Em entrevista à Reuters, o CEO e cofundador da Boa Safra, Marino Colpo, disse também que os agricultores que se preparam para a temporada 2026/27, com plantio a partir de meados de setembro no Brasil, têm buscado um pacote mais básico de sementes, para reduzir custos em momento de rentabilidade mais apertada por alta de preços de fertilizantes e combustíveis.
“Tem demanda grande por sementes que possam tolerar clima mais severo”, disse Colpo, ao ser questionado pela Reuters sobre o impacto do fenômeno El Niño, que pode trazer menos chuvas para o Centro-Oeste, principal região produtora de soja do país.
Com uma semente de ciclo mais longo, a chance de a lavoura se recuperar após um período de seca é maior, explicou ele.
“Pelo fato da previsão do El Niño forte, tem muitos produtores diversificando um pouco o portfólio e optando em alguns casos por materiais um pouco mais longos do que o normal”, comentou. “Quando tem um material muito curto e toma dez dias de sol, ele é irrecuperável.”
A Boa Safra, líder no setor, fornece sementes de soja para 5 milhões de hectares plantados no país, disse Colpo, de um total de cerca de 49 milhões semeados na temporada 2025/26 no Brasil, maior produtor e exportador global da oleaginosa.
O tratamento de sementes com produtos biológicos também ajuda o produtor a lidar com a seca, por promover uma germinação com vigor. Mas esses são materiais mais caros, ponderou.
“Percebemos vontade do produtor de comprar uma semente tecnologia mais barata”, disse ele, notando que, ainda assim, o agricultor tem buscado materiais com tratamento com inseticidas e fungicidas, até pelas dificuldades com mão de obra na fazenda.
Risco para milho
Se essa tendência de soja de ciclo mais longo ganhar força no país, a janela climática para plantio de milho segunda safra, após a colheita da oleaginosa, ficaria mais curta, aumentando os riscos para o cereal, acrescentou Colpo, lembrando que nos últimos anos produtores adotaram a estratégia de soja de ciclo curto visando o milho.
O milho segunda safra atualmente responde pela maior parte do cereal colhido no Brasil, o terceiro produtor global e segundo exportador.
Na hipótese de o produtor não conseguir plantar o milho na janela climática adequada, ele poderia migrar para o sorgo, disse Colpo, citando a cultura mais rústica, que vem sendo vista como eventual substituto do cereal como matéria-prima da indústria de etanol.
Embora a companhia venda também sementes de milho e sorgo, a soja representa ainda pouco mais de 80% da receita da Boa Safra, que vê oportunidades de expansão apesar da situação financeira mais difícil do setor agrícola, disse o CEO.
Em um momento no qual empresas de sementes entraram em recuperação judicial, a Boa Safra avalia aquisições. “Tem muita coisa barata, temos olhado muita coisa, estamos abertos a negociações, abertos a aquisições, queremos fazer aquisições, mas no preço certo, no preço de crise, em preço de custo de capital elevado”, afirmou Colpo, citando que a alavancagem da companhia permitiria o movimento.
Ele disse que há apetite para alguma empresa que faça venda direta de sementes, permitindo verticalização de parte dos negócios.

