Como o El Niño divide o Brasil ao meio na safra 2026/27

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Como o El Niño divide o Brasil ao meio na safra 2026/27

O Brasil pode estar no centro de uma das temporadas agrícolas mais incertas dos últimos anos. Com a confirmação oficial do El Niño pelo Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) em 11 de junho de 2026, a Consultoria Agro do Itaú BBA lança alerta: o fenômeno, com alta probabilidade de atingir intensidade forte ou muito forte, eleva os riscos para a safra 2026/27 e pode pressionar o balanço global de grãos num momento em que as margens de segurança dos estoques já estão mais estreitas do que em anos anteriores.

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O El Niño não é novidade para o agronegócio. Mas o que preocupa desta vez é a combinação entre a intensidade projetada do fenômeno e o contexto de mercado mais apertado em que ele chega. Segundo dados divulgados pelo Itaú BBA, a NOAA aponta 63% de probabilidade de um evento muito forte — com anomalia igual ou superior a 2°C — no trimestre novembro-janeiro de 2026/27. Modelos do Centro Europeu para Previsões Climáticas de Médio Prazo chegam a indicar aquecimento das águas do Pacífico acima de 3°C, patamar que superaria os picos históricos de 1997/98 (+2,3°C) e 2015/16 (+2,6°C), os dois eventos mais intensos já registrados desde 1950.

A intensificação do fenômeno deve ocorrer justamente no último trimestre do ano — período crítico para o início do plantio da soja no Centro-Oeste e no MATOPIBA, as principais regiões produtoras do país. De acordo com o Itaú BBA, o padrão climático típico do El Niño nessas regiões inclui chuvas irregulares, veranicos prolongados e atrasos no plantio, com risco de déficit hídrico durante fases críticas da cultura. O Nordeste e a região Norte/Amazônia concentram os maiores graus de risco, com precipitação muito abaixo da média e temperaturas muito acima do normal — cenário de seca severa a extrema, segundo o mapeamento da instituição. O Sul do Brasil fica em posição oposta: historicamente, o El Niño favorece chuvas acima da média na primavera e no verão na região, beneficiando a produção de soja e milho no Rio Grande do Sul e estados vizinhos. Mas esse ganho, segundo o Itaú BBA, tende a compensar apenas parcialmente eventuais perdas no Centro-Oeste e no MATOPIBA — e não resolve o problema se o fenômeno for suficientemente intenso para comprometer a produção nos grandes polos do Cerrado.

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O cenário base da consultoria ainda é positivo: nova safra recorde de soja no Brasil, com estimativa de 182,4 milhões de toneladas (MM t) para 2026/27. Mas o próprio relatório ressalta que esse número já está ligeiramente abaixo da projeção do USDA, de 186 MM t, por conta de uma expansão de área menor do que o esperado pelo órgão americano. E é quando a análise avança para o cenário alternativo que os números chamam atenção.

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Segundo simulações divulgadas pelo Itaú BBA, uma quebra de 6% na produção brasileira de soja — magnitude semelhante à registrada na safra 2023/24, quando veranicos prolongados e atrasos no plantio em Mato Grosso derrubaram a produtividade do estado em 16% ante a safra anterior — reduziria o estoque global para o menor patamar desde aquela temporada. A relação estoque/consumo mundial cairia de 28% para 25%, em movimento potencialmente altista para os preços internacionais da oleaginosa.

O que torna esse cenário mais preocupante do que em 2023/24 é a ausência de um colchão de compensação. Naquela safra, a recuperação espetacular da Argentina — que saiu de 25 MM t para 50 MM t de soja após três anos seguidos de La Niña — mais do que compensou a quebra brasileira e até derrubou os preços na Bolsa de Chicago. Segundo o Itaú BBA, repetir esse movimento agora seria praticamente impossível: o mercado está mais justo, a Argentina já opera em patamar normalizado e não há espaço para um salto de 25 MM t como o observado naquela ocasião.

Há ainda outro fator estrutural que amplifica o risco: a demanda. De acordo com dados divulgados pelo Itaú BBA com base no USDA, o crescimento mundial da produção e do consumo de biocombustíveis eleva a demanda por óleo de soja e pelo esmagamento do grão de forma consistente. O resultado é que o saldo global entre produção e consumo de soja — desconsiderados os estoques — deve atingir o menor nível desde a safra 2021/22, quando o mercado foi deficitário. Pelos números do USDA, esse superávit pode cair de quase 16 MM t em 2024/25 para menos de 1 MM t em 2026/27.

Para o milho de segunda safra, a preocupação é ainda mais direta. Segundo o Itaú BBA, o principal impacto do El Niño sobre a safrinha não é climático em sentido estrito, mas de calendário: chuvas irregulares no início da estação atrasam o plantio da soja, comprimem a janela ideal para a safrinha e aumentam a exposição do milho a déficit hídrico e calor no período de enchimento de grãos. O MAPITO concentra historicamente os maiores desvios negativos de produtividade em anos de fenômeno intenso, embora a consultoria aponte que avanços em tecnologia de sementes, manejo e irrigação funcionam como fatores mitigadores em relação aos episódios históricos mais severos.

Os riscos se estendem para além dos grãos. Na cana-de-açúcar, o El Niño pode inverter o regime hídrico entre inverno e verão no Centro-Sul — responsável por cerca de 90% da moagem nacional —, comprometendo o ritmo de colheita e a concentração de sacarose. No café, a janela crítica de setembro a outubro, essencial para a florada, pode ser afetada por chuvas erráticas, com risco de floradas antecipadas, desuniformes e com maior taxa de abortamento — impacto sentido não só no Brasil, mas também na Colômbia, Vietnã e Indonésia, segundo o relatório. Para a laranja, ondas de calor durante o período de floração no cinturão citrícola paulista podem reduzir o potencial produtivo da safra seguinte. Trigo, arroz, frutas e hortaliças também figuram no mapeamento de riscos da instituição.

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