Como a inovação fez, e continuará a fazer, a diferença no agro tropical

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Como a inovação fez, e continuará a fazer, a diferença no agro tropical

A inovação despertou o potencial da agropecuária brasileira. Desde 1976, uma série de avanços habilitou o país a fazer a produção de grãos crescer 650,3% e mais que quadruplicar a de proteína animal. Por urgência ou política de Estado, a grande extensão territorial enfim deixou de ser “terra de fazer distância”, como dizia Alysson Paolinelli, um dos expoentes do agro brasileiro, para efetivar notáveis vantagens competitivas.

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A aurora do plantio direto

 

O primeiro desafio não foi trivial. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 32% do solo brasileiro é bom ou ótimo. Os demais 68% precisam ser “construídos” para que possam ser usados o plantio. O produtor ainda precisou lidar com as intempéries tropicais que levam nutrientes embora e causam erosão, e dessa necessidade nasceu a primeira grande inovação: o plantio direto.

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Foi o produtor Herbert Bartz, de Rolândia (PR), que, em 1972, trouxe dos Estados Unidos a técnica, que consiste em proteger a terra com a palhada da colheita anterior para o próximo plantio. O manejo protegeu o solo, melhorou cultivos de Norte a Sul e abriu a porteira para a agricultura avançar para o Centro-Oeste e o Matopiba, a nova fronteira agrícola na confluência de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

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O volume de químicos por hectare caiu, em média, 87,5% em 50 anos. Moléculas registradas após os anos 2000 têm dose média de 150 gramas por hectare; há meio século, a média era de 1,2 quilo por hectare.

 

“Os defensivos atuais são mais seletivos, atuam só sobre as pragas. Mas o Brasil leva o dobro de tempo para aprovar novidades nessa área”, afirma Eduardo Leão, presidente da CropLife.

 

 

A ascensão dos bioinsumos

 

No caso dos insumos biológicos, ou bioinsumos, por sua vez, o país lidera tanto em proteção de plantas como em saúde do solo. “A adoção de biodefensivos no Brasil cresce três vezes mais rápido que no mundo. Outros países usam em ambientes controlados. Nós já adotamos em 25% da área total”, completa Leão. O dirigente lembra que, há 30 anos, quase não havia escala para essa tecnologia.

Já as bactérias fixadoras de nitrogênio, usadas em 85% da soja do país, renderam à pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa, o World Food Prize em 2025. Foi o terceiro “Nobel da Agricultura” para o Brasil. “Sem essas bactérias, a soja brasileira não seria economicamente viável”, frisa a pesquisadora.

Apenas em 2024, a solução economizou US$ 25 bilhões em adubo nitrogenado e evitou a emissão de 230 milhões de toneladas de gases do efeito estufa. Outros micróbios fazem o mesmo para milho, trigo e feijão.

 

A multiplicação das máquinas

 

Dos micro aos gigantes, o ritmo da mecanização agrícola é potente. O Censo Agropecuário mais recente mostra que o número de tratores quintuplicou de 250 mil para 1,28 milhão entre 1975 e 2016. Uma colheitadeira já ceifa 481,2 toneladas de soja em oito horas, ou 16,7 sacas por minuto, como se registrou em abril deste ano na Bahia. Com foices manuais, o mesmo trabalho demandaria 240 camponeses experientes.

Não é só velocidade e potência, mas também precisão e inteligência. Até 1990, a aplicação de fertilizantes e defensivos era feita em área total, com grande desperdício e impacto ambiental. No agro 4.0, a técnica de taxa variada “inteligente” chega a poupar 98% dos insumos por meio de sensores, aplicadores e recursos digitais.

Nós subíamos torres para ver os talhões de cima. Hoje, drones, satélites e maquinários ‘enxergam’ a necessidade da lavoura antes do olho humano. A aplicação pode ser planta a planta
— Ladislau Martin Neto, da Embrapa Instrumentação

Aliás, a digitalização ruma à onipresença com aplicativos de sensoriamento remoto de plantas e animais, planejamento e gestão, até concessão de crédito mais barato ou desenvolvimento de novas soluções como cultivares e insumos.

“A tecnologia responde por cerca de 60% do avanço da produção agropecuária nacional com incorporação de soluções digitais, genética e manejo inteligente”, cita Stanley Oliveira, chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital.

Os avanços na criação de animais

 

A pecuária também registra ganhos notáveis. Na década de 1970, um frango ingeria três quilos de ração para cada quilo de animal vivo. Hoje, uma boa granja usa a metade para igual resultado.

“As casas genéticas selecionaram, por décadas, conversão alimentar e rendimento de carcaça para machos e características reprodutivas nas fêmeas, mas essa é apenas uma parte”, introduz Ariel Mendes, conselheiro da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Nenhuma genética sustentaria tal desempenho sem bem-estar animal. Galpões já operam com controle ambiental, sensores, câmeras, automação da nutrição, baixo de nível estresse e protocolos padrão.

“Há 20 anos, havia superlotação, ambiência ruim, estresse e zero métricas. Na pecuária de precisão, medimos bem-estar com indicadores para ganho em conversão, mortalidade, qualidade de carcaça e previsibilidade operacional”, afirma Eliana Renúncio, gerente de apoio agropecuário da Aurora Coop.

 

A evolução da agroindústria

 

A agroindústria também evoluiu, notadamente a partir dos anos 2000. Um frigorífico atual reduz o desperdício de carne de frango em 54% com automação. “Houve grande avanço com a desossa automatizada de peito, asa e depois coxa. Subimos a qualidade com menos mão de obra”, diz Clédio Marschall, superintendente da LAR Cooperativa.

 

Para os suínos, a conversão alimentar caiu de 4 kg de ração nos anos 1970 para os atuais 2,3 kg por quilo vivo. As tilápias, por sua vez, ingerem só 1,1 kg na mesma comparação. Já os bovinos sextuplicaram a produção de carne por hectare ao ano, de 12 kg em 1970 para os atuais 73,6 kg com genética, melhores pastos, nutrição, bem-estar e técnicas como a integração lavoura-pecuária-floresta.

 

“Veremos cada vez mais produtores com 160 kg por hectare e o potencial vai a 800 kg via manejo tropical e intensificação”, avalia Maurício Palma Nogueira, consultor da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Alberto Bernardi, da Embrapa Pecuária Sudeste, cita o manejo individualizado em lugar de médias por lote. “Brincos wi-fi rastreiam cada animal em tempo real para manejo de precisão em nutrição, sanidade e outros aspectos”, conta.

Por exemplo, a pesagem tornou-se mais amigável e frequente. “Usamos câmeras e IA para pesar o gado onde ele estiver com precisão de 97%. A vantagem é ser portátil, com medições frequentes e ganho de produtividade”, cita Pedro Henrique, da Olho do Dono.

A literatura prevê mais inovação nas próximas três décadas do que a humanidade assistiu em milênios. E um novo pacote tecnológico já aponta avanços em áreas como edição gênica, robótica total, nanotecnologia e computação quântica. O futuro indica colheitas de 200 sacas de soja por hectare, “fazendas-fantasmas” 100% operadas por robôs, insumos sub-moleculares e “oráculos quânticos” para criar novos produtos.

Fonte: Globo Rural

Foto: Bing

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