Um grupo de entidades brasileiras foi a Roma, na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), nesta semana, para apresentar um estudo que detalha as oportunidades e desafios para a produção pecuária no Brasil.
Desenvolvido pela FGV Agro, e lançado pela ApexBrasil em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o levantamento “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, demonstrou como o país consegue responder à crescente demanda global por alimentos e, ao mesmo tempo, mitigar o impacto ambiental por meio da tecnologia tropical.
De acordo com a pesquisa, o setor pecuário enfrenta uma encruzilhada global. Enquanto a demanda por proteína animal aumenta, os três blocos que controlam 70% do rebanho global registram quedas históricas: o Mercosul opera em seu menor nível em seis anos, a América do Norte enfrenta o menor rebanho em 70 anos e, a União Europeia, o menor em 30 anos.
Na contramão da retração externa, o Brasil se consolidou com o maior rebanho comercial do planeta (192,6 milhões de cabeças em 2024), mostrando que o crescimento produtivo coexiste com a preservação.
O país utiliza 30,2% de seu território para a agropecuária, mantendo 66,3% da vegetação nativa preservada — sendo que 33,2% está resguardada por lei dentro das propriedades rurais privadas.
“Efeito poupa-terra”
Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina disparou mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11% (reduzindo de 181 para 160 milhões de hectares). Esse salto gerou o chamado “efeito poupa-terra”, que poupou 397 milhões de hectares — área que teria sido necessária se o país mantivesse os mesmos índices de produtividade de 1990.
A pesquisadora da FGV Agro Camila Estevam, detalhou os dados técnicos do estudo que traduzem esse ganho de eficiência em metas climáticas:
“O primeiro grande resultado foi mostrar que as tendências que o setor já executa reduzem em até 60% as emissões absolutas até 2050. Quando olhamos para a intensidade de carbono, a redução chega a 80% no cenário de referência, baixando de 80 kg para 16 kg de CO2 equivalente por quilo de carne”, disse Estevam, em nota.
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Nos cenários mais ambiciosos com o Plano ABC+, a intensidade cai 92,6%, chegando a apenas 5 kg. Isso acontece porque o carbono fixado no solo pela ILPF [Integração Lavoura-Pecuária-Floresta] e pela recuperação de pastagens atua diretamente na remoção dessas emissões.
O estudo comprova que no cenário mais arrojado de mitigação, o Brasil conseguirá estabilizar sua produção em patamares elevados (18,2 milhões de toneladas de carcaça em 2050) reduzindo a área necessária de pastagens em mais 35%, amparado pelo aumento de 31% no peso médio da carcaça do animal abatido (que saltará de 211 kg para 277 kg).
Durante o evento de lançamento do estudo, o diretor de Produção e Sanidade Animal e Diretor-Geral Assistente da FAO, Thanawat Tiensin, reforçou a necessidade de governança e união multissetorial.
“Quando falamos de produção pecuária sustentável, cada país precisa encontrar seu próprio caminho. A Agenda 2030 e seus objetivos não são uma opção. O ponto central é a necessidade de trabalhar em conjunto com agricultores, produtores, setor privado, academia e instituições de pesquisa. A transformação que buscamos precisa ser construída de forma coletiva”, declarou.
Exigências do mercado
Para o setor exportador, a apresentação do estudo dentro do Subcomitê de Pecuária do COAG — órgão que orienta as políticas agrícolas globais da ONU — funciona como um aval de credibilidade que embasa o produto brasileiro frente às exigências do mercado externo.
Fernando Zelner, Diretor de Sustentabilidade da Abiec, resumiu o valor estratégico do embasamento científico para a reputação internacional do agronegócio:
“Isso é fundamental para a exportação e para a gente trazer os dados duros, com ciência bem fundamentada, para mostrar para o mundo por que a nossa carne é sustentável e por que que o nosso produto é confiável e merece estar em todas as prateleiras dos supermercados do mundo”.

