Enquanto o debate sobre sustentabilidade ganha espaço no mercado internacional, produtores rurais de Mato Grosso apostam em uma fórmula mais pragmática: aumentar a produtividade e reduzir custos dentro da própria porteira. É nesse cenário que o projeto ABC+ em Ação tem difundido tecnologias como a integração lavoura-pecuária, sistema que vem sendo utilizado para recuperar pastagens degradadas e ampliar a rentabilidade das propriedades rurais, algo previsto no Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC+).
A iniciativa foi apresentada na Fazenda Rio Manso, em Campo Verde (a 136 km de Cuiabá), durante um dia de campo em que o
esteve presente, reunindo representantes do setor produtivo, instituições de pesquisa, entidades de classe e agentes públicos.
De acordo com a secretária-adjunta de Agronegócios, Crédito e Energia da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec), Linacis Lisboa, o Plano ABC+ foi criado para estimular práticas capazes de aumentar a produção agropecuária ao mesmo tempo em que reduzem emissões e promovem adaptação às mudanças climáticas.
Ela destacou que o programa não deve ser encarado como uma política exclusivamente ambiental, mas como uma estratégia de produção sustentável voltada à rentabilidade das propriedades rurais. “É produzir mais, ter mais rentabilidade do que a produção convencional, mas de forma mais sustentável”, afirmou.
Segundo a gestora, o plano trabalha com uma abordagem integrada da paisagem, buscando harmonizar áreas produtivas, reservas legais, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e recursos hídricos dentro das propriedades rurais.
Entre as tecnologias incentivadas estão a recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto, uso de bioinsumos, manejo de resíduos da produção animal, florestas plantadas e terminação intensiva de bovinos.
No caso das pastagens degradadas, Linacis explicou que a recuperação melhora a qualidade da alimentação animal, aumenta a produção de biomassa e contribui para a conservação do solo e da água.
Já a terminação intensiva de bovinos permite reduzir o tempo necessário para o abate, aumentando a produtividade da área utilizada pela pecuária.
Redução de custos e melhora na qualidade
Para o produtor rural Rodrigo Destefani Minuzzi, proprietário da Fazenda Rio Manso e presidente do Sindicato Rural de Campo Verde, a adoção das práticas previstas pelo plano ocorreu de forma natural, acompanhando a evolução das atividades desenvolvidas na propriedade.
Segundo ele, a combinação entre agricultura e pecuária permitiu reduzir custos na recuperação de pastagens e melhorar a qualidade das áreas destinadas ao rebanho. “A gente, por ter lavoura e pecuária na fazenda, vai fazendo a reforma de pastagem usando a agricultura para isso”, explicou.
Minuzzi afirmou ainda que a principal vantagem observada foi justamente a redução dos gastos necessários para recuperar áreas de pasto. Segundo ele, em vez de realizar apenas a reforma convencional, a propriedade passou a utilizar o cultivo agrícola como parte do processo.
“Diminuiu o custo de fazer uma reforma de pasto. A gente planta soja, consegue colocar mais adubo e, depois, sobra um pasto bem formado e limpo de plantas daninhas”, relatou.

Rodrigo Destefani Minuzzi, proprietário da Fazenda Rio Manso
O produtor avalia que a transição para sistemas mais sustentáveis ocorreu sem grandes obstáculos. Para ele, a principal mudança já havia acontecido décadas atrás, quando a agricultura convencional começou a ser substituída pelo plantio direto.
Apesar dos avanços, Minuzzi acredita que ainda há espaço para aumentar a eficiência da pecuária dentro da propriedade. De acordo com ele, entre os próximos passos estão: o fortalecimento da adubação das pastagens e a substituição de variedades de capim para elevar a lotação animal por hectare.
Enfrentamento de oscilações do mercado
Na avaliação do coordenador de Inteligência de Mercado do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), Rodrigo Silva, a integração entre lavoura e pecuária oferece uma vantagem estratégica ao produtor: a diversificação das fontes de receita.
Segundo ele, sistemas integrados permitem aproveitar melhor a estrutura da fazenda, compartilhar mão de obra e reduzir riscos diante das oscilações de mercado.
“Se o preço do milho não está bom ou o da soja não está bom, o boi pode compensar. Então você acaba tendo mais opções de venda”, afirmou.
Silva destacou que o produtor consegue ganhar escala ao utilizar os mesmos recursos em diferentes atividades. Embora o investimento inicial possa parecer mais elevado, a tendência é que os custos se tornem mais competitivos à medida que o sistema se consolida.
“Com o tempo, tendo a dinâmica dessa integração, você acaba conseguindo custos mais interessantes e também essa opção de comercialização que é bem importante”, explicou.
Conhecimento e acesso a crédito
O diretor de Relações Institucionais da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Ronaldo Vinha, avaliou que o ABC+ tem um papel importante ao aproximar os produtores de informações técnicas e linhas de financiamento voltadas à adoção de tecnologias sustentáveis.
Segundo ele, a modernização da atividade rural exige investimentos cada vez maiores, o que torna o acesso ao crédito um fator decisivo para a implementação de melhorias nas propriedades.
“O investimento no agronegócio é muito alto. Maquinário caro, terra cara. E, às vezes, o produtor necessita de um apoio na hora do plantio. O ABC+ vem justamente para facilitar esse contato com as instituições financeiras”, afirmou.
Vinha também ressaltou que o programa conecta os produtores ao conhecimento gerado por instituições como Embrapa, Famato e Imea, contribuindo para a solução de problemas enfrentados no dia a dia das propriedades.
Ao comentar os desafios relacionados à sustentabilidade, tema que ganha destaque nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas, ele afirmou que os produtores brasileiros enfrentam uma série de exigências ambientais e econômicas.
“O produtor tem muitas dificuldades. Nós temos um código florestal extremamente restritivo e, ao mesmo tempo, enfrentamos preços baixos para commodities como soja e carne”, disse.
“Metas ambiciosas”
Segundo dados da Sedec, Mato Grosso responde por cerca de 17% das metas nacionais do Plano ABC+. Entre os objetivos estabelecidos para o estado estão a recuperação de 3,82 milhões de hectares de pastagens, a ampliação da integração agropecuária em 1,3 milhão de hectares e a expansão do plantio direto em 3,3 milhões de hectares adicionais. “É um plano bem ambicioso, mas Mato Grosso tem feito o seu dever de casa”, declarou Linacis.
É produzir mais, ter mais rentabilidade do que a produção convencional, mas de forma mais sustentável
Segundo ela, os resultados já começam a aparecer em algumas áreas. Conforme dados apresentados pela secretária, o uso de bioinsumos alcançou cerca de 83% da meta prevista, enquanto a recuperação de pastagens atingiu 75% do objetivo estabelecido. A terminação intensiva de bovinos foi a tecnologia com maior avanço, 750 mil cabeças, alcançando a meta nacional prevista para o período.
Para acelerar a adoção dessas práticas, o plano também conta com instrumentos de financiamento, como o Renova Agro, o FCO Verde e uma linha específica da Desenvolve MT voltada a pequenos produtores interessados em investir em tecnologias de baixa emissão de carbono.
Segundo Linacis, a principal missão do projeto ABC+ em Ação é justamente transformar conhecimento técnico em resultados práticos dentro das propriedades rurais. “Para implementar, é preciso conhecer. Por isso mostramos as tecnologias diretamente no campo”, afirmou.

