Cientistas criam metal que “lembra” a própria forma, é instalado nas colunas de uma ponte em Seattle e consegue dobrar durante terremotos sem quebrar, voltando sozinho à posição original quando o tremor termina

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Cientistas criam metal que “lembra” a própria forma, é instalado nas colunas de uma ponte em Seattle e consegue dobrar durante terremotos sem quebrar, voltando sozinho à posição original quando o tremor termina

Ponte em Seattle usa metal com memória de forma para resistir a terremotos e voltar à posição original após tremores

Por décadas, o padrão de segurança para pontes construídas em zonas sísmicas seguiu uma lógica relativamente simples: a estrutura precisava resistir ao impacto de um terremoto sem desabar. Engenheiros civis projetavam colunas e vigas capazes de absorver energia sísmica suficiente para evitar colapso estrutural, mas aceitavam que deformações permanentes seriam inevitáveis após um grande tremor. Isso significava que, mesmo quando uma ponte sobrevivia a um terremoto, ela frequentemente ficava inutilizável.

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Colunas torcidas, juntas deslocadas e pavimento desalinhado tornavam a estrutura insegura para o tráfego até que reparos extensos fossem realizados. Em termos práticos, esse cenário resultava em meses de interdição após um grande evento sísmico, justamente no momento em que rotas de transporte são mais críticas para ambulâncias, equipes de resgate e caminhões de suprimentos.

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Uma ponte construída no corredor da SR-99, no centro de Seattle, mudou essa lógica ao substituir barras de aço convencionais por um material incomum na engenharia civil: uma liga metálica com memória de forma, capaz de deformar durante um terremoto e depois retornar espontaneamente à posição original.

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Terremotos e pontes de concreto: por que estruturas tradicionais sofrem deformações permanentes

Quando um terremoto atinge uma ponte convencional de concreto armado, as colunas de sustentação absorvem a energia sísmica por meio de um processo chamado deformação plástica. Esse fenômeno ocorre quando o material ultrapassa seu limite elástico e passa a sofrer deformações permanentes.

O mesmo princípio pode ser observado ao dobrar um grampo metálico: ele muda de forma e não retorna à posição inicial. Nas pontes, isso significa que os pilares se inclinam ou se deslocam. A estrutura pode continuar em pé, mas fica comprometida. Mesmo danos relativamente pequenos podem exigir inspeções completas, reforços estruturais e substituição de componentes.

 

Seattle conhece bem esse risco. Em fevereiro de 2001, um terremoto de magnitude 6,8 atingiu a região de Puget Sound. Durante o evento, os pilares do Alaskan Way Viaduct foram deslocados em até 12 centímetros.

Engenheiros concluíram posteriormente que, se o tremor tivesse durado apenas alguns segundos a mais, a estrutura poderia ter colapsado. O episódio levou autoridades locais a discutir não apenas a substituição da via elevada, mas também a necessidade de desenvolver infraestrutura urbana capaz de suportar terremotos sem paralisar o sistema de transporte da cidade.

Descoberta do Nitinol: o metal com memória de forma que revolucionou a engenharia sísmica

O material que possibilitou essa nova abordagem estrutural não foi criado originalmente para pontes. O Nitinol, uma liga metálica composta principalmente por níquel e titânio, foi descoberto em 1962 no Naval Ordnance Laboratory, em Maryland, durante pesquisas sobre ligas resistentes ao calor para ogivas de mísseis.

O engenheiro William Buehler conduzia experimentos com ligas metálicas quando um evento inesperado chamou atenção. Durante uma reunião técnica, uma amostra da liga dobrada em formato de sanfona circulou entre os participantes. Um dos presentes aproximou a chama de seu cachimbo do metal — e a estrutura metálica imediatamente voltou à forma original.

 

Esse comportamento revelou uma propriedade extraordinária. O material era composto por aproximadamente 56% de níquel e 44% de titânio, e recebeu o nome Nitinol, acrônimo de Nickel Titanium Naval Ordnance Laboratory.

A característica mais importante da liga é a superelasticidade, que permite ao metal sofrer deformações muito superiores às de materiais tradicionais e ainda assim recuperar completamente sua forma inicial.

Essa liga pode suportar deformações até 30 vezes maiores que o aço convencional sem sofrer danos permanentes, propriedade que a torna extremamente valiosa em aplicações sujeitas a cargas dinâmicas intensas, como terremotos.

Testes sísmicos com Nitinol: quinze anos de pesquisa antes da primeira ponte real

Antes que o Nitinol fosse utilizado em infraestrutura real, ele passou por mais de uma década de testes laboratoriais. O professor M. Saiid Saiidi, da Universidade de Nevada em Reno, dedicou cerca de quinze anos ao estudo do comportamento dessa liga em estruturas de pontes sujeitas a terremotos.

Os experimentos envolveram simulações de eventos sísmicos com magnitudes entre 7,5 e 8,0, utilizando colunas construídas com barras de Nitinol combinadas com um tipo especial de concreto chamado ECC (Engineered Cementitious Composite).

 

O ECC é um material desenvolvido para ser extremamente flexível. Ele pode ser até 500 vezes mais resistente à fissuração do que o concreto convencional, permitindo que a estrutura absorva deformações sem formar rachaduras críticas.

 

Os resultados dos testes chamaram atenção de engenheiros e autoridades públicas. Colunas tradicionais de concreto armado apresentavam deslocamentos permanentes após as simulações sísmicas. Já as colunas reforçadas com Nitinol retornavam praticamente à posição original. Os testes mostraram redução de 86% no deslocamento residual das colunas, indicando que estruturas desse tipo poderiam permanecer operacionais mesmo após um terremoto significativo.

Ponte experimental da SR-99 em Seattle: a primeira aplicação real da tecnologia

Após anos de testes laboratoriais, o Departamento de Transportes do Estado de Washington (WSDOT) decidiu aplicar a tecnologia em uma estrutura real. O local escolhido foi a rampa de saída norte da SR-99 para South Dearborn Street, no centro de Seattle.

A escolha foi estratégica. A ponte era relativamente pequena, o que permitia testar o material sem elevar excessivamente os custos do projeto. Isso era importante porque o Nitinol ainda é significativamente mais caro que o aço estrutural tradicional, podendo custar entre 90 e 300 vezes mais, dependendo da pureza e da aplicação.

Para contornar esse problema, os engenheiros adotaram uma solução híbrida. A maior parte da estrutura foi construída com concreto convencional. O Nitinol foi usado apenas nas regiões críticas das colunas — exatamente onde os maiores esforços sísmicos ocorrem.

Essa solução ficou conhecida como “rótula plástica inteligente”Apenas o terço superior das colunas recebeu barras de Nitinol incorporadas ao concreto ECC, enquanto os dois terços inferiores permaneceram em concreto armado tradicional.

 

Segundo Tom Baker, engenheiro-chefe de pontes do WSDOT: “Você não precisa usar o material em toda a estrutura. Basta colocá-lo onde o movimento sísmico será mais intenso.”

A ponte foi concluída em 2017, com financiamento parcial da Federal Highway Administration, que aprovou o projeto como experimento monitorado.

Como o Nitinol reage durante um terremoto

O comportamento do Nitinol tem origem em sua estrutura cristalina. Em condições normais de temperatura, o metal existe em um estado chamado fase austenítica, caracterizado por uma estrutura cristalina altamente organizada.

Quando o material é submetido a estresse mecânico — como durante um terremoto — seus átomos reorganizam-se temporariamente em uma estrutura chamada fase martensítica, que permite deformações sem ruptura.

Quando a força externa desaparece, o material retorna espontaneamente à fase austenítica original. Esse processo faz com que o metal literalmente “lembre” sua forma inicial e volte à posição original após o terremoto. A transformação ocorre em milissegundos e pode repetir-se milhares de vezes sem perda significativa de desempenho.

 

Economia de infraestrutura: o custo de usar Nitinol versus o custo de reconstrução após terremotos

A discussão econômica sobre o uso do Nitinol não se concentra apenas no custo de construção inicial. O argumento principal está no custo de reconstrução após terremotos. Pontes convencionais podem permanecer fechadas por meses após eventos sísmicos severos. Em cidades com sistemas logísticos intensos, isso pode causar prejuízos econômicos gigantescos.

 

Seattle movimenta bilhões de dólares em carga por ano por meio de suas rodovias e portos. Uma ponte que retorna automaticamente à posição original após um terremoto pode ser reaberta em horas, em vez de meses, reduzindo drasticamente o impacto econômico e social do desastre.

Estudos do WSDOT indicam que o uso estratégico de Nitinol pode aumentar o custo inicial de uma obra em apenas 5% a 10%, quando aplicado apenas nas zonas críticas da estrutura.

Novas ligas com memória de forma podem tornar pontes antissísmicas muito mais baratas

Embora o Nitinol seja extremamente eficaz, seu custo ainda limita a adoção em larga escala. Pesquisadores buscam alternativas mais acessíveis.

Uma das opções em desenvolvimento é uma liga baseada em cobre, alumínio e manganês (CuAlMn), que apresenta propriedades semelhantes de memória de forma, mas pode custar até 80% menos que o Nitinol tradicional. Outra linha de pesquisa envolve ligas de ferro com memória de forma (Fe-SMA), que podem ser produzidas com equipamentos convencionais da indústria siderúrgica.

Seattle movimenta bilhões de dólares em carga por ano por meio de suas rodovias e portos. Uma ponte que retorna automaticamente à posição original após um terremoto pode ser reaberta em horas, em vez de meses, reduzindo drasticamente o impacto econômico e social do desastre.

Estudos do WSDOT indicam que o uso estratégico de Nitinol pode aumentar o custo inicial de uma obra em apenas 5% a 10%, quando aplicado apenas nas zonas críticas da estrutura.

Novas ligas com memória de forma podem tornar pontes antissísmicas muito mais baratas

Embora o Nitinol seja extremamente eficaz, seu custo ainda limita a adoção em larga escala. Pesquisadores buscam alternativas mais acessíveis.

Uma das opções em desenvolvimento é uma liga baseada em cobre, alumínio e manganês (CuAlMn), que apresenta propriedades semelhantes de memória de forma, mas pode custar até 80% menos que o Nitinol tradicional. Outra linha de pesquisa envolve ligas de ferro com memória de forma (Fe-SMA), que podem ser produzidas com equipamentos convencionais da indústria siderúrgica.

 

Monitoramento sísmico em Seattle ajudará a projetar a próxima geração de pontes resistentes a terremotos

A ponte da SR-99 permanece sob monitoramento contínuo. Seattle registra centenas de pequenos eventos sísmicos por ano, e cada tremor fornece dados valiosos sobre o comportamento real do material em condições de campo.

Essas informações ajudam engenheiros a aperfeiçoar modelos estruturais e a desenvolver uma nova geração de pontes, túneis e viadutos resistentes a terremotos.

O interesse é global. Aproximadamente 900 milhões de pessoas vivem em regiões do chamado Anel de Fogo do Pacífico, uma zona tectônica que concentra algumas das falhas geológicas mais ativas do planeta.

Para essas regiões, tecnologias capazes de manter infraestruturas críticas operacionais após grandes terremotos podem representar uma mudança radical na forma como cidades lidam com desastres naturais.

 

Fonte: CPG Click Petróleo e Gás

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