A reaproximação diplomática entre Estados Unidos e China já causa mudanças no mercado de soja do Brasil. Os prêmios praticados no porto de Paranaguá (PR) – diferencial entre o valor na bolsa de Chicago e preço para exportação – caíram entre US$ 0,15 e US$ 0,20 o bushel ontem e hoje. Mas, além disso, as negociações paralisaram.
“O comprador desapareceu e agora está tentando entender o que foi acordado”, afirmou Adriano Lo Turco, analista de mercado da Agroconsult.
O encontro entre o presidente Donald Trump e o líder chinês Xi Jinping, realizado na quinta-feira (30) em Busan, na Coreia do Sul, sinalizou uma trégua parcial na disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo e a retomada das compras chinesas de produtos agrícolas americanos.
Após a reunião, Trump declarou que a China voltará a adquirir “tremendas quantidades de soja e outros produtos agrícolas imediatamente”. E o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que serão 12 milhões de toneladas de soja entre agora e janeiro e 25 milhões de toneladas de soja por ano durante os próximos três anos.
As declarações ocorrem após a confirmação de que a estatal chinesa Cofco comprou, nesta semana, três cargas de soja dos EUA, num total 180 mil toneladas, reforçando a boa vontade de acordo.
Ainda que não se saiba os detalhes, os investidores de grãos já sinalizaram alegria com as declarações. Nesta manhã, os contratos de soja mais negociados subiam mais de 1,5% na bolsa de Chicago. Nos últimos três dias, eles tiveram alta de 2,3% apenas com as especulações.
Perdas ao produtor
Para o Brasil, o problema é que essa valorização na bolsa, não compensará a queda nos prêmios. “O resultado agora é que se fechou uma janela de oportunidade de comércio da safra velha (2024/25). E, provavelmente, pressionará os preços da safra nova. Isto é, em reais por saca, o produtor terá um valor menor”, completou Turco.
Marcela Marini, analista de grãos e oleaginosas do Rabobank, complementa dizendo que “se confirmada uma nova safra recorde em 2026, os prêmios no Brasil poderão ser comprimidos e atingir patamares negativos ao longo do ano”. Nesse cenário, os preços em reais recebidos pelos produtores podem cair, enquanto as indústrias de esmagamento tendem a se beneficiar da aquisição de soja mais barata.
No longo prazo, porém, a situação deve voltar à normalidade e o Brasil deve continuar a fornecer mais de 100 milhões de toneladas aos chineses. Ana Lodi, analista da StoneX lembra que os volumes acordados entre China e EUA são similares aos comercializados antes do acirramento das tensões comerciais. “Dessa forma, não devem ocorrer grandes mudanças nos fluxos globais de soja.”
Em 2024/25, os EUA forneceram 22,6 milhões de toneladas à China. No ciclo anterior, 25 milhões e, em 2022/23, 31 milhões de toneladas. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que o país exporte 47 milhões de toneladas de soja na temporada 2025/26, na comparação com 112 milhões previstas para o Brasil. Essa diferença reforça a leitura de que, mesmo com a trégua, o Brasil continuará sendo o principal destino da demanda chinesa.
Dentro dos EUA, o acordo funciona como uma sinalização política de que Trump não largou seu eleitor do Meio-Oeste. Mas a Reuters Breakingviews, já sinaliza que o impacto positivo para os produtores americanos tende a ser “limitado”, uma vez que a China mantém hoje uma base de fornecedores mais diversificada, com a América do Sul em posição dominante.
Fonte: Globo Rural
Foto: Globo Rural

