“Em 20 anos de Brasilagro, nunca tivemos tantos bancos atrás da gente, com clientes estressados querendo vender terra.” A frase é do CEO André Guillaumon, durante evento para investidores, o Brasilagro Day, e reflete o aumento expressivo de produtores e empresas em dificuldades financeiras.
Em 2024, o número de recuperações judiciais no campo cresceu 138% e no primeiro trimestre de 2025, 45%, na comparação anual. Embora o ritmo tenha diminuído mais recentemente, o cenário abriu oportunidades de aquisição de ativos, já que muitos desses imóveis passaram a ser oferecidos pelos bancos.
Para ter ideia, no ano passado, a empresa recebeu 369 oportunidades de negócios. Do total, 337 foram eliminadas por topografia, solo ou regime de chuvas. Outras foram descartadas por preço, tamanho pequeno ou por estarem em biomas em que a companhia não atua, como a Amazônia. Mato Grosso concentrou 116 ofertas, a Bahia 57, com crescimento em Tocantins e também no Paraguai.
“Este ano não saiu nenhum negócio, mas uma hora a gente acerta”, disse Guillaumon.
A área útil média oferecida foi de 5,9 mil hectares, ante 12 mil hectares em anos anteriores. Para a Brasilagro, ativos menores permitem transformar a fazenda mais rápido e acelerar o retorno sobre o investimento
Guillaumon lembrou que 2025 foi um ano desafiador. O câmbio começou em R$ 4,80, disparou para R$ 6,40 e terminou em R$ 5,30. Questões geopolíticas afetaram a soja, que chegou a US$ 11,75 por bushel, sofreu com tarifas e perdeu valor. Além disso, as adversidades climáticas pesaram sobre a safra.
A diversificação do portfólio foi destacada: em Mato Grosso, a liquidez segue baixa, mas na Bahia, antes com poucas oportunidades, houve crescimento de culturas irrigadas e novas lavouras. “A diversificação de terras tem sido produtiva para capturar resultados”, afirmou o CEO. Segundo ele, são 56 fatores a se controlar e 27 deles não estão sob gestão da empresa.
A queda da soja em reais, que chegou a R$ 180 a saca e recuou, diminuiu a liquidez no mercado de terras, já que os valores são referenciados no grão. “O preço da terra madura está estável, não tem mudado. O que mudou foi o preço da soja, e como se vende a terra por sacas de soja, então caiu”, disse Guillaumon.
Apesar disso, a BrasilAgro manteve a estratégia anticíclica. “Compramos quando todos querem vender e vendemos quando os outros querem comprar. Tivemos anos ruins, mas mostramos resiliência. A fortaleza do nosso modelo vem da terra e da comercialização da terra”, destacou. A companhia pagou dividendos e reforçou a disciplina financeira.
Arrendamentos
A Brasilagro mantém 50% de suas terras arrendadas. Segundo, André Guillaumon, não faz sentido trabalhar alavancado como fizeram alguns. “Vimos gente trabalhando com 100% das terras arrendadas e, no fim, acabamos comprando terras de pessoas e empresas estressadas.”
“Não chegaremos a 70% ou 80% de arrendamento em nossas operações para não perder o controle”, afirmou o CEO.
A maior parte das terras arrendadas da empresa é da cultura de cana, que está rentabilizando melhor desde 2023/24.
Fonte: Globo Rural

