Financiamento sustentável ganha força no agronegócio

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Financiamento sustentável ganha força no agronegócio

A chamada “ressaca ESG” observada em parte do mercado financeiro internacional não freou o avanço do financiamento ao agronegócio sustentável brasileiro. Enquanto o debate perdeu força em alguns mercados, o capital continuou chegando por aqui. Desde sua criação, em 2024, o Programa Eco Invest Brasil já mobilizou mais de R$ 140 bilhões entre recursos públicos e privados, dos quais cerca de R$ 63 bilhões deverão ser provenientes de investidores internacionais. No Banco do Brasil, a carteira de crédito sustentável do agronegócio alcançou R$ 175,6 bilhões no primeiro trimestre deste ano, crescimento de 41% em relação a 2022. No Itaú BBA, a carteira ESG Agro chegou a R$ 7,3 bilhões, alta de 72% em apenas um ano.

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A continuidade desse movimento revela uma mudança mais profunda do que a simples expansão das linhas de crédito. “A sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental para ser uma resposta econômica e de gestão de risco”, afirma José Ricardo Sasseron, vice-presidente de negócios governo e sustentabilidade empresarial do Banco do Brasil. Em vez de um compromisso associado principalmente à agenda ambiental, práticas como recuperação de pastagens, agricultura regenerativa, sistemas integrados de produção, irrigação eficiente e bioinsumos são vistas também como instrumentos capazes de reduzir riscos climáticos e de elevar a produtividade. Ele considera que a maior frequência de secas, ondas de calor e irregularidade das chuvas elevou a procura por tecnologias que aumentem simultaneamente a resiliência e a eficiência.

A percepção da importância econômica das práticas sustentáveis foi se tornando clara ao longo da última década, impulsionada por políticas públicas como o Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC) e, posteriormente, o RenovAgro, principal linha do Plano Safra voltada à produção sustentável, além da evolução tecnológica e da crescente pressão dos mercados internacionais por rastreabilidade e redução das emissões. Para Leandro Gilio, pesquisador e professor do Insper Agro Global, o Brasil reúne uma vantagem competitiva rara nesse cenário. “Muitas das práticas capazes de aumentar a ecoeficiência da produção já existem e são utilizadas, mas ainda podem ser ampliadas”, afirma.

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Na carteira do BB, são R$ 175,6 bilhões destinados ao agro sustentável, sendo R$ 60,8 bilhões para agricultura de baixo carbono e R$ 70,5 bilhões para a agricultura familiar. As operações do RenovAgro, por sua vez, cresceram 50% entre 2022 e 2025.

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 — Foto: Arte/Valor
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A mesma leitura orienta os bancos privados. O Itaú BBA, em vez de apoiar apenas projetos específicos, passou a desenvolver soluções voltadas a sistemas produtivos completos, como recuperação produtiva de áreas degradadas e cultivos de cobertura, capazes de combinar ganhos ambientais com maior estabilidade econômica. “No agro, a agenda ESG está ancorada na economia real. Ela impacta diretamente produtividade, perenidade do negócio, risco e acesso a mercado”, afirma Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA.

A mudança na percepção sobre os investimentos sustentáveis foi acompanhada por uma transformação igualmente profunda nas fontes de financiamento do agronegócio. Se durante décadas o crédito rural subsidiado concentrou grande parte dos recursos destinados ao setor, a necessidade de ampliar os investimentos em adaptação climática e transição energética levou à construção de uma estrutura que combina recursos públicos e privados e mercado de capitais.

Um dos principais exemplos da nova estrutura mais diversificada é o Eco Invest Brasil, programa do governo federal coordenado pela Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda. Em vez de atuar como financiador direto, o programa utiliza recursos públicos para reduzir riscos cambiais, financeiros e operacionais, tornando projetos ligados à economia de baixo carbono mais atrativos ao capital privado. No segundo leilão, realizado em agosto de 2025 e voltado à recuperação de áreas degradadas, foram comprometidos R$ 30,2 bilhões com potencial para recuperar 1,4 milhão de hectares. Praticamente metade dos recursos deverá financiar projetos ligados à produção de alimentos e proteína animal, além de iniciativas em bioenergia e biocombustíveis.

Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o mercado de capitais ampliou rapidamente sua participação, oferecendo novas alternativas para produtores e empresas. Hoje, o financiamento via mercado de capitais já representa cerca de um terço do saldo do crédito rural brasileiro. As emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) somaram R$ 46,2 bilhões em 2025, crescimento de 83% sobre 2021. No mesmo período, os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) também se firmaram, enquanto as Cédulas de Produto Rural (CPR-Fs) ganharam espaço como instrumento de captação.

Itikawa, da Anbima: desafio  agora é aproximar investidores e produtores — Foto: Divulgação
Itikawa, da Anbima: desafio agora é aproximar investidores e produtores — Foto: Divulgação

Para Tatiana Itikawa, superintendente de representação de mercados da Anbima, o desafio agora é aproximar investidores e produtores: “É fundamental que o mercado conheça melhor a dinâmica do campo e que o produtor rural entenda as oportunidades e os instrumentos disponíveis no mercado de capitais. Essa ponte é o que permite estruturar soluções mais eficientes, alinhadas à realidade do setor”.

Na avaliação de Juliano Assunção, diretor-executivo do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), a necessidade de ampliar os investimentos de longo prazo em um cenário de maior restrição fiscal levou a uma mudança no papel do Estado: “O recurso público tem deixado de se concentrar na equalização de juros para promover a captação de recursos privados via mercado de capitais”. Para ele, essa transição amplia a capacidade de financiamento do setor, desde que preserve critérios ambientais e mecanismos de monitoramento capazes de garantir que os recursos continuem induzindo ganhos de produtividade, conservação e redução de emissões.

Outra mudança relevante é que, em vez de concentrar recursos apenas no custeio da produção, bancos e investidores passaram a direcionar capital para projetos capazes de elevar produtividade e, ao mesmo tempo, reduzir emissões e aumentar a resiliência climática das propriedades. Recuperação de pastagens degradadas, agricultura regenerativa, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), bioinsumos, biocombustíveis, bioenergia e captura de carbono aparecem entre as principais frentes de expansão. A tendência é que esses investimentos ganhem espaço à medida que tecnologias de monitoramento e mecanismos de remuneração por atributos ambientais avancem.

Na FS, uma das maiores produtoras brasileiras de etanol de milho, essa transformação já faz parte da estratégia de crescimento. A companhia passou a combinar emissões internacionais de bonds, operações de CRA, recursos do Eco Invest, Fundo Clima, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e linhas bancárias tradicionais para financiar sua expansão. Segundo Rafael Abud, CEO e cofundador da empresa, o interesse dos investidores acompanha o papel crescente do etanol na transição energética global. Além da mobilidade terrestre, o combustível amplia sua participação em segmentos como combustível sustentável de aviação (SAF), navegação, geração de energia e máquinas agrícolas. A empresa também iniciou a implantação do primeiro projeto de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) do hemisfério Sul, tecnologia considerada estratégica para a geração de emissões negativas. “Sustentabilidade não é um atributo da companhia. É o nosso negócio”, resume Abud.

Fernandes, do Itaú BBA: no agronegócio, a agenda ESG está ancorada na economia real — Foto: Divulgação
Fernandes, do Itaú BBA: no agronegócio, a agenda ESG está ancorada na economia real — Foto: Divulgação

Especialistas avaliam que os próximos desafios são operacionais. O RenovAgro mais do que dobrou de tamanho entre 2021 e 2025, mas sua participação no crédito rural passou de apenas 1,15% para 2,12% no período. Para Assunção, do CPI, o desafio está em criar condições para que os recursos cheguem de forma mais ampla e eficiente aos produtores. “A efetividade desse financiamento depende cada vez mais da capacidade de monitorar sua implementação”, diz. Um estudo do CPI sobre operações do antigo Programa ABC mostrou que quase três quartos das áreas financiadas para recuperação de pastagens mantiveram a mesma qualidade quatro anos após a contratação do crédito, evidenciando que disponibilizar recursos para práticas sustentáveis, por si só, não garante mudanças efetivas nos sistemas produtivos.

Na avaliação de Gilio, do Insper, é necessário combinar crédito, assistência técnica, garantias e apoio à estruturação dos projetos. Segundo ele, cooperativas, empresas-âncora e associações de produtores terão papel decisivo ao reduzir custos de transação e ampliar o acesso dos pequenos e médios produtores às novas fontes de financiamento para o agro sustentável. “Agora é hora de transformar essas vantagens ambientais em atributos mensuráveis, verificáveis e reconhecidos economicamente pelos mercados.”

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