Agricultor ajusta planejamento para encarar El Niño mais forte da história

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Agricultor ajusta planejamento para encarar El Niño mais forte da história

Na safra 2026/27, o agronegócio brasileiro deve enfrentar El Niño de maior intensidade da história, considerando os fenômenos registrados desde 1950. O último El Niño a receber a classificação “muito forte”, como o atual, foi o da safra 2015/16, quando 16 culturas diferentes tiveram perdas de produtividade. Ele ficou ativo entre 2014 e 2016.

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O fenômeno, que começou em junho deste ano, está evoluindo mais rápido e deve atingir o pico entre novembro e janeiro de 2027, ainda sem previsão exata para terminar. Especialistas ouvidos pelo Valor veem chances de atraso no plantio da soja e impacto para a produtividade, se a falta de chuvas e altas temperaturas se confirmarem no centro e Norte do país. A depender do que ocorrer com a soja, a semeadura do milho segunda safra, que normalmente ocorre entre fevereiro e março, também pode atrasar. Há ainda riscos para a floração do café e de citros, enquanto a cana-de-açúcar pode ser beneficiada por precipitações no Sudeste do Brasil

Caracterizado pelo aumento na temperatura das águas do Oceano Pacífico, o El Niño já foi registrado por diversas vezes. No entanto, o aquecimento global tem feito com que o fenômeno seja cada vez mais intenso e frequente, explica Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

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“O El Niño é um fenômeno recorrente, a questão é que ele está se tornando cada vez mais recorrente. Nos últimos 60 anos houve mais casos do que nos 60 anteriores, e mais intensos”, afirma.

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Segundo o especialista, a forte variabilidade do clima decorrente do El Niño, como chuvas intensas no Sul e seca no Centro-Oeste e Norte, também está relacionada ao aquecimento global. Com isso, os cultivos agrícolas ficam mais expostos a esses extremos climáticos.

A agrometeorologista Ana Maria Heuminski de Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, diz que a velocidade de aquecimento do Oceano Pacífico elevou a expectativa de um fenômeno intenso.

“Ele está evoluindo muito rápido, as temperaturas estão aumentando bastante na região do Niño 3.4, principal referência global para monitorar o fenômeno”, afirma. Segundo ela, um El Niño mais forte aumenta a probabilidade de eventos extremos, mas não significa que todas as regiões terão impactos na mesma intensidade.

O Niño 3.4 é a região do Pacífico ( localizada a 5 graus ao norte da linha do Equador até 5 graus ao sul e entre 170 graus e 120 graus a oeste do meridiano de Greenwich) utilizada por meteorologistas como o principal “termômetro” para definir e medir a intensidade de fenômenos climáticos globais como o El Niño e a La Niña. Na última atualização divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), foi constatada uma temperatura de 1.3ºC, o que caracteriza o El Niño neste momento como moderado.

Para Eduardo Assad, pesquisador do Observatório de Bioeconomia do FGV Agro, episódios recentes do fenômeno servem como base para estimar que perdas relevantes podem acontecer na agricultura. Segundo ele, em 2015 e em 2024, o fenômeno provocou perda de até 10% da safra.

Dessa vez, o diretor no Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Eduardo Martins, vê risco para danos maiores no cultivo de soja, por exemplo.

“Se a falta de chuva for ampliada, pegar o Matopiba [confluência entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que é mais exposto ao clima, tem solos mais arenosos, e o Centro-Oeste, há possibilidade de 20% de perda a nível nacional, pegando a safra 2015/16 como base”, estima Martins, que foi presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no governo Fernando Henrique Cardoso.

O principal risco para a oleaginosa está no calendário agrícola. O coordenador do FGV Agro, Guilherme Bastos, explica que a irregularidade das chuvas no início da temporada pode atrasar o plantio ou exigir replantio. Em 2024, que também foi ano de El Niño, cerca de 2,9 milhões de hectares precisaram ser replantados por causa das condições climáticas. Caso o cenário se repita, a semeadura tardia da soja pode comprometer a janela ideal ce plantio do milho segunda safra.

Em contrapartida, Ana Luiza Lodi, analista em inteligência de mercado na Stonex, pondera que se vier um atraso no plantio, mas, em seguida, o clima der condições para semeadura, não haveria grandes danos à produtividade.

Do ponto de vista de mercado, no caso de uma quebra relevante das lavouras de soja no Brasil e na Argentina, por exemplo, os preços tenderiam à alta, já que os balanços local e global ficariam mais apertados, num momento em que a demanda permanece favorável – principalmente para a produção biocombustíveis.

“Atualmente, o foco está nos EUA, em meio a algumas previsões de calor excessivo. Se houver algum problema relevante nos EUA, os preços já poderiam reagir mesmo antes de a safra da América do Sul estar definida”, diz a analista.

No Sul do Brasil, onde o fenômeno costuma acarretar chuvas acima da média, a preocupação é com o excesso de precipitação durante a implantação das lavouras de verão. “O impacto pode até ser positivo para a produtividade da soja e milho no Rio Grande do Sul, desde que a chuva não seja exagerada, como foi em 2024”, afirma Ávila, do Cepagri.

Diante de um cenário de maior variabilidade climática, Bastos, da FGV, afirma que o planejamento e a adoção de seguro rural podem ser decisivos.

O agrometeorologista da Rural Clima Marco Antonio dos Santos destaca a importância do manejo do solo para enfrentar períodos de excesso ou falta de água. “Ele (produtor) tem que primeiro fazer o que a gente chama de lição de casa: manter uma boa palhada, o solo com uma boa cobertura vegetal, com boa estrutura química e física, para que, quando chover, a água consiga penetrar em todo o solo e formar uma camada maior de água”, afirma.

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