Irã afirma que cobrará taxas dos navios que cruzarem Ormuz após os 60 dias previstos no acordo preliminar com os EUA

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Irã afirma que cobrará taxas dos navios que cruzarem Ormuz após os 60 dias previstos no acordo preliminar com os EUA

O Irã afirmou nesta quarta-feira que passará a cobrar taxas dos navios que cruzarem o Estreito de Ormuz após um período inicial de 60 dias sem cobrança, previsto no acordo preliminar firmado com os Estados Unidos para encerrar a guerra no Oriente Médio. A informação foi divulgada pelo principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. Segundo ele, o pagamento pelos serviços de passagem foi incluído no memorando de entendimento entre os dois países. Qalibaf também considerou que o acordo, que deve ser assinado na sexta-feira na Suíça, representa uma “derrota” para Washington.

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— Este acordo representa um fracasso para os Estados Unidos. As pessoas irão tomar conhecimento dele e tirar suas próprias conclusões — disse Qalibaf à televisão estatal na noite de quarta-feira, pouco depois da publicação do texto por ambas as partes.

Qalibaf, que também é presidente do Parlamento iraniano, deverá comparecer à assinatura do protocolo do acordo com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, em uma cerimônia agendada para sexta-feira perto da cidade suíça de Lucerna.

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Mas, segundo o Ministério das Relações Exteriores iraniano, Teerã avalia a possibilidade de o acordo ser assinado remotamente, antes de sexta-feira. “Até o momento, nossos planos para a reunião não mudaram” e, “quanto à assinatura do memorando de entendimento, uma das ideias é que ela seja realizada pelos presidentes de ambos os países”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei.

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Da cúpula do G7, na cidade francesa de Evian, o presidente dos EUA, Donald Trump, indicou que o texto seria assinado “em breve”, “talvez” na quinta-feira ou na sexta-feira. Ao ser perguntado se pretendia permanecer na Europa para a assinatura, Trump respondeu que “poderia” ficar, mas acrescentou: “não é o tipo de documento que eu deveria assinar”.

Cúpula do G7

Depois de obter o apoio unânime dos líderes do G7 ao memorando que pode pavimentar o fim da guerra, Trump, deixou à mostra suas inseguranças com a próxima fase do plano — as negociações diretas com o Irã — e ameaçou voltar a atacar o território iraniano se não houver avanços. O acerto preliminar estipula o fim dos combates e a retomada do tráfego no Golfo Pérsico, sem apresentar caminhos imediatos para temas espinhosos.

Em entrevista coletiva após a reunião do G7 em Évian, na França, Trump não poupou elogios ao memorando, divulgado na íntegra nesta quarta-feira, e disse que se ele não tivesse sido firmado, “poderíamos ter lançado mais bombas por mais três semanas, duas semanas, quatro semanas”, e que “nunca teríamos o Estreito de Ormuz aberto”.

— Os últimos dias proporcionaram uma oportunidade para discutir os detalhes do acordo com os amigos e aliados mais próximos, os chefes de Estado — disse, se referindo às discussões durante a cúpula do G7.

O republicano recebeu apoio irrestrito ao acerto com Teerã entre seus colegas do grupo que reúne sete das principais economias do planeta. No comunicado final, os líderes citam a “forte liderança do Presidente Trump”, e dizem estar diante de “uma oportunidade histórica para impedir que o Irã adquira qualquer arma nuclear e para lidar com as ameaças relacionadas às suas atividades regionais e balísticas”.

— Eles (demais líderes) adoraram este acordo — acrescentou na entrevista coletiva.

Mas Trump sabe que tem apenas uma promessa de acordo. Pelo plano, os dois lados se comprometem a negociar termos mais concisos ao longo de 60 dias, sem estabelecer em que condições. Em Évian, em uma demonstração aparente de insegurança em relação aos rumos das conversas, ele confirmou que pretende usar a força bruta como argumento.

— É um memorando de entendimento. Se não for resolvido em 60 dias, tudo bem, voltamos aos bombardeios — disse Trump, se referindo ao período previsto para as discussões sobre um acordo definitivo.

No começo do dia, ao lado do presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, havia dito que “se eu não gostar, se eles não se comportarem, voltaremos a lançar bombas bem no meio da cabeça deles”, e que “nunca permitirá que tenham uma arma nuclear”. Não houve reação imediata do governo iraniano.

— O que estou fazendo e o que fiz deveria ter sido feito anos atrás, teria sido muito mais fácil, exigiria muito menos poder de fogo, mas não foi — disse na entrevista coletiva, em mais uma demonstração pública de modéstia presidencial.

Enquanto os líderes do G7 estavam reunidos a portas fechadas, a imprensa americana divulgou o que seria o texto acertado no domingo. Os dois lados concordam em reabrir o Estreito de Ormuz, suspender o bloqueio aos portos iranianos e a interromper as hostilidades em todas as frentes, incluindo no Líbano. Em tese, um retorno ao status quo pré-guerra, mas na prática um tema politicamente sensível.

Israel, que não participou da elaboração do plano, ocupa cerca de 20% do território libanês, em meio uma ofensiva contra o Hezbollah, aliado do Irã. O premier Benjamin Netanyahu sofre grande pressão interna para não atender aos pedidos de trégua feitos por Trump, e foi criticado por aliados e rivais — um deles, o líder da oposição, Yair Lapid, disse que “Bibi” transformou Israel em um protetorado americano ao aceitar as ordens de Washington. Itamar Ben-Gvir, o radical ministro da Segurança Nacional, defende retomar os bombardeios a Beirute, uma linha vermelha para o Irã.

Trump tem explicitado seu desconforto com a ofensiva israelense e com o risco de que ela enterre o diálogo com o Irã.

— Eu os adoro como parceiros — disse ele sobre Israel. — Eles foram ótimos, mas poderiam fazer um trabalho muito melhor com o Hezbollah. Nesse aspecto, não acho que estejam se saindo bem.

O memorando ainda prevê um compromisso do Irã em nunca produzir armas atômicas, mas não o desmantelamento imediato de suas capacidades nucleares, em vitória para o regime. Os israelenses, assim como parte considerável do meio político americano, afirmam que o programa nuclear iraniano deve ser eliminado, citando violações no passado e pretensos planos para militarizá-lo. A promessa de Teerã, mesmo cravada no memorando, não os convence: afinal, jamais a República Islâmica confirmou que ter um arsenal atômico era um de seus objetivos.

Outro ponto é a ausência de menções aos mísseis balísticos, vistos por Israel e pelas monarquias árabes como ameaças à segurança nacional, tema que, segundo diplomatas, será discutido mais à frente, assim como o apoio iraniano a milícias na região. Trump não pareceu incomodado.

— O que eles estão escondendo? Eles têm menos [mísseis] do que outras nações agora. O resto está no subsolo. Eles nem conseguem tirá-los de lá. Vocês vão deixar esses 91 milhões de pessoas morrerem de fome? — disse aos jornalistas nesta quarta-feira, ignorando informações da inteligência americana sobre o arsenal de mísseis e drones aptos a uso imediato no Irã.

 

Segundo o texto, os EUA vão negociar, ao lado de parceiros regionais, um plano de recuperação e desenvolvimento econômico do Irã de US$ 300 bilhões, confirmando rumores divulgados ao longo da semana. Na manhã de quarta-feira, Trump negou que a iniciativa contaria com dinheiro americano, mas na entrevista coletiva confirmou que poderá descongelar dezenas de bilhões de dólares em fundos iranianos no exterior. No passado, ele criticou os governos democratas de Barack Obama e Joe Biden por desembolsos feitos a Teerã durante negociações.

— Nós pegamos o dinheiro deles — disse ele. — Não é nosso dinheiro. É o dinheiro deles e nós o congelamos. Em algum momento, acho que teremos que devolvê-lo.

Nesta quarta-feira, o porta-voz da Chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, afirmou que existe a possibilidade do memorando ser assinado por Trump e pelo presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, na Suíça. Uma imagem que seria o primeiro encontro entre os líderes dos dois países em 47 anos. A depender do rumo das negociações, influenciadas pela pressa do republicano em se livrar de uma guerra impopular e pela posição de força demonstrada por Teerã, uma hipotética foto com Pezeshkian poderia ser o único troféu da “Operação Fúria Épica” para incluir em sua galeria.

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