Quando a China entra em um mercado, é capaz de impactar toda uma cadeia — e foi exatamente isso que aconteceu com o sorgo. Em setembro, a VLI fez o primeiro embarque de sorgo por ferrovia do Brasil com destino ao porto para exportação ao mercado chinês, após criar um novo sistema para esse escoamento.
O produto brasileiro passou a ser demandado pelo país asiático neste ano e é uma nova aposta no setor de grãos em tempos de emergências climáticas.
O Brasil é o segundo maior produtor de sorgo no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Na outra ponta, a China é responsável por mais de 80% das importações globais de sorgo, que utiliza tanto na produção de ração animal como de baijiu, tradicional bebida alcoólica local.
A expectativa é que o Brasil embarque até 2 milhões de toneladas de sorgo neste ano, disse Carolina Hernandez, diretora-executiva Comercial, de Projetos e Planejamento Estratégico da VLI, em entrevista ao Valor. Só a empresa já tem cerca de 800 mil toneladas negociadas para transporte.
“Estimamos que a VLI vai movimentar de 800 mil a 1 milhão de toneladas de sorgo em 2026”, afirmou a executiva. “Já temos uma parte grande em market-share nesse mercado”, acrescentou.
Para atingir essa posição, a empresa precisou estruturar um novo sistema totalmente dedicado ao sorgo. “Quando vimos que a China teria essa demanda e o Brasil tinha uma janela boa de embarque, decidimos criar uma solução logística”, disse a diretora.
Para viabilizar o escoamento, a principal ação da VLI foi segregar seus ativos para movimentar o sorgo, utilizando equipamentos que já possuía. Segundo Hernandez, foi necessário separar um espaço para o recebimento das cargas no terminal de transbordo, nos armazéns, silos, esteiras de transporte e dedicar uma frota ferroviária. No porto, também é segregado um espaço para fazer o embarque sem que haja contaminação.
A companhia começou a receber em julho o sorgo que seria destinado à exportação. As cargas seguiram pela Ferrovia Centro-Atlântica em duas rotas diferentes: de Araguari (MG) ao Espírito Santo, pelo Corredor Leste, e de Uberaba (MG) ao Porto de Santos (SP), pelo Corredor Sudeste. Até setembro, já foram embarcadas mais de 250 mil toneladas pela VLI, sendo 90 mil toneladas via Santos e mais de 160 mil toneladas pelo Porto de Tubarão, em Vitória (ES). Em ambos os casos, o destino foi a China.
Também em setembro, a operação ferroviária chegou ao Corredor Norte, com a realização da primeira movimentação do sorgo para o Porto do Itaqui, em São Luís (MA). A VLI prevê embarcar o sorgo movimentado nesse corredor ainda no começo deste mês, com destino inicial no norte da África e com a China como destino final.
No acumulado do ano até agosto, o Brasil exportou 231,2 mil toneladas de sorgo. Os chineses representaram boa parte do volume que o Brasil embarcou no período, com a compra de 196,05 mil toneladas adquiridas só no mês de agosto, conforme os dados mais recentes do Ministério da Agricultura.
Esse fluxo de negócios tornou-se possível com a assinatura, por parte dos dois países em novembro de 2024, do protocolo fitossanitário para a exportação de sorgo do Brasil à China.
Entretanto, foi somente em novembro de 2025 que Pequim autorizou os primeiros estabelecimentos brasileiros a exportarem ao mercado chinês. Os embarques ganharam tração, de fato, no segundo semestre deste ano.
Vantagens
No Brasil, o sorgo é cultivado na segunda safra, durante o inverno, quando compete com o cultivo do milho. A vantagem do sorgo é o menor custo de produção, já que a cultura exige menos água e menos fertilizantes para seu desenvolvimento. Entre os produtores, a percepção é de que o sorgo é a melhor opção para plantio quando se perde a janela climática ideal do milho.
Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), afirma que a chegada da China como compradora movimentou o mercado, inclusive resultando em preços melhores. Segundo ele, em São Paulo, já é possível encontrar sorgo com valor próximo ao do milho. “Antigamente o sorgo era usado apenas para ração animal. Hoje é usado para produção de etanol e agora para exportação”, acrescenta.
Para o dirigente, o principal gargalo para o sorgo é de ordem logística, uma vez que os canais para embarque ainda estão em desenvolvimento e necessitam, também, de aprovação dos chineses. Há casos em que o sorgo precisa ser enviado em contêineres, em vez de navios graneleiros, o que encarece o processo.
“O custo logístico dificulta o acesso ao nosso sorgo. Por outro lado, a gente vê com bons olhos que, mesmo com essa dificuldade e não tradição na exportação, o Brasil está crescendo [em exportação], e não só para a China, mas para países africanos que também estão comprando”, afirma.

