A gratidão de alguns pacientes atendidos por Tiago Stanley Moreira Dias é demonstrada de uma forma bastante peculiar. Em vez de vinhos, chocolates ou outros presentes sofisticados, o médico costuma voltar para casa carregando hortaliças, frutas, queijos artesanais, pães caseiros, carne de porco, galinhas e ovos.
Os “mimos” são produzidos pelos moradores da zona rural de Brumadinho (MG) e conquistaram as redes sociais. Conhecida por abrigar o Instituto Inhotim, o maior museu a céu aberto da América Latina, a cidade mineira também foi onde o profissional especializado em ortopedia e emagrecimento construiu uma relação de confiança com a comunidade.
“Meus pacientes trazem de tudo. E são coisas que eles mesmo preparam e produzem. Tudo é feito por eles, e eu recebo com muito carinho. Teve um dia que eu recebi tantos, mas tantos, que chamou a atenção de todos. O primeiro vídeo que fez sucesso foi quando ganhei quatro queijos”, conta à Globo Rural.
A medicina faz parte da vida de Tiago há 10 anos. Natural de Teófilo Otoni (MG), mudou-se para Belo Horizonte para fazer residência médica e conciliar os atendimentos entre a Capital e os municípios do interior no início da carreira. Mas, com o tempo, percebeu que era justamente nas cidades menores que encontrava a realização profissional, principalmente, pelo vínculo com os pacientes e a simplicidade.
“Atender no interior é exercer o meu sonho de criança. Trato todos como velhos conhecidos, e eles me tratam com carinho e respeito. Meus filhos (são quatro) chamam os vizinhos de tio e tia e correm na rua. Até pão de queijo quentinho eu recebo no café da manhã. Eu era médico plantonista quando a lama destruiu milhares de vidas com o rompimento da barragem. Atendi muita gente naqueles dias. Depois da tragédia, senti que precisava vir pra cá de vez”.
Entre todos os presentes já recebidos, são as galinhas que despertam mais curiosidade. Algumas foram criadas pela família, enquanto outras acabaram divididas com parentes e amigos. Além disso, uma parte terminou na panela.
“Já ganhei muitas. E elas ganharam até nome: Brunevildes, Galateia, Zuína e Galila. Os meninos (os filhos) que escolheram. Sempre me dizem que é uma coisa simples, uma lembrança, mas é de coração. Da mesma forma que a medicina deve ser: de coração para coração”, diz.
Atualmente, o médico atende em um consultório particular de Brumadinho (MG) e também pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em municípios próximos. Segundo ele, é nessa rotina que pretende continuar nos próximos anos.
“Não saio mais do interior, não. Hoje, meu propósito é ensinar médicos mais jovens, recém-formados e estudantes que a medicina ainda é muito bonita e que apenas uma boa alma pode alcançar outra boa alma. Deus põe o desejo no coração de cada um. Isso não pode se apagar nunca. A vocação médica é algo bonito. Eu vou combater até onde puder a ideia de que a medicina acabou”, finaliza

