O cinturão citrícola brasileiro está se tornando um “mosaico”. A curiosa afirmação é de Dirceu Mattos Jr., diretor do Centro de Citricultura, vinculado ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O motivo da transformação é o greening, doença bacteriana sem cura que afeta os pomares cítricolas no cinturão produtivo no Estado de São Paulo e nas regiões do Triângulo e Sudoeste Mineiro.
Nos últimos anos, a enfermidade tem provocado uma “fuga” de produtores de laranja do cinturão para o Centro-Oeste, e um destaque na região é o Mato Grosso do Sul, que desponta como uma nova fronteira agrícola para os citros.
Atualmente, o Estado tem 34,6 mil hectares dedicados à citricultura, divididos em 26 mil hectares já implantados e 8,6 mil hectares em andamento. Em 2022, quando começaram os investimentos no Estado, eram 2,5 mil hectares, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc).
Por apresentar condições climáticas consideradas menos propícias à disseminação do greening, Mato Grosso do Sul passou a receber investimento de produtores e empresas naquele ano. Agora, o governo do Estado busca atrair mais produtores . Nesta semana, durante a 51 Expocitros, em Cordeirópolis (SP), um estande do governo sul-matogrossense “vendia” as vantagens de produzir laranja em suas terras.
Segundo Rogério Beretta, secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, o Estado tem condições que reduzem a velocidade de avanço do greening, como a baixa incidência de frio e temperaturas elevadas, sobretudo na região norte.
O pesquisador do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), Silvio Lopes, explica que as áreas de Mato Grosso do Sul são mais quentes e menos chuvosas que as do cinturão citrícola tradicional. Essas condições são menos propícias à ação do psilídeo, o inseto vetor da doença.
No estande de Mato Grosso do Sul na Expocitros, o secretário Beretta disse ainda que as plantações de eucalipto no Estado funcionam como uma barreira natural ao redor dos pomares contra o greening. Hoje, já atuam em áreas sul-matogrossenses empresas como as gigantes Cutrale e Citrosuco, Agro Cambuí e Agro Terena.
Um dos produtores pioneiros no cultivo de citros em Mato Grosso do Sul é Claudimilson Anatriello. Há 30 anos, Alemão, como é conhecido, começou a plantar laranja em Santa Fé do Sul (SP), e há 15 anos — antes de o greening se alastrar no cinturão citrícola — chegou a Aparecida do Taboado (MS) para aumentar o plantio. Ele também possui outra área em Carneirinho (MG). Nos três Estados, são 4.900 hectares de citros.
Para Anatriello, o Mato Grosso do Sul deve continuar a atrair produtores paulistas fugindo do greening, e é preciso adotar medidas de prevenção à doença. “Precisamos de mudas sadias. Plantas doentes têm que ser eliminadas o mais rápido possível, o dever de casa precisa ser feito para a doença não explodir, como aconteceu em São Paulo”, defendeu em conversa com o Valor.
Segundo o Fundecitrus, a incidência do greening no cinturão citrícola tradicional é de 47,63%, e não para de crescer. Entre 2015 e 2022, o crescimento anual da incidência ficou entre 1 e 2 pontos percentuais. De 2022 para 2023, o avanço foi de 13 pontos percentuais; de 2023 para 2024, de 6 pontos percentuais; e de 2024 para 2025, de 3 pontos percentuais.
Para o secretário Beretta, Mato Grosso do Sul se tornou a “nova fronteira citrícola brasileira”. Afora as condições climáticas, a logística é outro fator que favorece o cultivo de citros, segundo ele. Isso porque a região produtora está a cerca de 300 quilômetros das indústrias processadoras, no interior no São Paulo, uma distância menor que outros Estados do Centro-Oeste. “É uma distância curta para escoar a produção neste primeiro momento, mas mais adiante, queremos que a indústria avance para dentro do nosso Estado”, afirmou.
Na Expocitros, Dirceu Mattos, do Centro de Citricultura, disse que o avanço do plantio de laranja em Mato Grosso do Sul para novas áreas começou de forma estruturada, com altos investimentos, escolha de mudas sadias e material genético de qualidade. “Essas regiões devem representar novas áreas de produção nos próximos anos. Considerando os plantios realizados hoje, estamos falando de três a seis anos para atingir o auge produtivo”.
A despeito do crescimento em Mato Grosso Sul, o especialista avalia que o cinturão citrícola tradicional não perderá seu protagonismo. “Essas novas áreas devem compor novos arranjos produtivos e ganhar importância no futuro, mas convivendo com a força já consolidada do cinturão citrícola tradicional”, afirmou.
Em uma rápida passagem pela Expocitros, Geraldo Melo Filho, secretário de Agricultura e Abastecimento paulista, disse que o Estado de São Paulo trava uma “guerra de enfrentamento” com o greening, e que a curva de crescimento da doença foi quebrada.
Apesar do avanço dos plantios em outros Estados, Melo Filho afirmou que há medidas de incentivo para que os produtores continuem em São Paulo. “Há uma migração de produtores para dentro do próprio Estado, e vamos estimular o combate às doenças”, acrescentou.
O jornalista viajou a convite do Centro de Citricultura Sylvio Moreira

