Poucas instituições tiveram impacto tão profundo na transformação do campo brasileiro quanto a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Ao longo das últimas cinco décadas, a estatal ajudou a converter solos antes considerados pouco produtivos em áreas agrícolas de alta eficiência, desenvolveu tecnologias, cultivares, sistemas de produção e conhecimentos que contribuíram decisivamente para colocar o Brasil entre as maiores potências do agronegócio mundial.
Por isso, a definição do novo chefe da Embrapa Hortaliças, unidade localizada no Distrito Federal, passou a ser acompanhada com atenção por setores ligados à pesquisa e à produção rural. A disputa, segundo o ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo e ex-presidente do Incra, Xico Graziano, representa mais do que uma simples escolha administrativa.
Na avaliação dele, o processo coloca frente a frente dois perfis distintos: de um lado, Marianne Vidal, identificada com a defesa da agroecologia; de outro, Ítalo M. R. Guedes, pesquisador com trajetória reconhecida na área de horticultura.
A pergunta lançada por Graziano é direta:
Qual será a escolha: perfil militante ou perfil científico?
E a decisão, segundo ele, poderá indicar qual caminho a Embrapa pretende seguir nos próximos anos.

Uma gigante construída pela ciência
A discussão ganha peso diante da dimensão e da importância da Embrapa para o país. Criada em 1973, a instituição se tornou uma das maiores estruturas de pesquisa agropecuária do mundo e teve participação direta na modernização da agricultura tropical.
Hoje, a empresa mantém uma rede formada por 43 unidades descentralizadas de pesquisa, distribuídas pelas diferentes regiões brasileiras, além de unidades centrais responsáveis pela coordenação e gestão das atividades. O quadro atual reúne cerca de 7,6 mil empregados ativos, incluindo aproximadamente 2.145 pesquisadores — dos quais mais de 1.900 possuem doutorado.
A estrutura científica também envolve milhares de projetos, laboratórios, campos experimentais e parcerias com universidades, empresas e instituições nacionais e internacionais.
É dessa rede que surgiram avanços fundamentais para a agricultura brasileira, como o desenvolvimento de tecnologias adaptadas ao Cerrado, o melhoramento genético de plantas e animais, o avanço da agricultura tropical, novos sistemas de manejo e soluções que aumentaram a produtividade sem exigir expansão proporcional das áreas cultivadas.
O resultado foi uma mudança histórica: um país que durante décadas enfrentou limitações para produzir alimentos em larga escala passou a ocupar posição de destaque global na produção e exportação de soja, milho, carnes, café, açúcar, fibras e diversas outras commodities.
A ciência produzida pela Embrapa não ficou restrita aos grandes empreendimentos rurais. Tecnologias desenvolvidas pela instituição também chegaram à agricultura familiar, contribuindo para o aumento da produção, a geração de renda e a segurança alimentar em diferentes regiões do país.
Embrapa também entrou no centro do debate ambiental
Nos últimos anos, a atuação da empresa ultrapassou as fronteiras da produção agropecuária e passou a ocupar papel importante na discussão ambiental.
Levantamentos técnicos desenvolvidos pela Embrapa Territorial, associados a dados de monitoramento por satélite utilizados pela NASA, ajudaram a questionar a narrativa de que o agronegócio brasileiro seria, de forma generalizada, incompatível com a preservação ambiental.
Dados divulgados recentemente apontam que o Brasil mantém cerca de 65,6% de seu território coberto por vegetação nativa, enquanto parte expressiva dessa conservação está localizada dentro das propriedades rurais. O levantamento também indica que, para cada hectare utilizado pela agropecuária, existem aproximadamente 2,1 hectares de vegetação nativa preservada no país.
As informações reforçaram uma tese defendida há anos pelo setor produtivo: o debate ambiental precisa considerar dados científicos, a legislação brasileira e as particularidades do modelo agrícola nacional, evitando análises baseadas apenas em discursos políticos ou generalizações.
Para produtores rurais, a participação da Embrapa nesse debate é estratégica. A instituição possui credibilidade técnica e capacidade científica para produzir informações capazes de influenciar políticas públicas, negociações internacionais e a própria imagem do agronegócio brasileiro no exterior.
“Perfil militante x perfil científico”
É justamente nesse contexto que a escolha para a chefia da Embrapa Hortaliças ganhou repercussão.
Em publicação nas redes sociais, Xico Graziano afirmou que a disputa representa um possível embate entre uma visão mais alinhada à militância agroecológica e outra baseada na tradição científica da instituição.

“Avança dentro da Embrapa o esquerdismo disfarçado de agroecológico, de caráter anticapitalista. Alinhados ao MST, lutam contra o agronegócio, opondo-o à agricultura familiar. É insano, mas é real. Pobre Embrapa”, declarou Graziano.
A manifestação expressa a visão do ex-secretário e ocorre em meio ao debate sobre os rumos da empresa. A crítica parte da preocupação de que setores ideológicos possam ganhar influência dentro de uma instituição historicamente reconhecida pela pesquisa aplicada e pelo desenvolvimento de tecnologias voltadas à produção rural.
A agroecologia, por sua vez, é um campo de estudo presente em universidades e centros de pesquisa e integra áreas e programas desenvolvidos pela própria Embrapa. O questionamento levantado por Graziano está relacionado à possibilidade de uma orientação político-ideológica se sobrepor à avaliação científica e à experiência técnica na definição de cargos estratégicos.
Para ele, o risco estaria na criação de uma divisão artificial entre agronegócio e agricultura familiar — dois segmentos que, embora apresentem características diferentes, fazem parte do mesmo sistema produtivo e dependem de inovação, tecnologia, crédito, assistência técnica e pesquisa.
Decisão de Sílvia Massruhá entra no radar do agro
A escolha do novo chefe da Embrapa Hortaliças deverá passar pela avaliação da presidente da empresa, Sílvia Massruhá.
A decisão poderá ser interpretada como um sinal sobre a orientação administrativa da instituição e sobre os critérios que terão maior peso na ocupação de posições estratégicas.
De um lado está Marianne Vidal, cuja atuação é associada à agroecologia. Do outro, Ítalo M. R. Guedes, pesquisador com trajetória na área de horticultura.
A disputa, porém, já ultrapassou os limites internos da unidade e passou a alimentar uma discussão mais ampla: a Embrapa deve ampliar a presença de diferentes correntes de pesquisa ou preservar uma estrutura de comando baseada prioritariamente na experiência científica, na produção acadêmica e na capacidade de gerar resultados para o campo?
Para setores do agronegócio, a preocupação é que a instituição seja envolvida em disputas políticas e ideológicas que possam comprometer sua principal característica: produzir conhecimento técnico capaz de atender produtores de diferentes portes e contribuir para o desenvolvimento econômico do país.
O legado que colocou o Brasil entre as potências agrícolas
Ao completar 47 anos, a Embrapa destacou uma trajetória marcada pelo desenvolvimento de tecnologias que fortaleceram a produção rural brasileira e ampliaram a capacidade do país de produzir alimentos, fibras e energia.
Ao longo de sua história, a instituição ajudou a desenvolver sistemas de produção mais eficientes, novas variedades de plantas, técnicas de manejo, soluções para diferentes biomas e tecnologias que elevaram a produtividade no campo.
O impacto ultrapassou as fronteiras nacionais. Pesquisadores internacionais já reconheceram que o trabalho da Embrapa contribuiu para transformar a agricultura tropical e influenciou sistemas produtivos em diferentes países.
A capacidade brasileira de produzir em regiões tropicais, considerada um dos maiores avanços científicos da agricultura mundial, está diretamente relacionada ao conhecimento acumulado por pesquisadores da empresa e por instituições parceiras.
Esse patrimônio científico, construído ao longo de décadas, é justamente o que torna a escolha do novo comando da Embrapa Hortaliças tão simbólica.
A decisão poderá representar apenas uma mudança administrativa. Mas, para críticos como Xico Graziano, também pode revelar qual visão terá maior influência sobre o futuro da instituição.

