A instabilidade de chuvas causada pelo El Niño, sobretudo no Centro-Oeste, tem potencial para reduzir em 9,7% a produção brasileira de soja na safra 2026/27. A projeção faz parte do novo estudo realizado pela Serasa Experian divulgado nesta terça-feira (27/10). A diferença de produção equivale a cerca de 17,6 milhões de toneladas e, se confirmada, indica que a colheita nacional poderá ser de 163,6 milhões de toneladas.
Para o levantamento, a Serasa considera a perda de produtividade da oleaginosa com as condições climáticas que ocorreram durante o mesmo fenômeno, na safra 2023/24, e compara com um cenário de clima neutro. A safra 2023/24 foi influenciada por um El Niño forte e a temporada de 2024/25 foi utilizada como a referência para condição climática neutra.
Isso significa que se houver a redução de 17,6 milhões de toneladas na colheita, esse valor corresponde a cerca de R$ 33 bilhões em VBP potencialmente impactado.
A Serasa ressalta que este cálculo é indicativo e mantêm constantes os preços de referência, não representando uma projeção de perda financeira efetiva, já que alterações na oferta podem influenciar os preços da soja e outras condições de comercialização.
Plantio
A área nacional de plantio está estimada em 49,9 milhões de hectares na safra 2026/27, avanço de 1,8% ou quase 1 milhão de hectares. “Uma lavoura maior não necessariamente significa uma safra melhor”, alerta Daniel de Oliveira, gerente de geoprocessamento Agro da Serasa Experian.
Segundo o especialista, cerca de 40% das lavouras da oleaginosa já foram semeadas no país. Desta forma, o setor deve monitorar como será o regime de chuvas entre novembro e janeiro – e as precipitações serão determinantes para a produtividade da segunda safra.
“Quando olhamos para regiões relevantes, a questão mais importante deixa de ser a implementação (da soja de verão) e passa a ser como a chuva vai ser distribuída”, afirma oliveira. Como o plantio foi realizado em quase metade das áreas, por enquanto, a janela de milho segunda safra estaria preservada.
Por outro lado, tomando como base o ciclo de 2023/24, regiões em que o produtor não conseguiu semear adequadamente derrubaram a produtividade do milho segunda safra. Há chance também deste cenário se repetir nesta temporada, para a metade das áreas que ainda precisa ser plantada.
Análise estadual
Além dos resultados nacionais, o estudo da datatech cruzou a sensibilidade de cada unidade da federação ao El Niño e sua relevância para a produção brasileira de soja. Nesse recorte, Mato Grosso e Rio Grande do Sul se destacam pela combinação de alta sensibilidade ao fenômeno e alta relevância produtiva, mas apresentam comportamentos opostos quando analisados de perto.
Em Mato Grosso, a área plantada para 2026/27 é estimada em 12,7 milhões de hectares, alta de 2,2%. A produtividade, porém, cairia de 4.028 quilos por hectare (kg/ha) no cenário neutro para 3.266 kg/ha com o fenômeno climático ativo e forte. Assim, a produção da oleaginosa tem potencial para baixar de 51,2 milhões para 41,5 milhões de toneladas nesta temporada.
Em contrapartida, no Rio Grande do Sul, a área estimada é de 7,1 milhões de hectares, crescimento de 2,9%. O comportamento é inverso: a produtividade considerada passaria de 2.342 kg/ha no cenário neutro para 3.117 kg/ha com El Niño. A produção projetada pode aumentar de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas.
Oliveira explica que em Mato Grosso o plantio já ultrapassou 70% da área estimada. Houve alguma dificuldade no início, mas as chuvas se regularizaram em outubro e permitiram a continuidade dos trabalhos de campo.
“Estamos preocupados sobre como os próximos meses vão se comportar neste cenário de chuvas”, diz. “Mato Grosso e Goiás vão puxar 80% do potencial de perda nacional”, acrescenta.
No caso de Goiás, há regiões de sequeiro em que a semeadura “ainda está muito tímida”, afirma Oliveira. No norte do Estado é possível encontrar produtores que aguardam condições climáticas melhores para realizar o plantio. O estudo estima que Goiás tem potencial para perder cerca de 4 milhões de toneladas, e poderá produzir 20,25 milhões de toneladas em 2026/27.
Na outra ponta, o gerente da Serasa comenta que o avanço nos resultados esperados para o Rio Grande do Sul viriam porque o El Niño elimina possíveis períodos de seca que costumam ocorrer. Mas o acesso de chuva também deixa o setor em alerta para o aumento de doenças fúngicas, por exemplo. “Chuva não significa que a safra automaticamente será melhor”, diz.
Inadimplência
Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, ressalta que a produção está totalmente conectada com a geração de caixa do agricultor. No entanto, o que define se a potencial perda na colheita nacional vai se refletir em crescimento da inadimplência é como está alavancagem e a distribuição de risco de cada produtor rural.
“Se há alta alavancagem e ele tem dificuldade de renovar seus créditos, isso pode afetar a inadimplência dele e lá na frente virar uma recuperação judicial”, afirma.
Em contrapartida, este cenário não é generalizado. Segundo Pimenta, somente um agricultor pede recuperação judicial a cada 10 mil que produz. “E a inadimplência machuca mais que a RJ”, completa.

