Em dois anos, empresas divulgam menos metas de agricultura regenerativa, segundo relatório

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Em dois anos, empresas divulgam menos metas de agricultura regenerativa, segundo relatório

Alguns anos atrás, uma avalanche de empresas dos setores de alimentos e agropecuária começou a anunciar compromissos para impulsionar sistemas regenerativos. Porém, de 2023 para cá, houve um refluxo nesse movimento. Agora, menos empresas divulgam metas relacionadas à agricultura regenerativa.

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O movimento foi identificado pela FAIRR, uma rede internacional de investidores que congrega mais de 400 membros com mais de US$ 95 bilhões em ativos sob gestão. No relatório que divulgou no fim de junho, a FAIRR identificou que, de 78 empresas agroalimentares listadas em bolsa no mundo, 28% divulgam metas quantitativas relacionadas a sistemas regenerativos. Em 2023, essa parcela era de 35%.

A FAIRR destacou em seu relatório duas empresas que deixaram de citar metas de agricultura regenerativa: a JBS e o grupo Compass, de serviços alimentares. Em 2023, a gigante brasileira de carnes afirmou que iria investir US$ 100 milhões em projetos de pesquisa e desenvolvimento para reduzir suas emissões, incluindo o fortalecimento de práticas regenerativas. Já em seu relatório de sustentabilidade mais recente, a companhia não citou mais uma meta de investimento na área.

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Em nota, a JBS disse que “investe permanentemente em pesquisas no Brasil, nos Estados Unidos e na Austrália para desenvolver práticas regenerativas”. A empresa citou exemplos como o patrocínio de terceiras partes para o desenvolvimento de projetos de adoção de práticas regenerativas nos Escritórios Verdes (“que desde 2021 já atuaram na regularização socioambiental de 20 mil fazendas e direcionaram mais de 8 mil hectares para recuperação florestal”), pesquisas sobre redução de emissões de metano entérico desenvolvidas no Centro de Pecuária Sustentável do Instituto de Zootecnia do estado de São Paulo, estudo sobre o balanço de carbono em fazendas que promovem a agricultura regenerativa desenvolvido em parceria com o Observatório de Bioeconomia da FGV, projeto científico do Departamento de Zootecnia da Universidade de Wisconsin-Madison sobre agricultura regenerativa, patrocínio ao projeto RestaurAmazônia, que promove a agricultura regenerativa e já beneficiou mais de 1,4 mil famílias, patrocínio à Fundação Dom Cabral em estudos de caso de práticas agropecuárias em harmonia com a natureza, e, na Austrália, o JBS Farm Assurance, que tem como foco o tema da agricultura regenerativa. “O fato de os autores do relatório não terem encontrado essas informações diz mais sobre a instituição — pela limitação da pesquisa — do que sobre os relatórios públicos da JBS”, diz a nota.

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No grupo Compass, o tema ainda é citado como um fator para alcançar suas metas climáticas, mas a empresa não menciona mais as quantias almejadas. Em 2023, a empresa mencionava metas de originação de produtos de sistemas regenerativas até 2030. Procurados pelo Valor, representantes da companhia não foram localizados.

Além disso, ter metas não basta para que uma companhia garanta estar construindo um ambiente mais resiliente. As metas hoje estão mais relacionadas a implementação — como área a ser regenerada ou volume de ingredientes originados a partir de produções regenerativas — e não em resultados, como redução do uso de agrotóxicos ou de emissões de gases de efeito estufa.

O levantamento identificou que 14% das companhias têm metas de aplicação de práticas regenerativas por área, e 14% têm metas de originação de produtos de fazendas regenerativas – os mesmos percentuais identificados em 2023. Já as companhias que têm metas voltadas a resultados representam agora 4% do total – menos que o percentual de 2026, quando 6% das empresas tinha esse foco.

O tema das metas de resultados vem crescendo em discussões acadêmicas e círculos de sustentabilidade. O Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) vem defendendo que as companhias tenham metas relacionadas a objetivos da agricultura regenerativa e listou 11 sugestões de metas, como redução de emissões de gases-estufa, aumento do sequestro de carbono, redução do risco de pesticidas e aumento da saúde do solo, entre outras iniciativas.

Para a FAIRR, a baixa incidência de metas voltadas a resultados da agricultura regenerativa “sugere que as companhias ainda não são capazes de quantificar os resultados que querem alcançar por meio da agricultura regenerativa, tornando difícil avaliar a profundidade e o escopo de seus programas, e por extensão, sua credibilidade”. A organização avalia que, sem metas e medições dos resultados desses esforços, “é impossível para os investidores avaliarem completamente esses programas e a extensão em que a companhia está construindo resiliência aos riscos que a agricultura regenerativa busca atender”.

Nenhuma das companhias analisadas, por exemplo, tem meta de redução de uso de agrotóxicos, embora esse seja um dos resultados que se deveria buscar com práticas de agricultura regenerativa. Das companhias avaliadas, 52% até dizem querer reduzir o uso de insumos, mas relatam usar técnicas que podem implicar, na prática, em até mais uso de agrotóxicos, como o plantio de cultura de cobertura, redução ou fim de aragem do solo — práticas que dependem do uso de herbicidas. Somente quatro das 78 companhias avaliadas calculam, em alguma medida, o uso de herbicidas em suas cadeias, embora não tenham metas para isso.

A FAIRR alerta ainda que, em alguns casos, o uso de agrotóxicos até “aumentou com a adoção de práticas regenerativas — um desenvolvimento que pode criar riscos reputacionais para companhias e seus investidores e coloca a credibilidade de seus programas em dúvida”. Isso não significa que as empresas estejam deixando o tema de escanteio. Na comparação com 2023, houve um aumento na proporção de empresas que mencionam a intenção de fomentar a agricultura regenerativa e que veem o clima como uma questão de risco financeiro.

De acordo com o novo relatório da FAIRR, 64% das companhias avaliadas citam o tema da agricultura regenerativa; em 2023, a parcela foi de 63%. Além disso, 96% das empresas que citam o assunto veem o clima como risco financeiro, uma fatia bem superior à de dois anos anos, quando foi de 68%.

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