Recordes sucessivos de temperatura, secas extremas, chuvas e enchentes devastadoras e colapso de produções agrícolas vitais: o planeta ultrapassou limites antes considerados distantes. Desde o ano passado, testemunhamos impactos concretos dos eventos climáticos extremos; e o que antes era tratado como problema ambiental se tornou uma questão central e urgente de segurança alimentar e de resiliência das cadeias produtivas globais.
A crise climática não é mais uma abstração distante: já está nos preços do café, do cacau, da soja e do milho, na mesa do consumidor e na fragilidade das cadeias logísticas globais. Segurança alimentar, hoje, é inseparável de resiliência climática. Em um cenário em que cada vez mais países sofrem com escassez e inflação alimentar, outros precisam se reposicionar para suprir a demanda mundial. E o Brasil surge com um papel estratégico. A maior potência agrícola tropical do mundo, além de produzir alimentos em escala global, pode oferecer caminhos inovadores de adaptação climática e reconstrução resiliente das cadeias produtivas.
Antecipando a discussão que deverá ter ainda mais força durante a conferência do clima em Belém (PA), AYA Earth Partners e World Climate Foundation reuniram, na London Climate Action Week 2025 (21 a 29 de junho), lideranças em uma mesa-redonda para discutir cadeias de valor e transição ecológica.
Com a grande responsabilidade de sediar a COP30 — edição que já vem sendo chamada de “COP da Ação” —, o Brasil se posiciona no centro das principais decisões econômicas e climáticas dos próximos dois anos. Se, por um lado, a transição energética deve liderar os debates nos principais fóruns do evento; por outro, o exemplo brasileiro pode, e deve, ser o ponto de partida para enfrentar questões críticas, como a segurança alimentar. E, se há um momento para falar de legado, é agora: nosso país reúne as melhores condições para responder aos maiores desafios do nosso tempo.
Tomemos como exemplo o cacau. No ano passado, as cotações internacionais dispararam 135%, ultrapassando os US$ 12 mil por tonelada, resultado da combinação entre eventos climáticos extremos e o avanço de doenças como a monilíase, que devastaram safras na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis por 60% da produção global do fruto. E o Brasil pode passar de importador para fornecedor estratégico de cacau certificado e rastreável em um mercado cada vez mais exigente. Liderando esse movimento de expansão da escala produtiva de forma sustentável, Sul da Bahia e o Pará adotam sistemas agroflorestais que associam cacau à recuperação de áreas degradadas.
Dentre as principais cadeias produtivas do país, a cafeicultura é uma das que mais sofrem com o clima, já que altas temperaturas e seca elevaram os preços e apertaram a oferta global. No Cerrado Mineiro e em outras regiões de Minas Gerais, ondas de calor e o atraso das chuvas comprometeram floradas e safras. O impacto foi direto nos preços: o café arábica subiu 70% em 2024, com picos de até US$ 4,30 por libra (R$ 9,48 por quilo); já o robusta teve alta de 72%, alcançando US$ 5.847 por tonelada. Ainda assim, o Brasil estabeleceu um novo recorde nas exportações de café no ano passado, atingindo mais de US$ 10 bilhões em receita. Com o avanço do aquecimento, as regiões produtoras precisarão migrar para altitudes mais elevadas ou investir em novas variedades adaptadas. O risco de perda de áreas tradicionais aumenta — assim como o custo de adaptação.
Nas culturas de soja e milho, pilares da segurança alimentar nas cadeias de proteína animal, o enfrentamento de riscos estruturais e a adoção de práticas sustentáveis ganham força, seja para atender às exigências do mercado, seja para garantir a produtividade com a conservação dos sistemas naturais. A soja sofre com alterações nos regimes de chuva e risco de novas barreiras comerciais ligadas ao desmatamento. E o milho, altamente sensível à seca na fase de polinização, registra perdas severas em importantes polos globais. Ambos os grãos sustentam cadeias globais interconectadas, o que amplia o risco de crises de abastecimento e volatilidade de preços em escala mundial.
O Brasil dispõe de vantagens estratégicas pouco replicáveis, como cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para serem recuperadas para produção agrícola e bioeconômica, ou seja, eliminando a necessidade abrir novas áreas. Some-se a isso a biodiversidade única, totalmente apta para gerar superalimentos, bioativos, cosméticos novos medicamentos naturais, além de uma matriz elétrica 85% renovável, diferencial absoluto em um mundo que busca cadeias de valor descarbonizadas.
No entanto, não se constrói segurança alimentar apenas com capacidade de plantar. É preciso garantir diversificação de sistemas produtivos, redução de vulnerabilidades climáticas e estabilidade para agricultores e consumidores. Essa é a nova agenda da adaptação climática no setor produtivo: preparar cadeias que resistam ao choque climático, absorvam eventos extremos e garantam abastecimento regular em longo prazo.
Pode parecer ambicioso imaginar o Brasil como líder da resiliência alimentar mundial, mas podemos ser a resposta para um dos maiores problemas climáticos e energéticos do globo se agirmos em cinco frentes essenciais. A primeira é escalar a produção sustentável, por meio da expansão de agroflorestas em culturas como cacau, café e superalimentos, além da recuperação de pastagens com integração lavoura-pecuária-floresta. A segunda envolve inovar na ciência tropical, investindo em sementes resistentes ao calor, manejo biológico de pragas e tecnologias de rastreabilidade.
A terceira trata do financiamento da adaptação em escala, ampliando o acesso a instrumentos como o EcoInvest, seguros agrícolas climáticos e crédito climático rural. Em quarto lugar, é preciso garantir certificações e rastreabilidade reconhecidas internacionalmente, permitindo o acesso a mercados premium de alimentos e ingredientes sustentáveis. Por fim, é essencial incluir socialmente os pequenos e médios produtores, promovendo a formação e o financiamento de cooperativas produtivas, a integração de comunidades tradicionais e a geração de empregos de qualidade na nova bioeconomia.
Neste ano crucial para o clima, a oportunidade é nossa maior aliada. Se agir de forma integrada e estratégica, o Brasil pode não apenas suprir o mundo de alimentos, mas exportar modelos de produção resilientes. Sistemas produtivos capazes de resistir ao clima extremo serão a moeda forte da nova agricultura global. Porque em mundo cada vez mais quente, o verdadeiro poder agrícola não estará apenas em quem produz, mas em quem consegue produzir de forma resiliente.
*Patricia Ellen é sócia fundadora da AYA Earth Partners, sócia-Presidente da Systemiq Latam e ex-Secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, Formada em Administração de Empresas pela FEA-USP, com mestrado em Administração Pública pela Harvard Kennedy School e MBA pelo Insead, Patricia foi presidente da Optum no Brasil, do grupo United Health, sócia da consultoria McKinsey & Company e nomeada Jovem Líder Global pelo Fórum Econômico Mundial em 2016.
*Edson Higo é CEO da AYA Earth Partners. Atuou por 10 anos como CEO na Danone, onde foi responsável por transformar organizações, unificar as unidades de negócios da companhia no país, impulsionar a criação de valor econômico sustentável e fomentar uma cultura organizacional vibrante e inovadora. Sua liderança tem sido marcada pela busca por soluções de impacto que aliam inovação, regeneração e resultados de longo prazo.

