Previsão de céu encoberto, com muitas nuvens e risco de tempestade. A temperatura segue elevada, e a sensação térmica é de sufoco. O prognóstico é para Belém, e serve para a COP30, evento que a capital do Pará sedia de hoje até o dia 21. É a maior conferência da ONU no Brasil desde a Rio92 e a primeira na Amazônia, mas enfrenta um clima político global turbulento em um cenário de mudança climática hostil. Seus desafios superam a vastidão da maior floresta tropical do mundo.
O tempo da COP30 — tanto meteorológico quanto cronológico — é bem diferente dos dias de sol e frescor do inverno carioca que receberam a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Rio92 ou Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro, de 3 a 14 de junho de 1992. O entardecer do domingo de encerramento da Rio92 foi dourado e parecia refletir o brilho da esperança generalizada, lembra o embaixador Rubens Ricupero, que liderou as negociações de financiamento da conferência e é um dos maiores conhecedores de política climática internacional.
Foi um domingo carioca solar de praias de mar azul e parques lotados de gente de todo canto do planeta. Representantes da Lapônia (Finlândia) à Amazônia, de países-ilhas da Oceania às nações de savanas e florestas africanas. Em comum, a esperança de fazer um mundo melhor.
O Fórum Global, que reuniu a sociedade civil, recebeu naqueles dias mais de 120 mil pessoas, entre público e participantes (isso há mais de 30 anos). Ele contou com a presença de celebridades da época, como Pelé, Dalai Lama, Al Gore, Sting, Jane Fonda, Roger Moore e Shirley MacLaine.
A Rio92, porém, desenrolou-se em um mundo otimista com o arrefecimento de antigas tensões e mais preocupado com o futuro. O muro de Berlim havia caído pouco mais de dois anos antes, a União Soviética se dissolvera. Projeções climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado em 1988, indicavam perspectivas sombrias para o século XXI. Era questão de assegurar um mundo melhor para as gerações futuras.
Já a COP30 ocorre em um momento no qual o clima da Terra e a política global mudaram — para pior. Cenas como a do presidente americano George Bush na mesma plenária que o ditador cubano Fidel Castro seriam impensáveis agora.
— O clima hoje é mais sombrio e pouco favorável a acordos. A expectativa realista para a COP30 é manter o processo em andamento, a despeito dos Estados Unidos, das preocupações dos europeus terem se voltado para guerras e tantas outras questões — salienta Ricupero.
A COP30 é filha da Rio92. Mas acontece enquanto o otimismo do tempo de sua progenitora parece somente a memória de uma época de ingenuidade, opina o ambientalista Fabio Feldmann, outro veterano de COPs, autor do capítulo de meio ambiente da Constituição brasileira.
As emissões de gases-estufa associadas à ação humana e as mudanças climáticas delas decorrentes avançaram em ritmo mais acelerado do que as negociações para contê-las. Há 33 anos, a meta era evitar as alterações do clima. Passadas três décadas de muita discussão para pouca ação, elas mudaram de tempo verbal — era futuro; já é presente.
O que era previsão para o fim deste século materializou-se nas suas primeiras décadas em desastres de seca, onda de calor e de frio extremos, furacões e chuvas devastadoras. Cortar e mitigar emissões segue sendo preciso, mas adaptar tornou-se questão de sobrevivência.
A geração futura, as crianças do tempo da Rio92, tornaram-se os adultos em um planeta ainda menos favorável do que o previsto no século passado.
— Estamos mergulhados em extremos. Tanto de desastres de clima quanto de superpolarização, negacionismo climático associado a interesses econômicos. Mas, como a COP30 ocorre no Brasil, temos uma expectativa maior do que a de vários países. Todavia, o Brasil tem uma diplomacia muito boa, pode fazer a diferença em dar continuidade a discussões fundamentais para descarbonizar o planeta — enfatiza Feldmann.
Ricupero reforça que a Rio92 foi a conferência de maior êxito da História. No entanto, observa que o modelo precisa mudar:
— Tivemos alguns avanços depois, como o Acordo de Paris, de 2015, mas o modelo precisa ser renovado. Hoje sou cético sobre as COPs. Se resolvessem, não estaríamos na trigésima. O dinheiro não virá mais de países, mas de fontes multilaterais e do mercado. Hoje, esperar que os países façam aportes significativos é inviável.
Passadas três décadas, a Rio92 continua a ser o maior encontro de líderes mundiais da história da ONU, representando 179 países. A Cúpula do Clima, quinta e sexta passados, foi prestigiada por 29.
Da Rio92 saíram as convenções de Mudança do Clima (a mais importante, com 198 signatários, praticamente todos os países), de Diversidade Biológica e de Combate à Desertificação; a Agenda 21 e a Declaração de Princípios sobre Florestas. A Rio92 marcou não apenas um apogeu do multilateralismo, mas também um novo tempo para a participação da sociedade civil.
Temperatura global
A Rio92 foi resultado de uma negociação de cinco anos. Mas há consenso que a grande inovação foi a participação da sociedade civil, sublinha Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade. A partir dali, disseminaram-se os conceitos de sustentabilidade e de mudança climática.
O Acordo de Paris, acertado na COP21, contribuiu para retardar a sanha do aquecimento do planeta. De acordo com a análise da World Weather Attribution (WWA), se o Acordo de Paris não tivesse sido adotado, o cenário global de aquecimento estaria mais grave. Em 2015, antes do Acordo, projetava-se que a temperatura média global poderia subir cerca de 4°C acima dos níveis pré-industriais ao longo deste século. Com os compromissos atuais sob o Acordo, o mundo estaria agora em rota para cerca de 2,6°C de aquecimento. Continua perigoso e caro, mas não catastrófico.
— A Rio92 foi um divisor de águas, a partir do qual conservação começou a deixar de ser vista como antagônica à economia. E a preocupação com a mudança climática associada à ação humana chegou à opinião pública — afirma Karen Oliveira, diretora de Políticas Públicas da The Nature Conservancy Brasil e membro da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura.
Às vésperas do início da COP30, o número de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) apresentadas por países signatários do Acordo de Paris chegou a 106. A atualização das metas de redução de emissões, portanto, alcançou apenas pouco mais da metade dos 195 signatários do Acordo de Paris.
A COP30, em Belém, já nasceu sem o alcance da conferência-mãe. Sua missão é operar no limite do possível e não deixar o processo de negociação climática afundar em um momento global mais turvo que as águas do Rio Guamá, que banha Belém.
Maria Netto diz que o Brasil mais uma vez, como fez na Rio92, toma à frente, para promover a importância do multilateralismo:
— Os mundos da Rio92 e da COP30 são muito diferentes. Mas na agenda de Belém há oportunidades, como promover a restauração e combater a degradação. Nesse sentido, as convenções da Rio92 começam a convergir.
Há quem veja motivos para otimismo não na negociação oficial, mas nas que correm em paralelo.
— Esse é o momento da passagem de bastão para o setor empresarial. De dar mais protagonismo ao setor que gera impacto, mas também sofre com ele. Essa participação era quase inexistente na Rio92, mas amadureceu muito. A Rio92 teve como marca uma participação inédita da sociedade civil. Nesta veremos o mesmo ocorrer com o empresariado. Estou muito otimista nesse sentido. Vejo um engajamento inédito no Brasil no mundo dos negócios — destaca Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Concertação para a Amazônia.
Maria Netto observa que, de negociação em negociação, fez-se muito, mas ainda estamos distante do necessário. Motivos não faltam. O alerta do secretário-geral da Rio92, o canadense Maurice Strong (1929-2015), segue vivo: “Se nós não permitirmos que nosso interesse comum supere todas as diferenças, quando iremos fazê-lo? Haverá tempo?”
Fonte: O Globo 100
Foto: Bing

