos de La Niña e um de El Niño, fenômenos que provocaram secas severas, excesso de chuvas e oscilações na produtividade. Em um cenário marcado por seguros rurais caros, cobertura limitada e preços menos favoráveis para os grãos, produtores passaram a buscar alternativas dentro da porteira para reduzir riscos e aumentar a resiliência das lavouras.

Produtor rural de Brasilândia do Sul, no Noroeste do Paraná, Agnaldo Leite adotou o cultivo de milho consorciado com crotalária e braquiária para aumentar a cobertura do solo e reduzir os impactos dos períodos de estiagem na propriedade
Foi esse o caminho adotado por Agnaldo Leite, produtor rural de Brasilândia do Sul, no Noroeste do Paraná. Em uma propriedade de aproximadamente 275 hectares, ele investiu em práticas de conservação do solo e agricultura de precisão para enfrentar uma das principais limitações da região: a baixa capacidade de retenção de água.
A área apresenta solos com teores de argila entre 25% e 50%, característica que dificulta o armazenamento de umidade durante períodos de estiagem. Para minimizar esse problema, Leite passou a cultivar milho safrinha consorciado com crotalária ou braquiária a partir de 2018.
As plantas de cobertura são semeadas ainda durante o desenvolvimento do milho e permanecem na área após a colheita, formando uma camada de palhada sobre o solo. Essa cobertura protege a superfície contra a incidência direta do sol, reduz a evaporação de água e contribui para manter a umidade disponível para a cultura seguinte, a soja.
Além do efeito sobre a conservação hídrica, a estratégia amplia a janela de plantio e melhora as condições de desenvolvimento da lavoura em anos de menor regularidade climática.
O engenheiro agrônomo da C.Vale, Mateus Delai, responsável pela assistência técnica da propriedade, destaca que a crotalária também oferece benefícios agronômicos adicionais.
Segundo ele, a espécie auxilia no manejo de nematoides e atua na reciclagem de nutrientes, especialmente fósforo e potássio, contribuindo para elevar a fertilidade do solo e reduzir perdas desses elementos ao longo do ciclo produtivo.

Com apoio da agricultura de precisão e do uso de plantas de cobertura, Agnaldo Leite recuperou a fertilidade de áreas que antes apresentavam limitações para a produção de grão
Solo recuperado
A adoção de plantas de cobertura foi apenas uma das mudanças implementadas na propriedade. O produtor também investiu em agricultura de precisão em toda a área cultivada.

O engenheiro agrônomo da C.Vale, Mateus Delai, e o produtor Agnaldo Leite acompanham estratégias de manejo que combinam cobertura vegetal, reciclagem de nutrientes e adubação em taxa variável para aumentar a eficiência da lavoura
Com base em análises detalhadas de solo, a adubação passou a ser realizada em taxa variável, permitindo aplicar fertilizantes de acordo com a necessidade específica de cada talhão. A tecnologia evita excessos, corrige deficiências localizadas e aumenta a eficiência do uso dos insumos.
Os resultados aparecem tanto nos indicadores produtivos quanto na qualidade do solo. “Eu brinco com meus amigos dizendo que, se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, eu não compraria essas terras. Era um solo muito pobre, destruído. Hoje é um solo muito lindo. O fator que limita a minha produtividade não é mais solo, é chuva”, afirma Agnaldo Leite.
Segundo o produtor, a combinação entre cobertura permanente do solo, reciclagem de nutrientes e manejo localizado da fertilidade trouxe maior estabilidade para as lavouras de soja e milho, reduzindo a vulnerabilidade da produção diante das oscilações climáticas que têm marcado as últimas safras.

