Donald Trump completa, nesta terça-feira (20), um ano desde seu retorno à Casa Branca, com um segundo mandato marcado por decisões e embates que abalaram os Estados Unidos e todo o planeta. Sem freios e imprevisível, o republicano age como “presidente do mundo” frente a adversários e aliados.
Em 12 meses, o presidente norte-americano lançou mão de um tarifaço global, ordenou ataques militares e ameaçou até países parceiros. Internamente, encampou uma ofensiva sem precedentes contra imigrantes, perdoou invasores do Capitólio e perseguiu instituições, universidades e a imprensa.
Antes mesmo de assumir o poder, Trump prometeu expulsar dos EUA todos os imigrantes que vivem em situação irregular no país. A promessa não se cumpriu, mas Trump colocou nas ruas mais de 20 mil agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês). Antes dedicados a vigiar fronteiras, eles passaram a caçar e prender imigrantes, alguns inclusive em processo de regularização.
O resultado: 605 mil deportados até dezembro, além de 1,9 milhão de “autodeportações” voluntárias. Mas as ações do ICE também geraram revolta: a morte de uma cidadã americana baleada por um agente de imigração em Minnesota desencadeou uma onda de protestos no estado e uma batalha jurídica.
No início de abril, Trump anunciou subitamente um aumento nas tarifas de importação sobre produtos de 185 países, algumas chegando a até 50%, alegando defender o setor produtivo americano. Economistas questionaram o cálculo e até mesmo se o tarifaço surtiria o efeito desejado.
O Brasil inicialmente se saiu relativamente bem, com tarifas fixadas em 10%. Meses depois, porém, um adicional de 40% foi imposto a produtos nacionais, sob o argumento de que Bolsonaro supostamente sofria perseguição de autoridades brasileiras.
A questão só foi resolvida após uma reaproximação dos governos do Brasil e dos EUA, que culminou em uma reunião no fim de outubro entre Trump e Lula. No mês seguinte, a Casa Branca anunciou a retirada progressiva do tarifaço sobre a maioria das exportações brasileiras, em produtos como carne, café e aço.
Ao longo de 2025, Trump cortou repasses e abriu investigações contra algumas das maiores universidades do país, como Harvard e Columbia, sob uma série de pretextos – dos protestos contra Israel ocorridos no ano anterior à admissão de alunos estrangeiros.
Outro alvo do presidente foi a imprensa, desta vez com processos pedindo até R$ 79 bilhões em reparação por reportagens críticas ou negativas, como as que mostram a relação do presidente com Jeffrey Epstein. Ele também mirou no sistema jurídico: no fim de março, Trump divulgou um comunicado ameaçando punir advogados e escritórios que se envolvam em casos que ele considera “frívolos, irracionais e vexatórios” contra a sua gestão.
O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, foi o líder mundial com quem Trump mais se encontrou: foram 5 reuniões em 2025, um retrato do fortalecimento do apoio dos EUA a Israel. Na primeira delas, Trump causou espanto ao sugerir a criação de uma “Riviera do Oriente Médio” em Gaza. Oito meses depois, o republicano se tornou o mediador do cessar-fogo e agora propõe um conselho de paz para o território.
O apoio a Israel também se traduziu em um ataque a centrais nucleares do Irã, em julho, que encerrou um conflito de 12 dias em que Teerã e Tel Aviv trocaram lançamento de mísseis com quase 1.000 mortos.
A tensão entre Trump e o Irã voltou a escalar no início deste ano, em meio à repressão brutal aos protestos que tomaram o país. O republicano chegou a ameaçar o regime iraniano com uma ação militar.
Trump teve uma relação marcada por altos e baixos com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Ao mesmo tempo em que elogiava o líder russo, o norte-americano também chegou a chamá-lo de “louco” por causa da guerra na Ucrânia.
Os dois se encontraram no Alasca, em agosto, para uma reunião com foco na paz. Recentemente, Trump afirmou que Putin queria encerrar a guerra e acusou o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de criar obstáculos para um acordo de cessar-fogo.
Zelensky, aliás, foi alvo de ataques constantes de Trump ao longo de 2025. Em fevereiro, os dois bateram boca diante de jornalistas na Casa Branca, e o presidente ucraniano deixou a reunião visivelmente humilhado.
De setembro até 31 de dezembro de 2025, militares dos EUA bombardearam várias embarcações no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, alegando suspeita de tráfico de drogas. O número de mortos nas operações passou de 100, gerando forte reação da ONU, que chamou as ações de “execuções extrajudiciais”.
Em agosto, Trump ordenou uma ofensiva para cercar a Venezuela sob o pretexto de combater o tráfico internacional de drogas. Cerca de quatro meses depois, a iniciativa levou a uma operação dentro do território venezuelano, que terminou com a captura do ditador Nicolás Maduro.
Nos últimos meses, o presidente norte-americano também demonstrou interesse em tomar a Groenlândia, território da Dinamarca. Trump afirma que a ilha é estratégica para a segurança nacional dos EUA e, assim como no caso da Venezuela, não descarta o uso de força militar. A pressão maior, no entanto, é para a Dinamarca vender a ilha, caso contrário, pode sofrer um tarifaço.
Os dois episódios abalaram a confiança do mundo nos Estados Unidos, com reações tanto dos países da América Latina quanto de líderes europeus, que agora se veem sob ataque de seu maior aliado transatlântico.
A nomeação de Robert Kennedy Jr. como secretário de Saúde dos EUA foi a primeira de uma série de decisões polêmicas do governo Trump na área desde o começo do mandato. A mais recente foi retirar seis vacinas do calendário infantil recomendado, o que gerou um alerta dos médicos sobre o risco de retorno de doenças.
Outra medida do governo americano muito criticada internacionalmente foi o fechamento da USAID, agência que administrava toda a ajuda humanitária dos EUA no mundo. A decisão foi uma das primeiras iniciativas do DOGE, departamento que era comandado por Elon Musk, para promover cortes de gastos na máquina pública.
Após passar a campanha em 2024 denunciando uma suposta conspiração do governo dos EUA para encobrir o caso Jeffrey Epstein, Trump viu o escândalo sexual respingar no seu próprio mandato. O presidente norte-americano não conseguiu evitar que fossem reveladas trocas de e-mails mostrando seu vínculo com o bilionário — em um deles, Epstein disse que “Trump sabia das garotas“.
A pressão pública fez com que o Congresso aprovasse uma lei, que Trump depois sancionou, exigindo a divulgação de todos os documentos até 19 de dezembro. Mesmo assim, seu governo divulgou até o momento menos de 1% dos milhões de arquivos que tem sobre o caso.
Fonte: G1

