No Sul, arroz fica mais sustentável e produtividade é duplicada

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No Sul, arroz fica mais sustentável e produtividade é duplicada

A mitigação das emissões de metano nos plantios irrigados de arroz exige uma combinação de técnicas que têm avançado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, que respondem por quase 79% da produção brasileira do grão. “São várias estratégias que podemos ir combinando em busca de soluções que não colocam o produtor sob risco de perda de produtividade”, resume a pesquisadora Walkyria Scivittaro, da Embrapa Clima Temperado, referindo-se especificamente às terras gaúchas.

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Segundo ela, 90% das emissões do arroz ocorrem nos solos irrigados, a partir da atuação de microrganismos na decomposição da matéria orgânica. As práticas de mitigação buscam minimizar esse processo. “A principal estratégia tem sido evitar que o solo fique alagado por tempo além do desejável, com redução do período de irrigação ou diminuição da lâmina d’água”, aponta Scivittaro. Essas soluções precisam ser balanceadas porque a irrigação, que ocorre no Rio Grande do Sul em regime de inundação contínua, predominantemente em áreas de terra baixa, traz benefícios, ajudando no controle físico de plantas daninhas e pragas, além de favorecer o potencial produtivo da planta.

 

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A adoção de sistemas de irrigação por “sulcos camalhão” ou com uso de aspersão, acrescenta ela, tem surgido como alternativa, mas há outros caminhos, como a aplicação do preparo antecipado do solo, prática adotada por 60% a 70% dos rizicultores gaúchos. Nesse caso, o produtor drena a água logo após a colheita e incorpora toda a matéria orgânica remanescente ainda no outono, período mais seco, conseguindo aproveitar integralmente a janela ideal de plantio na primavera seguinte.

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Em geral, considerando dados mais genéricos, observa a pesquisadora, o manejo da água com aspersão pode mitigar até 95% das emissões, mas a prática exige áreas mais planas e não se aplica a todas as regiões de cultivo. As técnicas de irrigação por sulcos e de preparo antecipado trariam ganhos entre 25% e 30%. Os plantios rotacionados de arroz, soja ou milho, acrescenta a pesquisadora, permitiriam mitigar um quinto das emissões.

Em outra rota, a Embrapa Clima Temperado trabalha há sete anos na pesquisa e desenvolvimento de variedades de arroz que combinem produtividade, sanidade, qualidade de grão e baixo potencial de emissões. “As sementes com potencial produtivo mais elevado em geral emitem menos gases do efeito estufa”, observa Scivittaro.

Lançado em janeiro pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), o projeto Sistema Arroz RS14 pretende construir, juntamente com produtores, caminhos para elevar a produtividade da orizicultura estadual para 14 mil kg/hectare, apostando em boas práticas culturais e de manejo sustentáveis, afirma Luiz Fernando Siqueira, gerente da Divisão de Assistência Técnica e Extensão Rural (Dater) do instituto. A ser confirmar a meta, a produtividade poderá crescer em quase 55%, considerando a colheita de 9,044 mil kg/ha na média gaúcha durante a safra 2024/25. “A sigla RS diz respeito a resiliência e sustentabilidade”, diz Siqueira.

 

O projeto combina o plantio rotacionado de arroz, soja e milho, na safra de verão, com o de forrageiras no inverno, quando tradicionalmente as áreas de lavoura estão vazias, associado ainda à exploração da pecuária. Atualmente, detalha Siqueira, três dezenas de áreas participam do projeto, gerando dados e informações que serão compiladas e sistematizadas de forma a contribuir para o aprimoramento do manejo, o que deve se traduzir em redução de emissões, especialmente de metano.

O projeto consolida quase uma década de estudos com sistemas sustentáveis de produção desenvolvidos pela estação de pesquisas do Irga em Uruguaiana (RS). No ano passado, aponta Siqueira, a equipe de extensão do instituto passou por treinamento intensivo, segundo os protocolos definidos para a implantação do novo projeto, que prevê ainda plantio direto e antecipação da irrigação já na fase de emergência da primeira folha das plantas de arroz, o que favorece o desenvolvimento da cultura.

Uma das propriedades que já adotam há dez safras formato semelhante de manejo, situada na região central do Estado, conseguiu mais do que dobrar sua produtividade, partindo de 5,9 mil kg/ha no ciclo 2013/14 para 12,685 mil kg/ha na média das últimos cinco safras, segundo Siqueira. O avanço foi ainda mais relevante quando considerada a produtividade média das últimas duas safras, em 13,685 mil kg/ha.

 

A partir da década de 1990, lembra o pesquisador, produtores gaúchos de arroz passaram a adotar práticas de cultivo mínimo, que reduzem o revolvimento dos solos, também gerando menos emissões. As estimativas sugerem que 70% dos quase 9 mil produtores no Estado adotem essa prática.

A aplicação do manejo antecipado da palhada, a exemplo do que ocorre no Rio Grande do Sul, e mudanças no manejo da irrigação dos cultivos de arroz em Santa Catarina têm contribuído para mitigar emissões e a pesquisa, entre outras frentes, tem se ocupado do desenvolvimento de sistemas para mensurar os impactos mitigadores associados a práticas conservacionistas. A ideia é criar um formato de medição, verificação e reporte dos volumes de emissões mitigadas de forma a permitir que os produtores tenham acesso a linhas de crédito favorecidas, no âmbito do Plano ABC, e futuramente possam participar do mercado de crédito de carbono e de programas de remuneração por serviços ambientais, descreve Marcos do Vale, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

Entre outras práticas, Vale destaca o manejo antecipado da palha, com uso do rolo-faca, que permite “amassar e acamar” os resíduos da lavoura, incorporando-os ao solo já no momento seguinte da colheita. Há dois anos, o governo estadual passou a subsidiar metade do custo do implemento para os produtores, o que permitiu elevar para 70% o contingente que adota a prática em todo o Estado, de um total de 5 mil famílias dedicadas ao cultivo de arroz.

 

Fonte: Valor Econômico No Sul

 

Foto: Bing

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