Criação de abelhas vira fonte de renda nas cidades

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Criação de abelhas vira fonte de renda nas cidades

Uma atividade tipicamente rural, a criação de abelhas tem ganhado o meio urbano com a adesão crescente de criações de espécies nativas sem ferrão mantidas em pequena escala por pessoas que viram, no inseto, um possível hobby ou também um fonte de renda extra. As colmeias, mantidas em ambiente quase hostil para um animal tão delicado, reúnem histórias de paixão pela atividade que, aos poucos, abriram portas para novos empreendimentos baseados na meliponicultura.

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“A gente chama popularmente de abelha sem ferrão, mas falo que essas abelhas possuem um ferroada invisível que a gente toma emocionalmente”, diz o apicultor Anderson Magalhães, de Ribeirão Preto (SP). A primeira “picada” ocorreu quando ele ainda tenha 12 anos, quando viu um enxame mantido pelo pai de um amigo.

“Depois que a gente é ‘ferroado’ por uma abelha sem ferrão, a gente se apaixona por elas”, diz.

 

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Anderson Magalhães chegou a criar 120 colônias de abelhas de 36 espécies diferentes em plena área urbana de Ribeirão Preto — Foto: Arquivo pessoal

Anderson Magalhães chegou a criar 120 colônias de abelhas de 36 espécies diferentes em plena área urbana de Ribeirão Preto — Foto: Arquivo pessoal

Hoje com 37 anos e mais de 600 colmeias em produção em parceria com agricultores da região de Ribeirão , ele chegou a criar 120 colônias de abelhas de 36 espécies diferentes em plena área urbana da cidade, que é a oitava mais populosa do Estado. A primeira caixa, da espécie Iraí, é mantida até hoje na casa da sua avó. Com a experiência adquirida na atividade, ele passou a dar consultorias e atesta o fenômeno: o principal público interessado na criação de abelhas sem ferrão está na cidade.

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“Muita gente quer justamente ter abelha em área urbana porque acaba sendo um como pet e não tem tanto trabalho quanto um cachorro ou um gato”, compara.

 

Em São Carlos, no interior paulista, a bióloga Juliana Massimino Feres também iniciou a sua criação na cidade. Embora tenha estudado polinizadores durante a pós-graduação, foi o nascimento do seu filho e queda de uma colmeia que havia na casa dos seus avós, em 2014, que a levou a ter sua primeira produção própria de mel.

“É uma atividade que combina muito com a maternidade e combina com a restauração de ecossistemas, que era o que eu já trabalhava”, resume. Ela chegou a ter 50 caixas de abelhas em área urbana.

Da paixão pelas melíponas, veio a inspiração para um projeto de incentivo a meliponicultura entre mulheres de pequenas propriedades e na área urbana. Recentemente, a bióloga criou sua própria marca de mel, a Eborá, e a atividade já responde por 30% de sua renda.

Juliana Massimino Feres criou sua própria marca de mel, a Eborá, e a atividade já responde por 30% de sua renda — Foto: Arquivo pessoal

Juliana Massimino Feres criou sua própria marca de mel, a Eborá, e a atividade já responde por 30% de sua renda — Foto: Arquivo pessoal

Em Jaboticabal, também no interior de São Paulo, o meliponicultor Gustavo Siniscalchi, mantém quatro apiários em área urbana e um em área rural e vê desafios nos dois ambientes. “O ambiente urbano tem floradas de melhor qualidade, mas é um desafio, por exemplo, por conta da aplicação de inseticidas”, afirma.

Muitas vezes, os inseticidas são aplicados pela própria prefeitura para o controle de mosquitos transmissores da dengue e outras doenças. No entanto, essas pulverizações podem levar a perda de enxames inteiros.

O interesse urbano pela criação de abelhas surpreendeu a equipe da Embrapa Meio Ambiente quando a unidade lançou seu primeiro curso online sobre o tema, ainda na pandemia. “As pessoas estavam com essa necessidade de ficar em casa, sem circular, e acharam na criação de abelhas uma atividade possível de ser executada naquele momento”, diz o pesquisador Cristiano Menezes, responsável pelo curso.

Segundo ele, a demanda levou a uma reedição do curso, com uma abordagem focada para esse público da cidade visando responder a questões e desafios específicos da meliponicultura urbana. Ao todo, 15 mil pessoas já se inscreveram no curso online e gratuito da Embrapa.

“A gente continua com um volume grande de pessoas fazendo esses cursos e agora já numa fase, em que a gente está vendo uma cadeia produtiva se organizando relacionado a isso, com criadores especializados em multiplicar e vender colônias para essas pessoas”, relata Menezes.

Gustavo Siniscalchi mantém quatro apiários em área urbana em Jaboticabal e um em área rural e vê desafios nos dois ambientes — Foto: Arquivo pessoal

Gustavo Siniscalchi mantém quatro apiários em área urbana em Jaboticabal e um em área rural e vê desafios nos dois ambientes — Foto: Arquivo pessoal

Só no Estado de São Paulo, a Secretaria de Agricultura calcula que existam 1.121 meliponários, sendo 141 deles na capital. A pasta não categoriza as unidades como urbano ou rural, mas reconhece a popularidade da meliponicultura entre o público da cidade.

“Muita gente cria no campo e depois acaba querendo ter uma vontade de manter essas abelhas também em casa. Acho que essa prática tem se se disseminado também por conta disso”, avalia a Renata Teixeira, médica-veterinária da Defesa Agropecuária de São Paulo e responsável pelo Programa Estadual de Saúde das Abelhas.

Embora veja com bons olhos a popularização da criação de abelhas, ela ressalta a importância de cadastrar essas colmeias tanto na Secretaria de Meio Ambiente local, por se tratarem de espécies nativas, quanto da Defesa Agropecuária, para fins de monitoramento sanitário. “O Estado precisa conhecer a localização e a quantidade para ter uma ação de contenção ou dispersão de uma eventual doença, se um dia isso vier a acontecer”, alerta.

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