A Argentina deve colher, em 2025/26, a maior safra de trigo de sua história. As projeções variam entre 25,5 milhões de toneladas, segundo a Bolsa de Cereales, e 27,7 milhões de toneladas, de acordo com a Bolsa de Rosário. Apesar do volume recorde, moinhos brasileiros demonstram preocupação com a qualidade do cereal disponível até o momento, especialmente quanto aos níveis de glúten e proteína, considerados determinantes para panificação e fabricação de massas.
“Está em um padrão considerado limite”, disse em live da Associação, ao citar que a confirmação de determinados indicadores poderia colocar o trigo abaixo do padrão ideal e exigir a busca por trigos melhoradores, algo que, segundo ele, a Argentina tem capacidade de produzir, mas que geralmente não chega à exportação.
Nas regiões já colhidas, a proteína varia entre 10% e 14%, com média de 11,1%, a menor dos últimos dez anos. O glúten segue a mesma tendência. Segundo ele, ainda é cedo para projetar o cenário do sul do país, onde a colheita está atrasada, mas o trigo colhido até agora apresenta “mais tenacidade e menor elasticidade” em comparação à safra passada, que registrou qualidade superior.
Assêncio reforça que os moinhos brasileiros acompanham a evolução dos resultados, pois uma queda adicional na proporção de glúten poderia exigir importação de trigos melhoradores de outras origens. Ainda assim, ele pondera que a qualidade pode melhorar conforme a colheita avança para o sul.
Condições da safra
O forte volume de chuvas foi determinante para a produtividade excepcional do trigo argentino este ano, afirma Daniela Venturino, analista de cultivos de trigo na Bolsa de Cereales.
No Norte do país a colheita já foi concluída, com uma boa qualidade e produtividade de 2,78 toneladas por hectare, 91% a mais que a média das últimas cinco safras. Na porção central do país, onde está a província de Buenos Aires, 88% da área já foi colhida, com uma produtividade 51% maior que a média, alcançando 4,4 toneladas por hectare, e com uma presença normal de doenças fúngicas.
Diferente de anos anteriores, em grande parte do país a umidade favoreceu o desenvolvimento do cereal. No entanto, o sul da Argentina sofreu com excessos hídricos, deixando 900 mil hectares submersos. No total, 4,3 milhões de hectares foram afetados por alagamentos e dificuldades operacionais, o que provocou atraso na semeadura, áreas não fertilizadas, entraves logísticos e perdas em outras lavouras, como o milho. A situação impediu uma expansão ainda maior da área de trigo, segundo a analista.
Na porção Sul, a colheita alcançou apenas 7% da área, enquanto o restante das lavouras ainda está em fase de enchimento dos grãos. A produção, no entanto, é esperada com uma produtividade de 4,27 toneladas por hectare, 22% superior à média dos últimos cinco anos. Apesar disso, há dificuldades no controle de doenças e uma leve lixiviação de nutrientes, em função do excesso de umidade.
A área total plantada com trigo foi de 6,7 milhões de hectares, 6,3% acima da última safra e 6,7% acima da média das cinco anteriores. Deste total, a colheita já alcançou 60,2% da área.
Venturino afirma que a Bolsa de Cereales não descarta uma produção final ainda maior, podendo chegar a 27,7 milhões de toneladas, como prevê a Bolsa de Rosário. “É uma quantidade que nunca vimos no nosso país”, destacou. A cautela, porém, permanece: “Estamos esperando que comece o maior ritmo de colheita no sul, porque há variabilidade entre os rendimentos estimados”.
Fonte: Globo Rural

